O déjà vu de 2022 na disputa presidencial nos estados

Com a proximidade da eleição de 4 de outubro, as pesquisas eleitorais mostram um cenário de disputa acirrada, com alta probabilidade de levar a um 2º turno entre o atual presidente e candidato à reeleição, Lula (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Ou seja, a eleição de 2026 voltará a repetir o enfrentamento entre Lula e o candidato do Partido Liberal, o mesmo de Jair Bolsonaro na eleição de 2022, agora representado no pleito pelo seu filho.

As tendências regionais da eleição de 2022 são fundamentais para compreender o cenário da disputa presidencial em 2026. No 1º turno quatro anos atrás, é possível observar a concentração geográfica dos candidatos nos estados do país. Enquanto Lula venceu em todos os estados do Nordeste, Jair Bolsonaro venceu nos estados da região Sul, Centro-Oeste, Sudeste (à exceção de Minas Gerais) e em boa parte dos estados do Norte.

No entanto, ter sido vencedor não significa que a margem de vitória tenha sido ampla. Houve estados em que o resultado do 1º turno foi decidido por margens estreitas, como Minas Gerais, em favor de Lula, e São Paulo, em favor de Bolsonaro.

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Os mapas que acompanham esta coluna permitem comparar o desempenho eleitoral dos candidatos no 1º turno da eleição presidencial de 2022 com as intenções de voto no 1º turno do pleito deste ano, por estado. Os dados estão em votos totais, cujo percentual inclui brancos, nulos e indecisos. Não se trata de votos válidos, portanto.

As cores distinguem o vencedor projetado até o momento, de acordo com as pesquisas incluídas no agregador de pesquisas eleitorais, e a margem de vitória obtida no 1º turno de 2022. Quando Lula vence (ou lidera) o estado, a cor é vermelha. Quando o candidato do PL vence (ou lidera), a cor é acinzentada. Ambas as cores, em seus tons mais escuros, indicam uma margem de vitória superior a 10%. Em tons claros, a margem de vitória fica em até 10%, o que indica uma eleição apertada.

Como uma análise deveria considerar o intervalo de confiança e a margem de erro das pesquisas eleitorais, que podem variar muito entre os estados, optamos por um limite amplo, de até 10%, para caracterizar um cenário de disputa. Essa classificação, porém, não consegue superar uma limitação importante: a quantidade de pesquisas consideradas pelo agregador, que varia de cinco a 33 por estado. Sendo assim, a incerteza também é maior em estados com menos pesquisas eleitorais representativas do eleitorado, o que é especialmente sensível na região Norte.

Mapa de votação e intenção de voto dos candidatos do PT e PL na disputa presidencial de 2022 e 2026, no 1º turno

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e agregador do Polling Data.

No caso de 2026, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins são os estados cujo vencedor ainda é incerto. Os estados em que os candidatos estão à frente são quase os mesmos que venceram em 2022. Entretanto, o percentual de intenção de voto de Lula e Flávio é menor do que o registrado em 2022, no 1º turno, na quase totalidade dos estados.

Os únicos estados em que Lula apresenta crescimento são Acre, Amapá e Santa Catarina. No caso do Amapá, a mudança de coloração no mapa se justifica porque, em 2022, Lula venceu por uma margem apertada no 1º turno, com vantagem de 2,20%. Agora, em 2026, possui 18,6% de vantagem nas intenções de voto. Já o candidato do PL teve crescimento apenas em seis estados, todos no Nordeste.

No Nordeste, porém, Lula tem ainda vantagem sobre seu principal adversário, embora com menos intenção de voto do que no 1º turno de 2022. Em média, a vantagem do presidente Lula sobre Jair Bolsonaro nos estados do Nordeste, no 1º turno de 2022, foi de 36%. No 1º turno de 2026, segundo o agregador do Polling Data, Lula, em média, está 20% à frente do Flávio. Porém, a média de intenção de voto de Lula é 11% inferior a 2022, enquanto a de Flávio é 4% superior à de seu pai.

Dos estados em disputa, Lula venceu, em 2022, no Amazonas, Maranhão, Minas Gerais, Pará e Tocantins. Observa-se, pela mudança de coloração, que a vantagem de Lula que era de mais de 10% no Pará e de 41% no Maranhão, mas agora, em 2026, as pesquisas apontam que o incumbente lidera por margens pequenas.

No Tocantins, onde Lula venceu por 6,18% em 2022, ele está atualmente atrás do candidato bolsonarista. Jair Bolsonaro venceu no Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. A mudança de tonalidade indica cenários menos favoráveis para Flávio Bolsonaro no Distrito Federal e no Espírito Santo. Em 2022, seu pai venceu por uma margem superior a 10%. Em 2026, lidera por 7,6% e 3,0%, respectivamente.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro são os estados mais populosos do país, enquanto o Rio Grande do Sul é o sexto e o Pará o nono. Ao todo, os estados em disputa apertada somam mais da metade da população brasileira. Lula lidera no Amazonas, Maranhão, Minas Gerais e Pará.

A região Sudeste é a mais disputada, com São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo com Flávio na liderança, embora com vantagem menor do que na eleição de 2022 (ainda que Flávio e Lula percam votos nesses estados em 2026, a queda de Flávio foi maior, o que explica a menor diferença entre eles e o cenário de disputa apertada).

Esses são estados em que o desempenho eleitoral de Lula em 2022 foi apontado como decisivo para a eleição presidencial e que apresentam cenários incertos para 2026. Em resumo, nos estados de disputa apertada, há evidências de que ambos os candidatos têm potencial para reduzir suas desvantagens atuais.

Os dados indicam que o desempenho eleitoral dos demais candidatos, fora os dois favoritos, é melhor do que o dos que participaram do pleito de 2022. É possível que tanto Lula quanto Flávio consigam “roubar” votos que hoje estão, principalmente, nas candidaturas de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) que são os candidatos que melhor pontuam nas pesquisas em alguns estados.

Entretanto, é preciso considerar que esses candidatos são mais alinhados ao campo da direita, com tendência a reduzir os votos a Flávio no 1º turno. E, da mesma forma, as pessoas que responderam que vão votar em branco ou que não sabem em quem votar podem acabar optando por um dos candidatos.

Sendo assim, o quadro das disputas eleitorais nos estados se desenha no 1º turno, com domínio do candidato petista no Nordeste (embora com desempenho inferior e ameaçado em alguns estados pelo crescimento de Flávio Bolsonaro), bem como domínio do candidato bolsonarista nas regiões Centro-Oeste e Sul e, em menor escala, nas regiões Norte e Sudeste. Porém, há muitas incertezas, pois ainda faltam duas semanas até o 1º turno.

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Ao mesmo tempo, vale lembrar de algumas lições importantes. Primeiro, como já discutimos nesta coluna em 2022 e nesta eleição, a associação aos palanques estaduais tem sido utilizada, com os presidenciáveis tendo candidatos aliados em quase todos eles, embora nem sempre realmente engajados nas suas candidaturas presidenciais, ou com desempenhos eleitorais bons.

Segundo, assim como em 2022, a estratégia de um voto útil, ou mesmo de mobilização para barrar o candidato bolsonarista, pode ser útil a Lula para ganhar terreno entre os indecisos e os que pretendem não votar em nenhum dos candidatos. E, por fim, assim como em qualquer cenário mensurado por pesquisas eleitorais, o quadro atual não é estático, ou preditivo do que acontecerá no dia da eleição.

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