Por que o mercado de previsão também pode ser manipulado

No fim de junho de 2026, a faixa “Earrings”, de Malcolm Todd, um lançamento de 2024, subiu ao topo da parada diária do Spotify nos Estados Unidos depois de as reproduções crescerem cerca de 70% de um dia para o outro, movimento que a plataforma investigou e cujo resultado, anunciado em 1º de julho, foi remover mais de 500 mil reproduções que não considerava de ouvintes reais, rebaixando a faixa para o 4º lugar, sem confirmar a autoria da fraude nem vínculo com o mercado de apostas.

A hipótese dos robôs partiu não do Spotify, mas do trader Caleb Davies, que descreveu a alta como um evento de mais de 11 desvios-padrão, estatisticamente quase impossível por acaso, e só a Kalshi mantinha mercado para o desfecho, num contrato que, na semana anterior, precificava a chance de Todd chegar ao topo em torno de dois e meio por cento.

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A aposta, nesse desenho, deixou de ser previsão e virou o que proponho chamar de manipulação por autorrealização, aquela em que o apostador não antecipa um desfecho independente, mas produz deliberadamente o resultado sobre o qual apostou, diferente do insider, que apenas explora informação ainda não pública sobre um evento que independe de sua conduta.

O mais eloquente é o tempo, pois os vencedores receberam, com retorno próximo de 20 vezes, antes que o Spotify concluísse a revisão, de sorte que a liquidação se deu sobre um resultado já falso e apenas ainda não reconhecido como tal, e esse descompasso entre a rapidez com que o mercado liquida e a lentidão com que a plataforma verifica a métrica é a verdadeira brecha, pois ao manipulador basta que a fraude sobreviva até que o ganho seja sacado, já que a reversão posterior não devolve o dinheiro a quem apostou certo.

O episódio ajuda a explicar por que prefiro dizer mercado de previsão, e não de predição, numa distinção que carrega o argumento inteiro deste texto, porque predição sugere uma faculdade quase oracular, a leitura de um futuro inferido, ao passo que previsão remete a um exercício probabilístico e falível sobre um evento cujo desfecho ainda não existe e que, por não existir, permanece sujeito a interferência, e é essa distância entre estimar um resultado e construí-lo que abre a porta para a manipulação.

Não sou contra o instrumento, e seus operadores têm boa parte da razão ao defendê-lo. Numa casa de apostas você joga contra a banca, que lucra quando você perde e tem incentivo para lhe vender uma probabilidade pior do que a real, ao passo que esse mercado funciona como uma bolsa, em que os usuários compram e vendem entre si conforme sua leitura do futuro e a plataforma apenas cria o negócio e vive de uma taxa de transação, de modo que seu interesse é que as pessoas continuem trazendo informação e continuem fazendo trades.

É o que torna o mecanismo legítimo e também o expõe, porque quem traz informação ao mercado pode, em vez de prevê-la, fabricá-la, e reconhecer essa utilidade é condição para ver onde ele se torna vulnerável antes que isso se naturalize.

O mercado de capitais convive há um século com as duas patologias que reaparecem aqui: o insider, que negocia sabendo o que os demais ignoram, e a manipulação propriamente dita, em que o agente atua sobre a variável subjacente para produzir o resultado que negocia. O mercado de previsão herda ambas: o mecanismo é velho e a superfície sobre a qual incide é nova, e o caso da música é a forma mais nítida da segunda, aquela que o direito brasileiro já teve de enfrentar antes de qualquer escândalo musical.

O que torna essa modalidade perigosa é que a variável subjacente migrou do ativo financeiro clássico, caro e vigiado, para a métrica cultural algorítmica, barata e desprotegida, porque distorcer o preço de uma ação exige capital e deixa rastro em bolsa regulada, ao passo que inflar um ranking de streaming exige apenas uma botnet e opera sobre uma métrica que a plataforma concebeu como medida de engajamento, nunca como lastro de contrato.

A vulnerabilidade é proporcional à facilidade de fabricar o desfecho; por isso, as métricas culturais ocupam a extremidade mais exposta, enquanto um resultado eleitoral ou um indicador macroeconômico oficial resiste melhor, porque forjá-lo exigiria coordenar tantas vontades que o retorno da aposta dificilmente compensaria o custo.

