JOTA Principal: Lula estreita laços com a China em meio a contexto eleitoral e crises com Argentina e EUA

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Com a escalada da crise diplomática com a Argentina e a negativa aos pedidos de vistos de dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos — ambas situações vistas no Planalto como peças de uma tentativa de interferência eleitoral —, o telefonema entre Lula e Xi Jinping ganha relevância ainda maior.

Os líderes de Brasil e China puseram em pauta temas considerados estratégicos não só por ambos, mas também pelos Estados Unidos. No fim das contas, com o tarifaço dos americanos, todos os caminhos podem levar a uma expansão da parceria comercial com o país asiático, Vivian Oswald escreve na nota de abertura.

Nesta edição, também falamos sobre a renovação de dois terços do Senado (nota 2), a aposta de risco de Gilberto Kassab (nota 3), a confirmação da candidatura de Romeu Zema (nota 4) e mais.

Boa leitura.

O PONTO CENTRAL

1. Fechamento

Após dias de ameaças e investidas consideradas graves pelo Palácio do Planalto, o telefonema entre Lula e o líder chinês, Xi Jinping, pode ser lido como uma contraofensiva, Vivian Oswald analisa no JOTA PRO Poder.

Por que importa: Entraram na pauta a ampliação da cooperação em áreas estratégicas e de alta tecnologia, como IA, satélites e minerais críticos, além do comércio de fertilizantes — temas sensíveis pelos quais Washington vem entrando em conflito com diferentes países — e até a possibilidade de um acordo com o Mercosul.

Do lado chinês, a mensagem teve o mesmo tom.
De acordo com a agência Xinhua, Xi reiterou a Lula que a China “valoriza muito o status internacional e a importante influência do Brasil” e apoia o país “na defesa de sua soberania e independência, na oposição a interferências externas e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regionais e mundiais”.
O governo chinês não costuma emitir esse tipo de avaliação em público.
A conversa ocorreu após a publicação, neste domingo, de um artigo de Lula no Washington Post (com paywall), dirigido a Donald Trump.
No texto, o presidente afirma estar disposto a continuar negociando a pauta bilateral, mas adverte: “Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”.

🔭 Panorama: O fim de semana foi um prenúncio de que a guerra pela narrativa eleitoral está apenas começando.

O presidente da Argentina, Javier Milei, desencadeou a mais grave crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires neste século.
Após as declarações virulentas do argentino, o Itamaraty chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, e convocou o embaixador da Argentina no Brasil para cobrar explicações.
O gesto duplo confirma a gravidade do momento.
A última vez em que o governo adotou as duas medidas simultaneamente foi depois de Lula ter sido declarado persona non grata por Israel.
Segundo fontes ouvidas pelo JOTA, a intenção foi demonstrar o repúdio do governo brasileiro à atuação de Milei, que tenta influenciar o processo eleitoral no país.

No mesmo fim de semana, o Itamaraty negou visto a dois americanos que se preparavam para vir ao país levantar suspeitas sobre a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado, iriam a Brasília para se reunir com autoridades, líderes religiosos e representantes da sociedade civil e discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão, segundo informou à Reuters um porta-voz.
O governo opera numa linha tênue.
A ideia é concentrar-se no discurso da soberania, que, na avaliação do entorno do presidente, continua sendo a bala de prata desta eleição, sem se deixar envolver no que considera o jogo sujo da oposição.
Lula, por exemplo, não pretende responder diretamente a Milei.

🔮 O que observar: A retórica é forte, mas, no fim das contas, todos os caminhos podem levar à China.

Foi o que disseram aos americanos tanto Lula como Flávio Bolsonaro.
Empresários dos dois países também têm insistido nessa tecla.
O aceno à China é inegável.

E, para bom entendedor, os números falam por si.

No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras ao país asiático atingiram o recorde de US$ 58,3 bilhões, alta de US$ 10,5 bilhões, ou 21,9%, em relação ao mesmo período de 2025.
O recorde semestral anterior havia sido registrado em 2024, com US$ 51,6 bilhões.
“Todos os recados estão dados”, disse um interlocutor do alto escalão.
“Não vamos entrar nessa armadilha. Vamos deixar que caiam nas próprias armadilhas”, afirmou outro.

UMA MENSAGEM DA INDÚSTRIA BRASILEIRA (CNI, SESI, SENAI, IEL)

SENAI e SESI Lab apostam em startups para transformar a educação

Crédito: Iano Andrade/CNI

O Instituto SESI SENAI de Tecnologias Educacionais e o SESI Lab, em Brasília, lançaram o Programa de Residência de Edtechs All Aboard, iniciativa que vai selecionar até 16 startups para desenvolver soluções voltadas à educação, cultura, divulgação científica e experiências de aprendizagem.

