JOTA Principal: Novo tarifaço dos EUA reforça discurso eleitoral de Lula respaldado por pesquisas

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Era pedra cantada a confirmação do novo tarifaço que os Estados Unidos irão aplicar a produtos brasileiros, cuja confirmação veio na noite de ontem (15).

Também já eram favas contadas que Lula e a campanha petista buscariam reforçar o discurso de defesa da soberania a partir da decisão do governo Donald Trump, ressaltando as articulações de Eduardo e Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos.

A partir do cenário atual, as incertezas estão mais relacionadas à resposta que o governo brasileiro dará no campo econômico — e menos aos possíveis impactos eleitorais da decisão americana.

O formato de uma eventual retaliação será definido nos próximos dias, enquanto o discurso do governo encontra respaldo na opinião pública, Vivian Oswald e Daniel Marcelino analisam na nota de abertura.

Na campanha adversária, a foto de Flávio Bolsonaro com o Sicário de Daniel Vorcaro representa mais um dos tantos caldos levados nas últimas semanas. Marianna Holanda escreve sobre a repercussão na nota 3.

Boa leitura.

O PONTO CENTRAL

1. ‘Bala de prata’

O novo tarifaço de Donald Trump aciona a “bala de prata” que vinha sendo guardada pela campanha de Lula para construir sua narrativa sobre a relação com os Estados Unidos nesta disputa eleitoral, Vivian Oswald e Daniel Marcelino analisam no JOTA PRO Poder.

A confirmação da sobretaxa de 25%, acompanhada de uma lista mais ampla de isenções — como já havia indicado o JOTA em 6 de julho —, dará munição ao discurso da soberania.

🔭 Panorama: A reação do governo será dividida em duas frentes.

Na política, o Planalto continuará explorando o slogan de que o tarifaço “tem nome e sobrenome” e atribuirá ao clã Bolsonaro a responsabilidade pela crise.
Na economia, prepara medidas comerciais para amortecer os efeitos da decisão, ainda em fase de definição.

O formato de uma eventual retaliação deve ser escolhido nos próximos dias.

O resultado político dessa resposta dependerá da percepção dos brasileiros sobre quem provocou a crise e, sobretudo, de seus efeitos sobre o bolso dos consumidores até outubro.

Dados ainda não divulgados da Genial/Quaest sobre a guerra comercial sugerem que o discurso do governo encontra respaldo na opinião pública.

A maioria dos entrevistados considera que Lula defende melhor os interesses do país do que Flávio Bolsonaro.
Outro indicador relevante é a atribuição de responsabilidade pelas medidas impostas por Trump, fator que também tende a favorecer o Planalto na disputa sobre quem deu origem à crise.

⏩ Pela frente: A Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso no ano passado, exige o cumprimento de etapas burocráticas.

Não é possível, portanto, decidir de uma hora para a outra quais setores serão atingidos.
A estimativa é que o processo leve de dois a três meses e inclua consultas públicas aos segmentos afetados.
A preocupação é evitar que a resposta cause prejuízos à própria economia brasileira.

UMA MENSAGEM DO SINDICOM

Desabastecimento pode gerar perdas de R$ 9,1 bilhões/dia

Crédito: William dos Santos/Getty Images

A manutenção da estrutura operacional e financeira do setor de distribuição de combustível se mostra mais evidente ao observar as consequências de uma eventual falha no suprimento no Brasil. Estudos do Banco Central e da FGV indicam que uma interrupção de apenas nove dias no transporte rodoviário tem o potencial de gerar perdas equivalentes a R$ 9,1 bilhões por dia.

De acordo com Gustavo Madi, da LCA Consultoria, esse impacto ocorre porque uma paralisação afeta simultaneamente todas as cadeias produtivas, do agronegócio ao abastecimento urbano, ao interromper de forma sistêmica a produção, o consumo e a circulação de mercadorias em todo o país. “A estimativa busca traduzir economicamente essa interrupção sistêmica, refletindo perdas de produção, consumo e circulação de mercadorias”, diz.