Há aí um efeito de segunda ordem, pois a manipulação só compensa quando o retorno supera o custo de forjar o desfecho, de sorte que num mercado raso o ganho não paga a botnet, mas num mercado com liquidez relevante o mesmo ataque, agora lucrativo, se torna quase inevitável, e o mercado de previsão contamina assim o objeto que pretende medir, num caso quase escolar do que Charles Goodhart formulou ao observar que toda medida, ao converter-se em objetivo, deixa de ser boa medida, agravado aqui porque o alvo passou a vir acompanhado de um pagamento explícito por acertá-lo à força.

A música é só uma das formas de contaminação. Uma aposta sobre a indisponibilidade de um sistema informático, negociada por quem pode derrubá-lo, converte-se em prêmio pago a quem o sabota, e uma terceira modalidade apenas distorce o preço do contrato, à semelhança do spoofing nas bolsas. Mas o que aproxima as três é um mesmo ponto de contato entre a aposta e a realidade: a existência de alguém que é ao mesmo tempo apostador e agente com poder sobre a variável, e é essa sobreposição, muito antes da natureza cultural ou financeira do evento, a fonte comum de todas as manipulações que me interessam.

A resposta regulatória tem sido desigual entre as jurisdições. Nos Estados Unidos as plataformas operam sob a CFTC como contratos de evento, e o modelo é de contenção reativa, contrato a contrato, pois assim se permite que um contrato entre em vigor no dia seguinte, sem a janela de dez dias da SEC, e a barreira só atua depois, como se viu em dezembro de 2024, quando a Kalshi listou apostas sobre o destino judicial do suspeito do assassinato de um executivo da UnitedHealth e a negociação foi suspensa dois dias depois por notificação da CFTC, que veda contratos ligados a crimes contrários ao interesse público.

No Brasil o caminho foi outro, porque em abril de 2026 o Conselho Monetário Nacional editou a Resolução 5.298 e o Ministério da Fazenda bloqueou dezenas de plataformas, entre elas a Kalshi e a Polymarket, mas a medida não foi proibição pura e simples dos derivativos de evento, e sim a exigência de que todo derivativo tenha por subjacente um referencial econômico-financeiro, vedados apenas os atrelados a eventos que não o possuam, de natureza esportiva, política, cultural ou de entretenimento, e mantido, sob a CVM, aquele de lastro econômico legítimo como inflação, juros ou câmbio. O regulador brasileiro não baniu a categoria nem recusou a natureza de derivativo, traçou a fronteira no ponto que me interessa, o da idoneidade do subjacente.

Que o caso não seja isolado se vê no soldado norte-americano acusado de negociar na Polymarket contratos ligados à operação de captura de Nicolás Maduro, com ganho superior a US$ 400 mil, em que reaparece a mesma proximidade entre quem aposta e quem tem poder de agir sobre o evento, e a própria reação do Spotify, ao pedir que a Kalshi retirasse sua marca, revela o desconforto de uma empresa convertida, sem consentimento, em fornecedora involuntária do lastro de um mercado que se organiza em torno de números que ela nunca produziu para essa finalidade.

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Não proponho proibir o mercado de previsão, o que seria descartar um mecanismo útil por causa de um uso perverso, e sim reconhecer que o que se viu constitui uma manipulação de tipo próprio, própria não porque o mecanismo seja inédito, tão antigo quanto os próprios mercados, mas porque mudou o subjacente, que saiu do ativo financeiro vigiado para uma métrica cultural que uma botnet forja a baixo custo e que agora paga de imediato a quem a forja.

Se esse tipo de negociação vier a existir com liquidez relevante, e há boas razões para desejar que exista, terá de conviver com o fato de que a métrica que se propõe a medir virou alvo econômico de quem a negocia, de modo que o problema de fundo, longe de ser a existência de tais mercados ou a liberdade de apostar sobre o futuro, é impedir que o preço pago pela previsão se converta em financiamento da fabricação daquele mesmo futuro, isto é, que a medição, ao remunerar quem acerta, remunere na verdade quem forja o resultado, e é essa a dificuldade que a discussão atual, ainda presa à moldura do jogo e da aposta, não me parece estar enfrentando à altura.

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