As empresas escolhidas participarão de uma residência gratuita de 12 meses, sem cessão de participação societária, com acesso à infraestrutura do SESI Lab, mentorias, especialistas e conexões com investidores e parceiros do ecossistema de inovação.

Por que importa: a iniciativa amplia o modelo de inovação aberta do Sistema Indústria ao aproximar startups dos desafios reais da educação.

Panorama: durante a residência, as startups terão acesso a espaços maker, coworking, salas de reunião e uma agenda de mentorias, eventos e networking. Além de desenvolver os próprios produtos, elas deverão contribuir com oficinas, demonstrações tecnológicas e outras atividades promovidas pelo SESI Lab.

Acesse o edital completo e o formulário de inscrição.

2. O Senado que vem

Plenário do Senado / Crédito: Ton Molina/Agência Senado

Com desafios fiscais que exigirão decisões impopulares e indicações de peso para STF, PGR, BC e agências reguladoras, a governabilidade do próximo presidente da República está em jogo na renovação de dois terços do Senado Federal, Iago Bolívar escreve no JOTA PRO Poder.

As duas principais candidaturas adotaram estratégias diferentes para tentar influenciar a renovação de dois terços do Senado.
E, por enquanto, Lula parece estar conseguindo evitar o pior cenário para ele — em que o PL se aproximasse da maioria na Casa e, junto com aliados, alcançasse o quórum para impeachment.

🔭 Panorama: Há uma dispersão de candidaturas à direita — como em São Paulo, Minas, Santa Catarina e Paraná —, o que abriu espaço para Lula usar os instrumentos da situação e orientar ações mais pragmáticas, ganhando espaço mesmo onde há maior resistência ao PT.

Jair Bolsonaro delineou muito cedo um caráter plebiscitário para a escolha de senadores, que para ele deveria ser um voto em candidatos favoráveis a tirar do cargo ministros do STF.
A precocidade fez com que o interesse pelo tema crescesse muito antes da eleição, mas houve uma queda grande com o tempo, e o próprio núcleo bolsonarista diminuiu a ênfase no assunto.
É um sinal do que se vê na prática na seleção de candidaturas, que passou a considerar mais as realidades locais e as divergências entre alas da direita e da própria família Bolsonaro.
Para o PT e aliados, após do fracasso de 2022 — quando não conseguiu eleger nenhum senador no Sul nem no Sudeste —, as pesquisas mostram os partidos do campo liderando em cinco dos sete estados das duas regiões.
Há chance real de ao menos um esquerdista ser eleito pela primeira vez em cada um dos estados do Sudeste.
Em todos esses estados, a lógica foi a mesma: com ou sem coligação formal, não lançar mais candidatos que vagas, para não dispersar os votos.

🔮 O que observar: Essa vantagem tática dos governistas é importante porque são eles os que mais têm a perder.

Dos 54 senadores em fim de mandato, 29 votam majoritariamente com o governo e 25 contra.
Se a direita conseguisse repetir em outubro deste ano o mesmo desempenho de 2022, elegeria 38 senadores, enquanto a esquerda só 10, e o centro, 6.
Na matemática, isso poderia dar à oposição 57 votos, acima dos dois terços (54) necessários para impeachment e muito além dos três quintos (49) para mudar a Constituição e da maioria absoluta (41), suficiente para eleger o presidente do Senado e para aprovar projetos de lei e indicações que precisam de aval da Casa.
Na prática, o jogo é mais complexo, porque mesmo senadores do PL, como Romário, já votaram com o governo em projetos sobre o STF e declararam apoio a propostas como o fim da escala 6×1.
A imprevisibilidade natural da eleição de duas vagas não permite, a essa altura, cravar uma projeção com grande grau de confiança.

3. Aposta de risco

Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab se abraçam em evento do PSD / Crédito: Daniel Fagundes/Trilux

A convenção do PSD marcou uma inflexão importante na história do partido e na campanha de Ronaldo Caiado — e representa a mais arrojada aposta de Gilberto Kassab desde que entrou para a política, Beto Bombig escreve no JOTA.

Com o centrão em busca de “neutralidade”, Caiado ficou sem muitas alternativas para compor sua chapa, e Kassab dobrou a aposta pela primeira vez.
O presidente do PSD, em acordo com o candidato, assumiu ele próprio o posto de vice.
Uma clara sinalização de que o projeto presidencial é para ser levado a sério.

