Piora do quadro inflacionário impõe ajustes em projeções

O conflito no Oriente Médio, o aumento de probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño e as renovadas medidas de estímulo ao consumo são fatores que tornaram o ambiente inflacionário mais adverso neste ano, exigindo nova revisão das projeções para o IPCA.

Nesse sentido, diante da expectativa de maiores pressões em alimentos e, em menor grau, em administrados, serviços e industrializados, elevamos a estimativa para a inflação (IPCA) deste ano de 4,7% para 5,3%.

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Para 2027, a projeção passou de 3,9% para 4,2%, dinâmica que reforça o cenário de inflação ainda distante da meta no horizonte relevante para a política monetária. Diante disso, nosso cenário para a Selic também foi alterado, e as expectativas de final de período em 2026 e 2027 passaram, respectivamente, de 13,00% para 13,50% e de 10,50% para 11,25%.

Os preços de alimentos representaram a maior parte das revisões promovidas nas projeções de inflação. Para 2026, a projeção para estes preços foi elevada de 5,2% para 7,2%, refletindo (i) últimos resultados acima do esperado; (ii) incorporação de um fenômeno El Niño mais intenso e antecipado e (iii) ambiente de maiores custos com fretes e fertilizantes. A projeção para este grupo também foi aumentada em 2027, de 5,2% para 6,3%, como resposta ao aumento da probabilidade de ocorrência do El Niño e à expectativa de menor produção agropecuária em alguns segmentos importantes.

No caso dos preços administrados, as revisões decorreram da guerra no Oriente Médio, que se estende além do inicialmente esperado. A projeção para 2026 subiu de 4,4% para 4,7%, considerando reajustes maiores da gasolina, GLP e diesel. No entanto, dada a expectativa de correção gradual dessas pressões, a projeção para a inflação de administrados em 2027 foi reduzida, de 3,9% para 3,5%.

Destaca-se que, mesmo com o esperado término do conflito, um recuo mais forte da gasolina será desafiado pela perspectiva de queda gradual do petróleo, com a manutenção de algum prêmio sobre os preços do barril, pela retirada da subvenção à gasolina e pela existência de uma defasagem ainda elevada entre preços internos e externos. Ou seja, o recuo do barril ainda terá que recompor margens da Petrobras, antes de ser repassado às distribuidoras.

No caso dos itens industrializados, o aumento da inflação global – inclusive na China – traz a perspectiva de variações mais elevadas. As projeções para esse grupo foram ajustadas de 3,3% para 3,6% em 2026 e de 1,9% para 2,7% em 2027. O grupo de serviços deverá sentir o avanço dos preços dos alimentos, contaminando a inflação de alimentação fora do domicílio, além de um maior efeito inercial decorrente de reajustes mais elevados em educação e aluguéis (por conta da inflação cheia mais alta em 2026).

Por fim, medidas de estímulo ao consumo em um contexto de mercado de trabalho ainda apertado também trazem riscos a esse grupo, cujas projeções foram revisadas de 5,6% para 5,8% em 2026 e de 4,8% para 4,9% em 2027.

Diante da piora do quadro inflacionário, ratificada na revisão das projeções e que sugere um maior desafio para a convergência do IPCA à meta, alteramos também a trajetória esperada para a Selic nos próximos meses. É fato que os passos seguintes da política monetária seguem altamente dependentes dos eventos no Oriente Médio, mas mesmo um desfecho positivo nas próximas semanas não deverá ser suficiente para abrir margem para cortes mais intensos nos juros, dados os riscos ainda presentes que vão além da questão do choque do petróleo, como mencionados anteriormente.

Nessa linha, as preocupações pendem para o lado oposto, no sentido de maior duração da guerra forçando o Banco Central a interromper os cortes de forma ainda mais prematura.

Considerando esses elementos, as mensagens emitidas pelo Copom e a postura ainda bastante contracionista da política monetária, avaliamos como mais provável a continuidade deste chamado “ciclo de calibração” dos juros (como definido pelo próprio BC), porém mantendo o ritmo modesto de ajuste praticado até aqui. Após duas reduções de 25 bps em março e abril, além de uma esperada queda de mesma magnitude na próxima reunião, em junho, contemplamos outros três cortes neste ano até o patamar de 13,50% a ser alcançado em novembro – nosso cenário anterior contemplava redução neste ano até 13,00%.

Para 2027, o cenário considera a retomada da flexibilização monetária apenas na reunião de junho, e a Selic seria reduzida até 11,25%. Os meses de espera decorrem da expectativa de não convergência da inflação para níveis ao redor da meta no ano que vem, com os ajustes sendo viabilizados conforme (i) o ano de 2028 se torne o horizonte relevante e (ii) a economia demonstrar desaceleração mais intensa ao longo do primeiro semestre.

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Cabe destacar que este cenário tem como premissa central a adoção de medidas de ajuste fiscal pelo governo eleito, capaz de reduzir a percepção de risco sobre o tema e permitir uma descompressão dos juros longos e das expectativas de inflação. E quais seriam riscos para esta trajetória? Para 2026, majoritariamente de alta em caso de maior demora para a resolução do conflito e a consequente manutenção das pressões no petróleo. Para 2027, de ambos os lados, como uma frustração com a correção fiscal (alta) e eventual piora mais acentuada da atividade econômica (baixa).

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