As eleições de 2026 entrarão para a história do Brasil como as mais despolitizadas, desmobilizadoras e apáticas desde o fim da ditadura cívico-militar (1964-1985). Não há discussão de ideias, de projetos nacionais, nem debates entre os principais candidatos ou grandes manifestações. O pleito deste ano está se resumindo a um grande noticiário policial pautado pelo escândalo do Banco Master e por narrativas de um lado e de outro que tentam mostrar que o outro lado é o mais corrupto, enquanto pouco é dito sobre planos para o futuro do país.
É constrangedor ver a esquerda institucional, leia-se governo Lula e PT, na defensiva quando teria tudo para estar na ofensiva contra uma extrema direita que destruiu o país quando esteve no poder e que continua sem ter o que oferecer a não ser um retrocesso gigantesco de submissão ao imperialismo estadunidense enquanto seu principal candidato encontra-se atolado até o pescoço no caso Master.
Em países profundamente desiguais como o Brasil que possuem uma ampla fatia do seu eleitorado empobrecida, mas com alta participação nos processos eleitorais, estudos acadêmicos mostram que, via de regra, até mesmo a direita se vê obrigada a defender políticas sociais, normalmente associadas à esquerda, para vencer eleições e governar.
Isso ocorre porque em contextos de competição eleitoral acirrada com partidos de esquerda competitivos, as legendas de direita passam a defender políticas públicas redistributivas, comumente ligadas à esquerda, para conquistar as parcelas de eleitores mais pobres. Esse fato acontece de maneira mais intensa especialmente em países onde há forte atuação de movimentos sociais pressionando governos por políticas sociais.
É o que mostram os artigos “Democracia e redução da desigualdade econômica no Brasil: a inclusão dos outsiders”, de Marta Arretche, e “Redistribution under the right in Latin America: electoral competition and organized actors in policymaking”, de Tasha Fairfield e Candelaria Garay.
Essa seria uma das principais explicações de como é possível criar políticas públicas para os mais pobres sem precisar de maiorias parlamentares ou de governos de esquerda. Foi assim, inclusive, que muitas das políticas voltadas à classe trabalhadora no Brasil foram criadas mesmo sem o país jamais ter tido maioria de esquerda no Congresso e durante governos de direita.
Diante disso, o que explica a posição defensiva da esquerda mesmo diante de uma extrema direita corrupta e com propostas que contrariam os interesses da maioria da sociedade brasileira? De onde vem a despolitização que caracteriza as eleições deste ano?
Antes de analisar fatores mais recentes, faz-se necessário destacar algumas questões históricas que contribuem para explicar a passividade do povo brasileiro de maneira geral. Entre os principais fatores está a repressão brutal a movimentos, partidos e reivindicações políticas realizada durante os 21 anos de ditadura cívico-militar, que serviu para desmobilizar a população com efeitos que perduram até hoje.
Após o fim da ditadura e com a redemocratização, o Brasil e o mundo entraram num período caracterizado pela hegemonia do pensamento único neoliberal, vendido como a única alternativa de mundo após o fim da União Soviética.
Durante esse período, que teve seu auge nas décadas de 1990 e 2000, mas que se prolonga até hoje, partidos, sindicatos e intelectuais sofreram (e ainda sofrem em menor ou maior escala) aquilo que os sociólogos franceses Ève Chiapello e Luc Boltanski chamaram de “perplexidade ideológica”. Trata-se do processo no qual se encarou o neoliberalismo como uma espécie de “força da natureza” sem possibilidades de intervenção humana, incentivando a resignação diante dessa “força avassaladora”. Dentro dessa visão, o máximo que poderia ser feito seriam ações para minorar seus efeitos.
Mesmo com a crise da globalização neoliberal em 2008, desde então as esquerdas ainda têm tido muitas dificuldades em apresentar alternativas radicais de mundo, com algumas exceções que vêm crescendo especialmente na América Latina, o que deu espaço para que a extrema direita assumisse o papel, mesmo que apenas no discurso, de antissistema.
Entretanto, entre as razões mais imediatas para o cenário vivido pelo Brasil atualmente está o processo de despolitização da sociedade promovido pelos próprios governos petistas. Durante suas gestões, Lula e o PT priorizaram os conchavos de gabinete e os acordos de bastidores com os poderes da República em detrimento da mobilização popular, ao contrário do que fizeram diversos governantes de esquerda especialmente latino-americanos que organizaram parcelas de suas sociedades para pressionar seus legislativos a aprovarem pautas de interesse da classe trabalhadora.
Foi a falta de coragem do PT em pautar questões importantes para a classe trabalhadora e de romper com a lógica neoliberal, que perpassa governo após governo desde a redemocratização, a principal responsável pelo quadro de despolitização e desmobilização generalizadas.
As inovações políticas na atual gestão são quase nulas e a única pauta desse tipo na história recente, o fim da escala 6×1, só foi abraçada pelo governo Lula 3 aos 45 minutos do segundo tempo, originada não por iniciativa própria e sim fruto das ações do movimento VAT (Vida Além do Trabalho). A proposta, entretanto, foi abandonada pelo próprio governo, como discutido em artigo anterior, e tanto o Planalto quanto o VAT parecem ter desistido de insistir na sua aprovação pelo Senado antes das eleições, o que dificultará muito a sua aprovação após o pleito.
Como um golpista como Daniel Vorcaro conseguiu se tornar banqueiro e influenciar a vida política do Brasil tornando-se o principal assunto nestas eleições? Como disse Marx, o Estado no capitalismo é o balcão de negócios da burguesia no qual o poder econômico influencia quase que deterministicamente o poder político.
Para acabar com isso é preciso romper com o sistema político-econômico atual e criar algo novo, fomentando a esperança no futuro por meio de propostas alicerçadas em um projeto de sociedade transformador. Cabe à política, como já apontado nesta coluna, ressuscitar o seu potencial utópico de imaginar novos mundos possíveis, e é papel das esquerdas e dos movimentos progressistas recriar e mobilizar o sentimento de esperança que busque no futuro “uma luz no fim do túnel”, arregimentando ideias e projetos que objetivem solucionar os problemas da humanidade.
Ou seja, para tirar a sociedade brasileira de sua apatia e mudar o foco do debate público nessas eleições, o governo deveria pautar o cenário eleitoral apresentando propostas realmente transformadoras que rompessem com a hegemonia neoliberal e pelas quais ele se engajaria em lutar em um próximo mandato.
Lula mudaria o rumo dos acontecimentos se afirmasse que finalmente usaria a força do seu eventual quarto e último mandato como a última oportunidade para avançar em um projeto estrutural de combate às desigualdades e aos problemas históricos que acometem a sociedade brasileira.