2. Enquanto isso, na feira

Homem segura cenoura em feira na zona sul paulistana / Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O Ministério da Fazenda elevou de 4,5% para 5,1% a projeção para a inflação em 2026, Fábio Pupo registra no JOTA.

A revisão está na edição de julho do Boletim Macrofiscal, divulgado ontem (15) pela Secretaria de Política Econômica.
A mudança reflete a aceleração acima do esperado da inflação de serviços e de bens industriais e foi antecipado pela secretária de Política Econômica, Débora Freire, em entrevista ao JOTA.

🔭 Panorama: A pasta também cita riscos para os próximos meses, como os efeitos indiretos da alta recente do petróleo e a expectativa de encarecimento dos alimentos no segundo semestre, diante da possibilidade de um fenômeno El Niño mais intenso.

A secretaria afirma que o novo encarecimento do petróleo “não está incorporado ao cenário e constitui risco altista relevante para os preços de energia e para a inflação”.
Por outro lado, já estão consideradas “as novas tarifas americanas e a materialização de um super El Niño, que pode levar a eventos climáticos extremos que pressionam a inflação de alimentos e de energia, especialmente nas regiões da América Latina e da Ásia”.

A equipe econômica manteve em 2,3% a projeção de crescimento do PIB em 2026.

Segundo a Fazenda, houve uma recomposição entre os setores da economia.
A estimativa para a agropecuária foi elevada de 1,2% para 1,8%, enquanto a previsão para a indústria caiu de 2,2% para 2,1%.
A projeção para o setor de serviços permaneceu em 2,4%.
O governo afirma que a atividade econômica deve perder força ao longo do ano, com crescimento de 0,8% no segundo trimestre, ante 1,1% no primeiro, em razão do arrefecimento da safra agrícola e dos efeitos defasados da política monetária.

Aliás… O ministro Dario Durigan reiterou ser “provável” que o governo questione no Supremo a proposta aprovada pelo Senado que cria a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde sem indicação de fontes de receita.

Segundo o ministro, a PEC “está em desconformidade com o planejamento orçamentário do país, não só do governo federal”. Leia mais.

3. Caldo atrás de caldo

Flávio Bolsonaro e o Sicário, apontado como chefe de uma milícia privada comandada por Daniel Vorcaro / Crédito: Reprodução/ICL Notícias

A campanha de Flávio Bolsonaro mal consegue se recuperar de uma crise e lá vem outra — ontem (15), uma foto do candidato ao lado de Sicário, do caso Master, foi publicada pelo ICL Notícias (sem paywall).

Por que importa: Ainda que ele siga sendo o único candidato competitivo contra Lula, cresce entre setores produtivos e alas do mundo político o sentimento de fragilidade da campanha do PL, Marianna Holanda escreve no JOTA PRO Poder.

Há uma avaliação de que, a partir de agosto, quando se encerrar o prazo para o registro de candidaturas, Flávio pode murchar.
Diante de uma lista de disputas internas, é difícil distinguir o que é torcida, fogo amigo ou efetivamente algo concreto, mas há o temor de que surjam novas informações capazes de ferir de morte a candidatura.

Uma desistência de Flávio, contudo, é considerada impossível.

Até porque quem pode tirá-lo da disputa não são Lula, Vorcaro ou a Polícia Federal — apenas Jair Bolsonaro.
Preso e sem acesso ao filho, ele não deve abrir mão de manter o espólio eleitoral no clã, como já demonstrou repetidas vezes.

🔮 O que observar: Flávio deve chegar ainda mais fragilizado à sua convenção, possivelmente sem o apoio de outros partidos.

O cenário ampliou o desespero na busca por um nome competitivo e, portanto, a pressão para que a senadora Tereza Cristina (PP-MS) aceite a empreitada.
O nome da ex-ministra da Agricultura é sempre lembrado quando se trata de uma vaga de vice.
Nas últimas semanas, aliados de centro e políticos que apoiam Flávio passaram a insuflar a senadora.

Sim, mas… A senadora resiste às investidas.

Tereza se queixa de ser lembrada agora, aos 45 do segundo tempo, quando a classe política de centro vê murchar a candidatura de Flávio.
Tereza, que ainda tem quatro anos de mandato, não esconde que o cargo que gostaria de ocupar é o de presidente do Senado — cadeira nunca ocupada por uma mulher.