🔭 Panorama: A aposta é mostrar-se mais antipetista do que Flávio, mas acenando para o eleitor de centro-direita que não está satisfeito com a candidatura do filho 01, seja por questões éticas e morais ou porque não enxerga nele a energia para derrotar Lula.

O perigo dessa estratégia é Caiado passar a ser identificado como um “candidato nem-nem”, aquele que não é nem uma coisa nem outra e acaba rejeitado nas urnas.
É pouco provável, no entanto, que Caiado, com sua contundência, se transforme em um nem-nem — por isso, a estratégia da metralhadora giratória.
Para o eleitor de centro-direita que rejeita os Bolsonaros e Lula (os chamados “independentes”) e para o mercado financeiro da Faria Lima, as críticas a Flávio soam como música.
Para Kassab, o risco dos novos rumos adotados pela campanha é queimar suas pontes com as duas pontas da polarização, especialmente com Lula e o PT.
Afinal, mais do que fiador da candidatura, o presidente do PSD se tornou parceiro de chapa da metralhadora Caiado, que o agradeceu várias vezes na convenção pela oportunidade de disputar a Presidência.

4. Zema, sem vice, com discurso

O ex-governador Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Novo / Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Novo oficializou ontem (27) a candidatura de Romeu Zema à Presidência da República, Maria Eduarda Portela registra no JOTA.

A convenção ocorreu em Brasília e contou com a participação do presidente nacional do Novo, Eduardo Ribeiro, do senador Eduardo Girão, pré-candidato ao governo do Ceará, e do ex-deputado Deltan Dallagnol, pré-candidato ao Senado.
Com discurso de combate à corrupção e ao crime organizado, Zema voltou a criticar as relações de Daniel Vorcaro com políticos e ministros do Supremo.
Ele defendeu um “choque na segurança pública”, com a construção de um “superpresídio”, “de preferência num lugar remoto, no meio da Amazônia”.

Questionado sobre a escolha de um vice, o presidente do Novo pontuou que não descarta a possibilidade de uma chapa pura, mas não apresentou nomes.

Segundo ele, ainda há conversas com outros partidos.
Zema citou a possibilidade de Joaquim Barbosa (DC), ministro aposentado do STF, assumir a vaga.
“A principal bandeira dele, talvez seja o que o Brasil mais precisa hoje: combate à corrupção”, disse.
“Tive uma conversa muito breve com ele, não temos nada definido, como eu falei, e devemos marcar uma outra conversa, mas depende ainda do partido.”

5. Com o celular na mão

Ministros do TSE antes do início de uma sessão / Crédito: Antonio Augusto/TSE

Após decidir pela desidratação da minuta com diretrizes para os planos de conformidade de plataformas digitais, o Tribunal Superior Eleitoral terá uma semana decisiva para divulgar a versão definitiva da portaria, Edoardo Ghirotto e Karol Bandeira escrevem no JOTA PRO Tecnologia.

A necessidade de publicar o texto se dá pelo prazo apertado que plataformas terão para apresentar o plano de conformidade.
O TSE deve sugerir a extensão até 16 de agosto, quando começará a propaganda eleitoral, mas há dúvidas com relação à redução da granularidade das informações que serão exigidas.

🔭 Panorama: A tendência é de que o TSE exija apenas detalhes essenciais para o processo eleitoral deste ano.

A regulamentação, porém, terá de abordar os dez deveres previstos na resolução da propaganda eleitoral, entre eles salvaguardas para sistemas de IA e a moderação proativa por risco.
As plataformas que apresentarem os planos até a data estipulada pelo TSE deverão ser autorizadas a oferecer impulsionamento de conteúdos político-eleitorais já no dia 16 de agosto — antes, portanto, da aprovação efetiva da conformidade.
A suspensão só ocorrerá se a empresa deixar de promover ajustes exigidos pelo TSE ao longo do processo eleitoral.
Uma mudança que poderá agilizar o processo é a possibilidade de os grupos econômicos enviarem para o TSE um plano de conformidade unificado para todos os serviços e produtos digitais que possuem.

6. Pejotização e a Previdência

O ministro da Previdência, Wolney Queiroz, em entrevista a Flávia Maia e Fábio Pupo / Crédito: Gabriella Martins/JOTA

O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, disse que está disposto a conversar com os ministros do Supremo Tribunal Federal para mostrar os impactos negativos da pejotização ao regime previdenciário.

Na avaliação dele, esse modelo penaliza a Previdência, os trabalhadores e tem sido uma “epidemia no país”, segundo declarou em entrevista a Flávia Maia e Fábio Pupo. Leia mais.
Queiroz também disse discordar sobre a necessidade de uma nova reforma previdenciária. Leia mais.
Assista à íntegra no YouTube.

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