A Assembleia-Geral da ONU caiu no colo de Lula no momento em que o presidente mais precisava mudar de assunto. Depois de semanas em que sua campanha foi atropelada pelo noticiário negativo do caso Lulinha/INSS, do Banco Master e pela crise no STF, Lula usou a principal tribuna diplomática do mundo nesta terça-feira (22/9) para voltar a vestir o figurino em que se sente mais confortável. Posou de estadista global, mas, em boa parte do tempo, dirigiu-se ao eleitor brasileiro. A referência explícita à votação de 4 de outubro deixou pouca margem a dúvidas.
O discurso serviu também como uma espécie de cardápio da nova fase da campanha, em que o presidente tenta colocar em pauta temas concretos para a vida do eleitor, deixando para trás o debate sobre a corrupção generalizada que o caso Master escancarou.
Lula passou pela escala 6×1, combate ao crime organizado, bets, big techs, Pix, desigualdade, soberania e interferência estrangeira. São temas com grande potencial para virar cortes nas redes sociais e peças da propaganda eleitoral. Mais do que apresentar uma visão brasileira de mundo, Lula tentou recolocar no centro do debate assuntos nos quais sua campanha acredita ter mais condições de jogar no ataque.
Um exemplo evidente foi a escala 6×1. Lula defendeu dois dias de descanso por semana e vinculou diretamente a mudança à sobrecarga doméstica das mulheres. A mensagem conversa ao mesmo tempo com trabalhadores de renda média e com o eleitorado feminino, dois públicos particularmente importantes para sua candidatura.
Pesquisas recentes ainda mostram Lula mais forte entre mulheres e no Nordeste, embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha reduzido sua desvantagem feminina em alguns levantamentos. Enquanto isso, larga parcela dos trabalhadores a serem beneficiados pela redução da jornada de trabalho, com renda entre 2 e 5 salários mínimos, ainda pende mais para o rival.
O Bolsa Família não apareceu nominalmente, mas esteve presente no espírito do discurso. Cinco dias antes, o governo anunciou a correção de 15% do benefício, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691. Na ONU, Lula voltou à fórmula de “colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem sua parte”, reforçando o contraste que a campanha tenta estabelecer entre seu projeto e o dos Bolsonaro. A ideia é recuperar para Lula a imagem de presidente da redução das desigualdades e transformar medidas econômicas e sociais em argumento eleitoral concreto.
Aposta contra as bets
A conexão do trecho do discurso sobre as bets com a campanha foi também direta. Lula afirmou que as apostas transformam vício em lucro, endividam famílias e avisou que o Brasil “não vai tolerar esse modelo de negócio”. A fala ocorre justamente quando o governo prepara novas restrições ao setor.
Há também um componente eleitoral feminino importante. Dados recentes apontam que os homens são maioria entre os apostadores, cerca de 70% a 80%, mas a maioria das mulheres diz ver efeitos muito nocivos do vício em apostas para as famílias. É um tema capaz de sair da discussão regulatória e entrar na cozinha dos brasileiros.
Lula fez movimento semelhante na segurança pública. Disse que “as pessoas estão cansadas da violência”, exaltou ações contra facções e lavagem de dinheiro e defendeu que o Brasil não terceirize sua segurança para potências estrangeiras. Com isso, tentou ocupar um terreno tradicionalmente mais favorável à direita sem abandonar a narrativa de soberania. Segurança e interferência americana, com recados indiretos a Donald Trump, apareceram amarradas na mesma mensagem.
A mira em Flávio Bolsonaro ficou explícita quando Lula falou de ingerência externa nas eleições. Sem citar o adversário, afirmou que há candidatos que “se associam a interesses estrangeiros contrários ao país” e encerrou o discurso dizendo que, em 4 de outubro, o brasileiro decidirá entre “democracia e negacionismo” e entre avançar ou retornar a um “passado de exclusão”.
O que poderia ser apenas uma defesa diplomática da soberania virou enquadramento eleitoral. A preocupação com eventual interferência externa, inclusive pelas plataformas digitais, já vinha sendo monitorada pela campanha petista.
Daí também a ênfase na regulação das big techs. Ao atacar os “tecno-oligarcas”, os algoritmos sem transparência e a desinformação, Lula juntou uma agenda regulatória do governo a uma preocupação eleitoral concreta. Pix, redes sociais, inteligência artificial e soberania digital entram no mesmo pacote narrativo. A mensagem procura apresentar Lula como contraponto tanto à interferência política externa quanto ao poder econômico de grandes corporações.
Pesquisas acendem alerta geral
No fundo, a ONU ofereceu a Lula algo que ele vinha procurando há semanas: a oportunidade de voltar a ditar a pauta e o ritmo da campanha.
A urgência está nas pesquisas, com algumas mostrando Flávio Bolsonaro à frente de Lula em simulação de segundo turno, enquanto se aproxima perigosamente no primeiro. O agregador de pesquisas do JOTA ainda aponta para um placar de 45% a 44% em favor do presidente no segundo turno, ou 51% a 49% contra Flávio em votos válidos.
Agora, o desafio petista é alcançar os eleitores ainda disponíveis, impedir que votos hoje espalhados por outras candidaturas da direita migrem automaticamente para Flávio e preservar seus principais bolsões de vantagem, especialmente entre mulheres, baixa renda e Nordeste.
O presidente falou nesta terça em Nova York, diante de uma plateia repleta de líderes mundiais. A plateia que mais interessa a Lula, porém, está no Brasil.