4. Indicações ocultas

O ministro Flávio Dino / Crédito: Rosinei Coutinho/STF

Flávio Dino determinou prazo de dez dias para que os presidentes de todos os partidos com representação no Congresso informem sobre a existência de gestão e distribuição de emendas pelas presidências das siglas, Lucas Mendes escreve no JOTA.

O ministro listou uma série de questões que deverão ser respondidas.
Dino quer saber, por exemplo, se o presidente do partido dispõe de “cotas, reservas ou qualquer outro mecanismo de alocação” de emendas.
Outro ponto a ser esclarecido é a quem compete autorizar e deliberar sobre o uso das emendas e o instrumento por meio do qual esses mecanismos são formalizados, como normas ou atas.
O magistrado cita na decisão a entrevista em que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, admitiu à GloboNews que ele e outros dirigentes partidários indicariam a destinação de emendas mesmo sem terem mandatos.

5. Aposta rápida

Edson Fachin recebe o ministro Dario Durigan no Supremo, ontem (15/7) / Crédito: Gustavo Moreno/STF

O presidente do Supremo, Edson Fachin, tem tratado com os demais ministros sobre a possibilidade de julgar ações relacionadas a bets ainda neste ano, Lucas Mendes escreve no JOTA.

“O STF, ao apreciar essas matérias, certamente levará em conta tudo que já foi recolhido nos autos, bem como nas audiências públicas e todo debate que será levado a efeito no plenário do STF para enfrentar um dos temas importantes para a sociedade brasileira, para as famílias brasileiras”, disse ontem (15).
Ele se reuniu com Dario Durigan para tratar da regulação do mercado de apostas esportivas e o combate às bets ilegais.

🎲 Panorama: Há ao menos três ações de interesse das bets em tramitação no Supremo.

Há uma da Procuradoria-Geral da República contra a lei que autorizou o funcionamento das apostas esportivas (ADI 7.749).
Há uma outra (ADI 7721), apresentada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), em que já foi proferida decisão restringindo o uso por beneficiários do Bolsa Família — ambas estão com Luiz Fux.
Outra ação, de relatoria de Nunes Marques (ADPF 1.212), foi apresentada pelo partido Solidariedade.
No processo, o magistrado suspendeu leis e decretos municipais que criam, autorizam ou regulam loterias e apostas esportivas.

6. Moedor

Trabalhador em linha de processamento de proteínas / Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Entre 2016 e este ano, foram ajuizadas 22.815 ações trabalhistas relacionadas ao burnout no país, acumulando mais de R$ 9,94 bilhões em valores de causa, Mirielle Carvalho registra no JOTA.

O número é fruto de levantamento da Predictus, que identificou um crescimento de 400% entre 2016 e 2025.
A pesquisa analisou ações ajuizadas entre janeiro de 2016 e abril de 2026, com o montante de 11.287 empresas mapeadas.

🫩 Panorama: O ponto de inflexão da série ocorreu a partir de 2022, quando a OMS passou a reconhecer o burnout como doença ocupacional na CID-11.

Em 2016, primeiro ano da série histórica analisada pela Predictus, 943 ações relacionadas a esgotamento profissional foram ajuizadas.
Em 2024, ano de maior pico da série, esse número chegou a 5.999 processos, o que representa um aumento quase seis vezes maior em oito anos, com um valor acumulado de R$ 2,17 bilhões em valores de causa.
O estudo considera que as decisões do Tribunal Superior do Trabalho sobre a matéria também consolidaram o entendimento de que o nexo entre ambiente laboral e o adoecimento mental pode ser suficiente para responsabilizar as empregadoras.
No raio-X dos pedidos dos trabalhadores, o reconhecimento da doença ocupacional tem se tornado mais frequente, representando 30,37% das solicitações.
Em seguida, estão os pleitos relacionados às horas extras (21,04%), rescisão indireta (15,67%) e pensão vitalícia (4,73%), de acordo com os dados da Predictus.

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