Desconfianças rondam bastidores da política em SP

Os bastidores da política paulista vivem dias de saloons do Velho Oeste americano. Ninguém senta de costas para a porta, os sorrisos são amarelos e todos se observam com as mãos no gatilho. Algumas alianças atuais, por ora, são tratadas como meros blefes de um jogo de cartas tenso e, talvez, marcado.

Na mesa da direita, o temor é de que Tarcísio de Freitas (Republicanos) não se jogue de corpo e alma na campanha nacional para ajudar Flávio Bolsonaro (PL). Na da esquerda, paira a dúvida se Lula e o PT querem mesmo disputar para valer o governo de São Paulo ou se Fernando Haddad já entra na arena como um candidato “dead man walking”.

A mesa de centro se esvaziou e, com isso, uma nova suspeita passou a rondar o saloon: o PSD de Gilberto Kassab pode ocupá-la com um candidato ao Palácio dos Bandeirantes, já que o partido e seu presidente nacional ficaram fora da chapa de Tarcísio à reeleição.

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O fator Kassab

Após Kim Kataguiri (Missão) e Paulo Serra (PSDB) terem desistido de concorrer ao governo, novos postulantes a ocupar os lugares vagos na mesa do centro começaram a se movimentar. Na ampla aliança, por ora, informal, construída em torno de Tarcísio há quem enxergue a possibilidade de o próprio Kassab disputar o Palácio dos Bandeirantes.

A candidatura seria uma maneira de construir um palanque para o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) no estado e adotar uma posição de neutralidade entre Lula e Flávio no maior colégio eleitoral do país. A assessoria de Kassab diz que não há movimentação nesse sentido e que ele está com Tarcísio desde o início.

Melhor não, vai que dá certo…

Expoentes do PT reagiram à possibilidade de o PSB de Márcio França lançar uma candidatura ao governo paulista como forma de forçar o segundo turno, já que as saídas de Kataguiri e Serra tendem a favorecer Tarcísio. Desde a redemocratização, só houve segundo turno em São Paulo quando havia ao menos três forças eleitorais bem consolidadas na disputa.

Assim, diante da insistência de petistas de brigar com os fatos, cresceu nos bastidores da centro-esquerda a suspeita de que Haddad é um “candidato para perder” e de que Lula não está tão preocupado assim com o segundo turno em São Paulo.    

Em março, quando ainda se discutia a possibilidade de Simone Tebet (PSB) ser a candidata de Lula ao governo, alguns petistas, em privado, diziam que trabalhariam contra essa opção simplesmente porque enxergavam a possibilidade de ela ser eleita e se firmar como um novo pólo de poder da centro-esquerda no estado.

Fator 2030

Em meio à tantas desconfianças, quem conhece bem Lula avalia que ele pode não estar tão preocupado assim com a possibilidade de não haver segundo turno em São Paulo. O presidente, em seu íntimo, ainda acredita que também pode ser reeleito em primeiro turno.

Lula também estaria apostando que, uma vez reconduzido ao cargo, Tarcísio fará declarações e juras de amor a Flávio, se houver segundo turno na disputa presidencial, mas não sairá a campo com força total para eleger o filho de Jair Bolsonaro. Em outros termos, o petista conta com um corpo mole do governador. Afinal, ele permanecerá como um presidenciável e quatro anos passam rápido.

A aposta de Lula é o temor dos bolsonaristas mais radicais de São Paulo, ainda insatisfeitos com a dedicação do governador ao presidenciável do PL. Ou seja, até o final da eleição sempre rondará o saloon dos bastidores o espectro do “Tarcilula ou do Lularcísio“.

Por ora, Tarcísio tem sido habilidoso em apoiar Flávio sem sair contaminado pela alta rejeição do presidenciável. Resta saber até quando manterá esse equilíbrio se a pressão bolsonarista não parar de aumentar.  

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Cartas na mesa

Enquanto o clima segue pesado no saloon em que se transformou os bastidores da política paulista, Haddad toca sua pré-campanha, ainda em busca de um vice e sem definição na chapa do Senado. O mais provável ainda é uma composição com França para que o ex-governador desista do vôo solo e ocupe o posto e trabalhe para atrair, principalmente, o eleitorado de fora da região metropolitana de São Paulo.

França anda magoado com o presidente desde que foi apeado do Ministério de Portos e Aeroportos. A entrada de Simone Tebet no PSB paulista pelas mãos de Lula também não o agradou. Agora, ele aguarda ser chamado pelo petista, acompanhado de Geraldo Alckmin (PSB), para uma conversa franca sobre a eleição paulista. Petistas e observadores avaliam que, somente quando esse encontro ocorrer, o ambiente irá desanuviar na chapa da centro-esquerda. 

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