O caminho para a saúde é cooperativo

Neste mês de julho, em que comemoramos o Dia Internacional do Cooperativismo, há razões concretas para celebrar o modelo, que é especialmente relevante neste mundo em intensa transformação. Recentemente, a ONU reconheceu, por meio da Resolução A/RES/80/182, a contribuição das cooperativas para o desenvolvimento econômico e social inclusivo, destacando seu papel na geração de prosperidade compartilhada, no fortalecimento das comunidades e no avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles a promoção da saúde e do bem-estar.

A discussão ganha contornos de urgência no setor da saúde suplementar, que vive pressão crescente diante do aumento dos custos assistenciais, do envelhecimento populacional e da necessidade de ampliar o acesso sem sacrificar a qualidade do cuidado. Nesse contexto, o cooperativismo médico se apresenta como uma resposta capaz de conciliar a autonomia e a proteção social dos médicos, a sustentabilidade do sistema e a entrega de uma assistência de excelência aos pacientes.

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Diferentemente de estruturas corporativas tradicionais, a cooperativa médica opera como uma sociedade de pessoas, e não de capitais. O médico não é apenas um prestador de serviços, mas também dono e gestor do negócio, o que preserva sua independência técnica e autonomia profissional. Ao participar das decisões que orientam o sistema, ele desenvolve visão de longo prazo, comprometida com a qualidade assistencial, a sustentabilidade da operação e as necessidades da comunidade onde atua.

Na prática, esse vínculo também oferece ao profissional maior proteção diante de momentos de instabilidade. A pandemia de Covid-19, ao mesmo tempo em que pressionou algumas especialidades médicas, esvaziou os consultórios de milhares de profissionais da saúde que não estavam na linha de frente, uma vez que consultas e procedimentos foram adiados. Em muitas cooperativas, mecanismos de apoio permitiram antecipar honorários e garantir renda aos cooperados, demonstrando a capacidade do modelo de gerar segurança e resiliência em cenários adversos.

Os benefícios dessa estrutura se estendem às comunidades e regiões de atuação. No cooperativismo, as sobras são reinvestidas localmente, fortalecendo a economia regional, gerando empregos e ampliando a capacidade de atendimento à população. Em muitas cidades, de norte a sul do país, as cooperativas assumem papel central no desenvolvimento econômico e social, movimentando cadeias produtivas que vão além da assistência médica.

Para os pacientes, os resultados aparecem na forma de mais investimentos em infraestrutura, tecnologia, qualificação profissional e melhoria contínua dos serviços. Não por acaso, no Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS) de 2025, principal avaliação setorial conduzida pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 18 das 20 operadoras que alcançaram a nota máxima são Unimeds. O dado evidencia como um modelo baseado no alinhamento entre quem cuida e quem participa da gestão pode contribuir para resultados consistentes em qualidade e sustentabilidade.

Apesar dos resultados assistenciais incontestáveis, o cooperativismo médico no Brasil ainda enfrenta importantes desafios, sobretudo o desconhecimento institucional e jurídico sobre a sua natureza. Órgãos reguladores e o Poder Judiciário por vezes enquadram as cooperativas na lógica das sociedades de capital, nem sempre observando que o modelo é regido por legislação própria. A Lei 5.764/71 estabelece a autonomia e a independência das cooperativas como pilares centrais dessa estrutura, concebida para combinar atuação em rede, gestão local e responsabilidade individual.

Um dos reflexos dessa incompreensão é a aplicação equivocada da chamada “Teoria da Aparência” para imputar solidariedade automática entre cooperativas distintas apenas pelo uso de uma marca comum. Trata-se de erro hermenêutico considerar uma cooperativa médica como parte de um grupo econômico centralizado quando, na realidade, ela integra um conjunto de cooperativas independentes, com gestões próprias e que, quando operadoras de planos de saúde, se mantêm individuais na ANS.

Essa autonomia e independência fortalecem o modelo e fazem com que o cooperativismo ofereça respostas concretas aos desafios contemporâneos. As cooperativas movimentam cerca de US$ 2,79 trilhões anualmente, considerando o faturamento das 300 maiores do mundo em setores estratégicos como agroindústria, seguros e saúde, segundo o relatório World Cooperative Monitor 2025, e geram cerca de 280 milhões de postos de trabalho em todo o planeta, segundo dados da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), o que representa 10% da força de trabalho mundial.

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Na saúde, a força desse sistema encontra no Brasil uma de suas maiores expressões: a Unimed, o maior sistema de cooperativas de saúde do planeta, reunindo mais de 116 mil médicos cooperados e cuidando de mais de 20 milhões de pacientes em planos de saúde e odontológicos.

Ao manter médicos e pacientes no centro das decisões e reinvestir recursos na própria rede assistencial e nas comunidades onde atua, o cooperativismo gera valor para toda a sociedade. Não por acaso, a prática cooperativista foi reconhecida pela Unesco, em 2016, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Em um setor tão essencial quanto a saúde, fortalecer o cooperativismo é fortalecer um modelo que combina eficiência, desenvolvimento e cuidado com as pessoas.

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