A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um retrato antecipado do futuro da mídia brasileira. Na década passada, o YouTube perseguiu atributos historicamente associados à televisão: conteúdo profissional, grandes direitos esportivos, anunciantes nacionais e audiência de massa — e a tela grande superou celular e desktop para virar o principal ponto de acesso do site, que completa 21 anos em 2026.
Agora o movimento se inverte. Com a TV 3.0, a televisão aberta vai começar a incorporar aplicativos, personalização, dados e interatividade — os traços que ajudaram as plataformas a crescer. E essa virada não é apenas tecnológica: quando a televisão se aproxima das plataformas, os debates sobre publicidade, tratamento de dados, moderação e responsabilidade deixam de pertencer só à internet. A Copa ofereceu exemplos concretos dessa convergência.
A gratuidade mudou de endereço
Entre os 216 territórios licenciados pela FIFA, o Brasil foi o único onde todos os jogos puderam ser vistos de graça pelo YouTube, no canal da CazéTV. A operação movimentou cerca de R$ 2 bilhões em patrocínios, com cotas principais estimadas em R$ 185 milhões, e hoje os vídeos do canal ocupam as 28 primeiras posições entre as maiores lives da história do YouTube. Não é um feito pequeno.
Isso não significa, porém, que a internet substituiu a televisão. O acesso digital depende de conexão e equipamentos que ainda são desiguais, e a publicidade sozinha não sustenta todo tipo de conteúdo profissional. Mas a experiência brasileira enfraquece a ideia de que acesso gratuito, grandes anunciantes e audiência nacional são atributos exclusivos da radiodifusão.
Essa mudança acontece no momento em que a própria televisão aberta se transforma. O Decreto nº 12.595/2025 instituiu a TV 3.0 e, com isso, um novo padrão tecnológico que possibilitará interfaces baseadas em aplicativos, personalização de conteúdo e de publicidade, segmentação geográfica e funcionalidades interativas, como comentários e chat ao vivo.
A aproximação trará benefícios e mudanças na própria lógica comercial — hoje muito baseada em audiência e que poderá incorporar métricas de comunidade e engajamento. Mas as emissoras poderão importar não só vantagens econômicas, como também responsabilidades. Só na partida entre Brasil e Marrocos, foram 89.236 mensagens de 62.310 perfis no chat da CazéTV. Questões de moderação de conteúdo discutidas na ação do STF que julgou o art. 19 do Marco Civil da Internet e deveres sistêmicos de plataformas como aqueles trazidos pelo recente Decreto nº 12.976/2026 podem também migrar para as emissoras. Com isso, a pergunta regulatória deixa de ser “isso é televisão ou internet?” e passa a ser “que função esse serviço exerce e que riscos produz?”.
A crítica às bets precisa valer para todos
Outro ponto controverso foi a publicidade de apostas. A Secretaria Nacional do Consumidor abriu investigação sobre ativações nas transmissões da CazéTV, sobretudo a exibição de probabilidades em tempo real, e uma rápida reação do governo resultou na Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73, que instituiu diversas novas obrigações para anunciantes.
O escrutínio à CazéTV foi legítimo, mas é importante lembrar que a Portaria, acertadamente, institui obrigações para “quaisquer meios”, formatos ou canais. A presença das bets atravessou televisão aberta, TV paga, streaming e canais nativos digitais — só na Globo e no SBT, foram sete casas de apostas anunciadas durante a transmissão. Soma-se a isso o fato de que grupos ligados às duas emissoras entraram diretamente no mercado e hoje têm suas próprias operações de bets.
Com isso, o governo parece sinalizar que quem transmite a partida, vende a publicidade e participa economicamente do mercado anunciado ocupa posições que precisam ser avaliadas em conjunto — e a separação entre conteúdo editorial, entretenimento e mensagem comercial fica ainda mais crítica quando a empresa de mídia também tem interesse no setor. Na tela do futuro, regular cada elemento pela sua origem “IP vs. broadcasting” só produzirá assimetrias difíceis de justificar.
A violência contra mulheres não começa nem termina na internet
Também foi nessa Copa do Mundo que repórteres e comentaristas mulheres bateram recorde de presença nas transmissões. Contudo, muitas dessas profissionais ainda são avaliadas mais pela sua aparência do que por sua competência, tendo ainda que superar diversas barreiras institucionais — muito mais profundas que a internet — para sua legitimação.
Em pesquisa que o Reglab fez em parceria com o Amado Mundo, analisamos 8.981 comentários em 24 vídeos da cobertura da CazéTV, apresentados por quatro mulheres e quatro homens na mesma função. 18% dos comentários às mulheres tratavam de aparência, corpo ou sexualidade; entre os dirigidos aos homens, não houve ocorrência equivalente.
Há avanços culturais (9% dos comentários eram de mulheres e homens que criticavam comentários machistas) e institucionais. Em maio, o governo publicou o Decreto nº 12.976/2026, voltado à proteção das mulheres na internet, com deveres específicos para plataformas, medidas contra ataques coordenados e responsabilização por falha sistêmica na retirada de conteúdo ilícito. Ainda que não seja um instrumento perfeito, já é um avanço importante, e que traz também a semente de um problema do futuro: suas obrigações são voltadas para “provedores de aplicações de internet”. Como estamos reforçando aqui, o ambiente digital do futuro não vai mais diferenciar o que é protocolo TCP/IP ou DTV+.
Regular funções, não rótulos
A Copa não decretou o fim da televisão — ao contrário, mostrou a força de seu principal atributo, a gratuidade, agora reproduzido também no digital. Contudo, revelou que a velha divisão entre televisão e internet perdeu utilidade: o conteúdo circula entre telas, a publicidade atravessa meios, os grupos de comunicação operam novos negócios e o público participa da transmissão em tempo real. A TV 3.0 vai aprofundar esse processo — de forma leve já na Copa feminina de 2027 e madura rumo a 2030.
A resposta regulatória não deveria simplesmente transportar todas as regras das plataformas para a radiodifusão, nem preservar tratamentos distintos só porque uma empresa nasceu emissora e outra nasceu canal digital. O caminho mais consistente é olhar a função exercida, o risco produzido e o grau de controle de cada agente sobre a experiência do público. O jogo virou — e as responsabilidades também precisam atravessar a tela.