A poucas semanas das eleições 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à disputa com um conjunto de indicadores que favorecem a narrativa na economia. A inflação cedeu, o desemprego segue em patamar historicamente baixo e o Banco Central continua dando sequência ao corte de juros.
Mas, por trás desses números agregados, existe um quadro ambíguo. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dá mais sinais de desaceleração justamente no semestre que antecede as urnas e, mais importante, o custo do crédito para as famílias segue elevado – corroendo parte do discurso de recuperação do poder de compra.
Ajuda o governo o fato de a inflação, indicador que reflete o custo direto do eleitor no dia a dia, ter dado uma trégua. O IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,6% em junho para 4,2% em agosto, ficando abaixo do teto da meta perseguida pelo Banco Central.
A queda foi puxada por um alívio temporário na conta de luz (graças ao efeito do bônus de Itaipu, que deve ser revertido já na próxima divulgação) e pela desaceleração dos preços da gasolina e das passagens aéreas.
O mercado de trabalho também ajuda a compor um cenário favorável. A taxa de desemprego ficou em 5,3% em julho, o menor patamar para o trimestre encerrado nesse mês, e a massa de rendimentos das famílias, embora perdendo ritmo, ainda cresce.
Soma-se a isso a possível melhora na sensação de bem-estar com o estímulo ao consumo provocado pelas medidas do governo, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha menos.
Parte do efeito dessas medidas foi medida pelo Boletim Macrofiscal do Ministério da Fazenda, atualizado nesta terça-feira (22/9), mostrando que o chamado Impulso Estrutural do Gasto. Nas contas da Fazenda, o indicador passou de – 1 ponto percentual em 2025 para + 0,8 ponto em 2026.
Um impulso negativo significa que a despesa pública contribuiu negativamente para o crescimento do PIB (ou seja, a despesa teve um impacto contracionista sobre a economia). Um impulso positivo significa que a contribuição da despesa para o PIB foi expansionista.
Além disso, a taxa de juros continua em queda – embora ainda de maneira marginal. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic para 13,75% ao ano em sua reunião de 16 de setembro, a pouco mais de 15 dias antes do primeiro turno e o quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março.
Uma nova queda, para 13,5%, já está sendo precificada pelo mercado para o próximo encontro (em novembro).
A crise do petróleo também parece em grande parte driblada. O preço do barril (que subiu na projeção do boletim de US$ 79,2 médios para US$ 87,7 em 2026) tem pressionado os preços, mas os subsídios colocados pelo governo usando os recursos extras do próprio petróleo agem para mitigar a situação nos pontos de combustível. O resultado é que o Brasil está no clube de países privilegiados que podem passar pelo conflito de maneira relativamente tranquila.
Riscos
Os riscos à narrativa petista podem ser vistos, em parte, na própria dinâmica da atividade econômica. A projeção de crescimento do PIB para 2026 foi revisada no boletim da Fazenda de 2,3% para 2%, com a desaceleração concentrada nos setores mais visíveis para o eleitor urbano, o mais volumoso nas urnas: serviços (de 2,4% para 1,8%) e indústria (de 2,1% para 1,7%).
O calcanhar de Aquiles mais evidente, porém, parece estar no custo da dívida das famílias. Apesar dos cortes na Selic, o comprometimento da renda familiar com o serviço da dívida atingiu, em junho, o maior nível da série histórica: 28,9%, ou 26,6% quando excluído o financiamento imobiliário.
Débora Freire, secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, afirma que o aperto observado no endividamento vem do aumento do custo de crédito, e não do patamar em si – estável há três anos. “Na pandemia, houve um choque estrutural, mas desde então observamos um aumento do custo de crédito que pressiona o consumo das famílias. Isso é influenciado por uma política monetária bastante restritiva, mas é importante dizer que, com a queda consistente, esse cenário tende a ser mitigado”, afirmou.
A Fazenda atribui o atual nível de comprometimento de renda familiar à decorrência do uso de um núcleo de crédito caro. O principal exemplo é o rotativo do cartão de crédito, com taxas de 436,2% ao ano. Mesmo representando fatia pequena do total emprestado, essa modalidade consome parte desproporcional do orçamento doméstico.
Esse é um dado que pode contradizer, na prática cotidiana do consumidor, o discurso de recuperação do poder de compra sustentado pelos números de emprego e renda.
A expectativa oficial para a inflação também aponta um percentual acima do teto da meta em 2026, embora tenha caído de 5,1% para 4,9% no relatório da Fazenda. Restam como sinal de atenção alguns componentes do indicador – como o feijão preto (aumento de 19% em 12 meses) e o feijão carioca (44%). Isso, em parte, dá munição para o discurso da oposição de que os preços estão caros – embora, no agregado, a inflação se mostre bem menor.
O Copom respalda as preocupações dizendo que o cenário de “expectativas desancoradas” exige juros mais altos por mais tempo do que seria necessário em condições normais, o que tende a adiar o alívio mais consistente no crédito.
O cenário de Lula reúne, portanto, uma inflação que cedeu – embora a expectativa do mercado (4,92%) ainda esteja acima do teto da meta –, um desemprego que segue baixo e um patamar da Selic que cai (embora de maneira marginal).
Por outro lado, o crescimento perde ritmo e o custo do crédito ainda comprime o orçamento das famílias. Além disso, há um cenário fiscal ainda desafiador que pode incomodar o mercado – embora, se o tema rendesse votos, a própria oposição falaria mais sobre como resolvê-lo.
No fim das contas, parece haver um conjunto favorável ao petista. Mas, em uma eleição tão apertada, qualquer parte do conjunto pode se mostrar decisiva para o resultado final.