MP do Frete tem boas intenções, mas má engenharia que impõe preço oculto

Poucas coisas são tão didáticas na economia quanto o custo escondido de uma regra bem intencionada e mal desenhada. A Medida Provisória (MP) 1343/2026, a chamada MP do Frete, é um caso exemplar.

É legítima a motivação de proteger o caminhoneiro autônomo, categoria que reúne mais de 1,5 milhão de profissionais que financiam os próprios caminhões, pagam pelo combustível e passam metade do mês longe de suas famílias. Ninguém questiona a necessidade de proteção social para esses caminhoneiros, mas a engenharia do texto precisa ser questionada sob a ótica do livre mercado. 

O ponto técnico é decisivo. A MP aplica as mesmas sanções, com multas de até R$ 1 milhão, tanto ao contrato com o caminhoneiro autônomo – pessoa física sem poder de barganha – quanto ao contrato entre uma empresa qualquer e uma transportadora de porte – pessoas jurídicas com governança, escala e capacidade de negociação. 

Tratar como iguais situações estruturalmente desiguais é um vício clássico de regulação. E toda regra que generaliza costuma ser cobrada pelo mercado com juros, pagos em inflação.

Esse desdobramento em cadeia é conhecido. Cerca de 65% de toda a carga movimentada no Brasil transita por rodovias; o diesel responde por 30% a 40% do custo operacional das transportadoras. Assim, o custo com transportes é o segundo maior peso individual no IPCA. 

Quando se adiciona risco regulatório ao topo dessa cadeia, o repasse nos preços é esperado. Para se ter ideia, em 2018, quando o piso mínimo do frete foi implantado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimou impacto de 0,34 ponto percentual no IPCA nos 12 meses seguintes.

No desenho atual, há uma característica adicional que deveria envergonhar o debate: em razão de descumprimento do mínimo do frete, as multas previstas de até R$ 1 milhão serão recolhidas à União, sem qualquer mecanismo que assegure que o valor arrecadado chegará ao transportador autônomo, beneficiado declarado da política.

Para além disso, o caixa das transportadoras – detentoras de mais de 80% das operações de transporte, segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) – tenderá a ficar cada vez mais robusto. Isso consolidaria um movimento regulatório de transferência de renda inversa, do cidadão às transportadoras e à União, como em uma contrapartida social às avessas. A intervenção encarece a cadeia e quem paga é o consumidor final, na forma de preços.

O Brasil ainda tem incertezas e riscos demais para quem investe. O JOTA tem uma coalizão de empresas pela segurança jurídica. Entenda como fazer parte.

Novo custo na logística 

Para completar o quadro de contradições, o preço do petróleo Brent recuou 24% no segundo trimestre de 2026, de US$ 98 para US$ 72 por barril. E EXPo próprio governo federal sinalizou sua intenção em deixar caducar as MPs de subvenção (outras medidas intervencionistas, para variar) para o diesel, gasolina e GLP diante do cenário internacional favorável. 

No exato momento em que o alívio chegaria à ponta, o Congresso está prestes a introduzir um custo estrutural novo na logística. É política pró-cíclica em sentido inverso. Nenhum desses efeitos beneficia o caminhoneiro autônomo. 

A solução ideal seria não votar a MP, deixando que ela caducasse, apesar das pressões. Esse seria um respiro ao bolso do consumidor. 

Mas, ao menos existe uma saída técnica e imediata ao texto. Uma vez estabelecido o frete, as sanções de descumprimento deverão incidir apenas sobre contratações envolvendo o transportador autônomo que se veja prejudicado, quando há vulnerabilidade real. Isso preservaria a livre negociação nos contratos exclusivamente entre pessoas jurídicas, sem prejuízo das normas gerais de Direito Civil, Empresarial e Concorrencial. 

Regras boas discriminam, regras ruins generalizam, e o mercado cobrará a diferença no preço da cesta básica, na tarifa do ônibus, no combustível da bomba. O caminhoneiro merece uma lei precisa, e o cidadão está cansado de pagar a conta.

Diante desses potenciais efeitos, cabe ao presidente do Senado e aos senadores analisar a MP 1343/2026 com a minúcia que o tema exige. O objetivo de proteger o caminhoneiro autônomo é legítimo, mas o texto precisa ser cuidadosamente examinado para que a solução proposta não acabe impondo novos custos à economia – transferindo renda da sociedade para os donos das transportadoras e produzindo efeitos contrários aos que pretende alcançar.

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