O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem tentando, desde que foi anunciado como sucessor do pai, se apresentar como uma versão atualizada e vacinada do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ir além do bolsonarismo, em busca do voto de centro.
A menos de três meses da eleição, ele se vê precisando recorrer ao apoio declarado do pai, por meio de uma carta, para estancar a sangria dentro de casa.
Bolsonaro não era um personagem ativo de campanha há poucos meses, mas a dificuldade de Flávio de se impor como candidato, como liderança do grupo, revela uma candidatura fragilizada. Ele não consegue ir muito longe sem precisar recorrer ao pai.
O bolsonarismo é uma colcha de retalhos desde sempre, mas Jair conseguia impedir a implosão quando queria. Agora preso, não tem ninguém com envergadura para ocupar o seu espaço – nem Flávio, nem Michelle. A diferença é que Flávio não pode prescindir dessa união. Se a colcha se esgarçar, quem perde é ele.
Antes, teve ainda a crise do filme “Dark Horse” com recursos de Daniel Vorcaro, cujas planilhas e demonstrações de pagamento até hoje não foram publicizadas, apesar da promessa do pré-candidato.
Sobreviveu a esta, mas as dificuldades não são poucas. Nos Estados Unidos, seu irmão Eduardo e Paulo Figueiredo têm uma militância mais ideológica, que rende, frequentemente, polêmicas para a pré-campanha. Mais recentemente, não pouparam Michelle Bolsonaro de ataques, e Paulo chegou a dizer que mulher não sabe votar – fala que Flávio Bolsonaro teve que desautorizar em público.
Na briga com a madrasta, o presidenciável ficou exposto a um eleitorado com o qual já tem dificuldade: o feminino. No bolsonarismo, contudo, Michelle pegou a pecha de “traidora”, ao ponto de influenciadores da bolha terem passado a chamá-la de Michelle Firmo, tirando o sobrenome do ex-presidente.
A carta escrita de punho próprio aponta Flávio como verdadeiro “porta-voz” do pai — tirando a possibilidade, por exclusão, de Michelle Bolsonaro falar em seu nome. Desautoriza, portanto, a esposa na disputa com o filho mais velho.
Mas, como na campanha de Flávio a pior crise é sempre a próxima, o episódio tirou-lhe o direito de falar com seu pai até o primeiro turno. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), viu na leitura da carta descumprimento da cautelar.
Aliados do pré-candidato veem no gesto uma interferência do magistrado na disputa eleitoral. Na prática, o filho do ex-presidente fica impossibilitado de falar com o seu principal fiador num momento em que os palanques ainda não estão fechados.
A narrativa da perseguição ganha força neste momento, nos mesmos moldes do que muitas vezes aconteceu com o próprio Bolsonaro. Com Eduardo nos Estados Unidos, apenas os filhos Jair Renan e Carlos ainda podem visitá-lo.
Entre aliados, os que já tratavam a madrasta como traidora viram uma dobradinha com o ministro do Supremo. Mas, a despeito do conteúdo da carta que ele mesmo assinou, Jair pode ter de eleger Michelle sua porta-voz de agora em diante.