O Brasil tem 3,8 milhões de criadores de conteúdo — uma categoria maior do que a soma dos registros de médicos, advogados e engenheiros. A Copa do Mundo masculina de 2026 diz muito sobre o que esse setor tem se tornado.
Pela primeira vez, a Fifa firmou uma parceria oficial com o TikTok, selecionando 30 criadores internacionais para registrar o torneio com acesso aos bastidores, treinos e chegadas de delegações, conteúdo antes restrito à imprensa credenciada. Na Times Square, em uma ação da Fox Sports e do Fox One, dois criadores de conteúdo, Austin Franklin e Kevin Akoto, assistirão a todos os 104 jogos dentro de um cubo de vidro, por US$ 50 mil.
Além disso, o YouTube montou uma ação própria: a primeira “Copa dos Criadores YouTube Fifa”, uma partida que reúne criadores e criadoras de conteúdo de 15 países, cujos perfis somam mais de 350 milhões de inscritos. São cenas que sinalizam uma mudança no modelo de cobertura de grandes eventos esportivos: os criadores de conteúdo passaram a integrar o ecossistema de divulgação e transmissão.
No Brasil, o movimento tem dinâmica própria. A Globo, maior grupo de mídia do país e detentora histórica dos direitos de transmissão da Copa, contratou 26 criadores para sua cobertura digital, no projeto 2026 Convocados. A ação, em parceria com a agência Play9, reúne perfis que vão de analistas táticos a humoristas, passando por gastronomia, viagem e futebol feminino, para produzir conteúdo para redes sociais.
O caso mais emblemático do país é a CazéTV: Casimiro Miguel começou transmitindo reações a jogos na internet e hoje seu canal detém os direitos de todas as 104 partidas, tendo vendido, junto com o YouTube, cerca de R$ 2 bilhões em cotas de patrocínio para 2026 – uma exceção em termos de tamanho e alcance dos criadores de conteúdo.
O que esses criadores e criadoras fazem é diferente do que a transmissão tradicional alcança. O foco está no ritual antes do jogo, na chegada dos ônibus, no clima fora do estádio, na tática explicada para o público casual. “Meu trabalho não substitui o jornalismo, ele complementa a experiência do público”, afirma o criador de conteúdo da Cazé TV, Diogo Defante.
Muda também a forma de assistir: na CazéTV, a partida vem acompanhada de um chat ao vivo em que a torcida reage em tempo real. No empate entre Brasil e Marrocos, esse chat virou um espaço coletivo de emoção, ironia, frustração e pertencimento, algo que a transmissão linear não captura.
Por trás desses exemplos há um setor que ganhou peso suficiente para ser disputado pelas maiores plataformas e emissoras do mundo. Só o Brasil concentra quase 16% de todos os influenciadores do planeta, em um mercado que movimenta mais de R$ 20 bilhões por ano. Essa magnitude, contudo, não encontra correspondência nas políticas públicas.
A série de pesquisas “Feed”, do Reglab, examinou os Três Poderes, para entender como eles enxergam os criadores de conteúdo. No Legislativo, foram 88 projetos de lei sobre criadores de conteúdo entre 2015 e 2025, marcados por uma lógica reativa a crises midiáticas — mais de um quinto deles prevê responsabilidade penal.
No Executivo, os criadores são mobilizados como ferramenta de comunicação pública, presentes em quase metade das ações mapeadas, mas sem política específica e sem CNAE próprio, ou seja, sem reconhecimento como categoria econômica. No Judiciário, 93 acórdãos revelam tribunais que oscilam entre tratar o criador de conteúdo como profissional legítimo, no cível e no trabalhista, e como vetor de risco, no penal, sem chegar a uma categoria jurídica estável.
Os próprios criadores de conteúdo sentem falta dessa estruturação. A pesquisa “Vozes da Influência”, do Reglab, de caráter qualitativo, ouviu criadores em entrevistas e grupos focais e mostra um setor consolidado, mas inseguro: sem CNAE próprio, com pagamentos que se arrastam e relações assimétricas com marcas e plataformas.
A ausência de um enquadramento próprio aproxima o tema de um debate mais amplo, o da regulação do trabalho em plataformas, que o país já enfrenta em setores como transporte e entregas por aplicativo. As demandas dos criadores que foram ouvidos vão na direção de mais previsibilidade, incluindo o reconhecimento profissional, parâmetros mínimos para os contratos com marcas e agências e transparência nas plataformas.
A Copa de 2026 funciona como laboratório desse debate em tempo real. A cobertura se distribuiu entre a TV aberta, os canais digitais e milhões de criadores publicando sobre o evento — cada camada organizando uma experiência diferente: a TV entrega o jogo ao país no mesmo instante; o digital acrescenta bastidor, comentário e proximidade.
O Brasil formou o maior contingente de criadores do mundo em volume absoluto e hoje eles são peça central tanto da cobertura quanto das ações comerciais do maior evento esportivo do planeta. Mas as instituições não acompanharam esse crescimento. O mercado existe e é consolidado; o mapeamento, não: faltam classificação econômica própria, dados públicos consistentes e até consenso sobre o que define a atividade.
Os caminhos apontados pelos próprios criadores e pelas pesquisas do setor vão de um CNAE específico — que daria contorno fiscal e previdenciário à ocupação — à inclusão em políticas de economia criativa já existentes para outros setores. Compreender esse arranjo com dados é o primeiro passo para desenhar políticas que profissionalizem a atividade.
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