Além de sobretaxar as exportações brasileiras em 25% — a partir da meia noite de 22 de julho — , os EUA ameaçam abertamente o Brasil com novas penalidades, caso o país decida seguir o caminho da retaliação. No texto publicado na madrugada desta quinta-feira, avisam que ações do Brasil que aumentem o ônus ou a restrição ao comércio dos EUA, e usam o exemplo de aumento de tarifas, “podem indicar que a atuação dos EUA nesse nível não é suficiente para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas brasileiras considerados passíveis de ação nesta investigação”.
E dizem textualmente que o que está ali não impede a imposição de “outras medidas cabíveis, de acordo com a Seção 301 da Lei de Comércio ou outras leis, conforme apropriado e previsto nessas leis”.
De sua parte, o Brasil já avisou que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC. O recado está na nota virulenta de repúdio à decisão americana que afirma que o país “não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio” e reitera nunca ter deixado a mesa de negociações.
Sua divulgação minutos depois de publicada oficialmente a decisão americana mostra que o texto já estava pronto, desde que Greer anunciou ao governo brasileiro a opção pela taxação na sua quinta e última reunião antes do fim do processo.
A decisão americana afeta cerca de US$ 11 bilhões das exportações brasileiras, ou 26% do total enviado aos EUA, segundo estimativas da AmCham Brasil. Mas, para o alívio de alguns setores econômicos, aumenta a lista de exceções em 420 produtos. Entre os principais estão ferro-gusa, peixes, entre eles tilápias, e cafés, entre eles o solúvel.
Submetida a Trump antes de ser divulgada, a opção pelo tarifaço azeda de vez a relação bilateral. Na nota brasileira, o governo afirma que o dia 15 de julho “passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”.
Os EUA dão a entender que estariam dispostos a seguir negociando, embora fique clara a sua insatisfação com termos discutidos até aqui. Americanos e brasileiros já disseram aberta, ou reservadamente, que estão muito longe do que seria um acordo satisfatório para todos. No Executivo, depois de pelo menos 30 reuniões de negociações, das quais 11 apenas com o secretário de Estado, Marco Rubio, e Greer, está claro que o momento eleitoral agora é prioridade.
Possíveis efeitos eleitorais
Nos corredores da Esplanada dos Ministérios, a avaliação é a de que, no fundo, Trump deu à situação um belo presente.
De acordo com a nova pesquisa Genial/Quaest, 63% dos entrevistados acreditam que o tarifaço americano vai prejudicar a sua vida, ou a de sua família. E 42% admitiram que o tarifaço aumenta sua vontade de votar em Lula. Além disso, 51% concordam com a afirmação de Lula de que Flavio Bolsonaro pediu as tarifas a Trump, ao passo que 30% concordam com a a afirmação de Flavio de que foi aos EUA pedir para o Republicano não taxar o Brasil.
A pesquisa ainda indica que a imagem dos EUA entre os eleitores piorou pelo terceiro mês consecutivo. A opinião desfavorável sobre o país passou para 48% dos entrevistados, contra 46% e 45% nos meses imediatamente anteriores.
De lado a lado, está aberta a temporada do embate retórico. Na manhã desta quinta-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, acusou o governo brasileiro de má fé nas negociações e o presidente Lula de ter colocado seu egos acima de um acordo.
“Hoje, o presidente Trump instruiu o USTR a impor uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras. Que não reste dúvida sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso”, publicou o secretário em sua conta no X.
Reação do Brasil
O Brasil, por sua vez, também acusa dos EUA de má-fé. Técnicos ouvidos pelo JOTA afirmam que os americanos nunca deixaram claro o que queriam de fato, e não se moveram “um milímetro” para mostrar flexibilidade durante todo o processo de negociações, que começou ainda no passado e se intensificou desde o encontro olho no olho entre Lula e Trump em Washington em março. Foram mais de 30 reuniões, presenciais, virtuais ou por telefone, desde o anúncio do tarifaço original, nos níveis presidencial, ministerial e técnico. Somente com Greer e Rubio foram 11 contatos, sempre por iniciativa do Brasil.
Na tarde desta quinta-feira, os ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Marcio Elias Rosa, foram a público comentar a decisão americana. Os dois ministros vinham conduzindo as negociações bilaterais intensificadas.
Em sua declaração à imprensa, Vieira também usou palavras fortes. Criticou Rubio e falou em manifestações inaceitáveis e ofensivas ao Brasil e ao povo brasileiro. Disse que os EUA queriam a “capitulação” no processo negociador, com abertura total, exclusiva e irrestrita de setores inteiros. E que o país não se curvou a “demandas desmedidas”.
Segundo ele, além de usar “falsas afirmações” sobre o empenho brasileiro em negociar, “Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo, que se empenhou pessoalmente pela abertura de canais de negociação em várias ocasiões”.
“O que Rubio chama de ego nada mais é do que a convicção inabalável do presidente Lula na defesa da soberania brasileira e dos interesses das nossas empresas e de nossos trabalhadores”, completou.