A última semana do mês de agosto foi marcada por uma safra de indicadores econômicos que evidenciam os impactos da política monetária contracionista praticada pelo Banco Central (BC). Com a taxa básica (Selic) a 15% há alguns meses, a autoridade monetária conseguiu consolidar a taxa de câmbio mais perto de R$ 5,40, enquanto os indicadores de inflação apresentam números mais baixos. Como consequência, as expectativas de mercado têm mostrado uma melhora consistente, embora ainda estejam distantes da meta de 3%.
Mais recentemente, o mercado de trabalho, variável que demora mais a reagir ao choque de juros, já vinha mostrando sinais de moderação, mas em julho a perda de ritmo foi mais evidente. Foram criadas 129 mil vagas formais de emprego em julho, um valor 32% inferior ao mesmo mês em 2024 e abaixo das expectativas do mercado.
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Já conhecido pelo seu posicionamento crítico à alta da taxa de juros, o ministro do trabalho, Luiz Marinho, ao ser questionado pelo JOTA nesta quarta-feira (27/8), disse que “se olhássemos seis meses atrás, fossem outros juros, estaríamos com muito mais contratações […] os juros são um problema, precisamos de redução de juros urgentemente para a atividade econômica se manter”.
A fala de Marinho, a despeito do ministro ser crítico conhecido à atuação recente do BC, não é um fato isolado. A já esperada desaceleração da economia é alvo de monitoramento pelo atual governo, especialmente para 2026, ano eleitoral. Ainda que seja mais clara a diminuição do ritmo, dados como a piora no déficit na conta corrente do balanço de pagamentos, indicam que a economia mantém algum dinamismo – embora a valorização cambial também esteja ajudando no aumento de importações de bens e serviços.
Na safra de indicadores caminhando na direção desejada pela autoridade monetária, o IPCA-15, considerado prévia da inflação, mostrou uma queda de 0,14% em agosto ante uma alta de 0,33% em julho. O indicador acumulado em 12 meses ficou abaixo de 5% pela primeira vez desde março.
Embora parte do resultado se deva a fatores alheios à atuação dos juros, como o bônus de Itaipu nas contas de luz, a inflação mais comportada é uma realidade e não se pode mais negar o impacto dos juros. Mesmo assim, vale ressaltar que o nível do IPCA, tanto corrente como as expectativas, está significativamente acima da meta de 3%.
A pesquisa Focus do BC, que captura semanalmente as expectativas dos agentes do setor financeiro, mostrou mais uma revisão para baixo das expectativas para o IPCA em 2025 para 4,86%, ainda acima dos 4,5% de limite superior da meta contínua de inflação. Para 2026, porém, a queda foi mais expressiva, com um IPCA na casa de 4,33% ante 4,44% na última semana, ou seja, já se consolidando dentro do intervalo de tolerância, mas ainda longe do centro da meta.
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O Focus é um dos elementos considerados pelo BC para elaborar seus cenários do horizonte relevante da política monetária. Não à toa, após os dados de expectativas e do IPCA-15, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que “o BC não pode se emocionar” e nem “deixar se levar por um ou outro dado pontual”. Ele reforçou a mensagem passada pelo último Copom de juros altos por período prolongado.
A grande dúvida que paira no mercado é sobre uma eventual antecipação do início do ciclo de corte da Selic. Atualmente, o cenário base da maioria dos analistas é de que as quedas comecem no início de 2026, mas o aumento nos indicadores apontando uma arrefecimento da atividade, do cenário de inflação, já começam a aparecer leituras de um início de cortes já em dezembro – parte do governo, por exemplo, aposta nesse cenário.