Polarização pode ajudar candidatos de Lula e Flávio em MG, ainda às voltas com Cleitinho

Após meses de especulações, traições e idas e vindas, o cenário eleitoral em Minas Gerais está perto de uma definição. Mas ainda será preciso muito café e pão de queijo para chegar ao desfecho completo da trama que teve na primeira temporada Cleitinho Azevedo (Republicanos) como um daqueles personagens colocados no roteiro com o objetivo de gerar pistas falsas, confundir a audiência e promover reviravoltas.

Somente quando Cleitinho tiver seu destino selado, pois ele ainda luta para estar na próxima temporada, começará a campanha eleitoral. Por ora, o que se sabe sobre a nova fase é que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois líderes das pesquisas de intenção de voto para presidente, terão seus próprios candidatos a governador, enquanto Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), também postulantes ao Planalto, precisarão dividir informalmente um palanque. 

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De maneira surpreendente, o PT reverteu uma situação inicial hostil na pré-campanha e conseguiu se unir em torno de Patrus Ananias, figura histórica do partido em Minas. Ex-prefeito de Belo Horizonte, ele será “o candidato do Lula” e, por incrível que pareça, com chances de chegar ao segundo turno em um estado onde os petistas (não o presidente) sofrem com altas taxas de rejeição.

A polarização é a mola propulsora que pode colocar Patrus na fase decisiva. De última hora, Flávio Bolsonaro decidiu lançar seu xará, o empresário Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação de Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a governador pelo PL. Esse movimento tardio afetou a candidatura à reeleição de Mateus Simões (PSD), que chegou a sonhar em compor chapa com o partido do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Outro efeito colateral da candidatura própria do PL foi sepultar o sonho de Marcelo Aro (União-PP) de concorrer ao Palácio da Liberdade. Sem apoio de Flávio Bolsonaro, o ex-secretário de Simões, que o acusou de “traição”, desistiu de articular uma ampla frente de centro-direita e deverá ser candidato ao Senado na chapa do governador. Ou seja, a máxima de que na política mineira se perdoa tudo, menos a traição, caiu por terra.

Aposta na polarização e diferenças regionais

Se Lula e Flávio conseguirem replicar em Minas a polarização “petistas versus bolsonaristas” do cenário eleitoral nacional, terão grandes chances de colocar seus candidatos no segundo turno. Em termos regionais, o presidente contará com a força de sua imagem nas regiões mais pobres de Minas para alavancar Patrus. O presidenciável da oposição e seu xará apostarão no conservadorismo presente nas áreas urbanas do estado e nas dominadas pelo agronegócio, como o Triângulo Mineiro.

Simões e seu antecessor no cargo, Zema, farão o jogo clássico da eleição estadual em Minas: a aliança com os prefeitos e vereadores, muito dependentes das verbas do governo para sobreviverem politicamente. Em outras palavras, a máquina pública será o grande cabo eleitoral da dupla, que pode virar um trio se Gilberto Kassab, o presidente nacional do PSD, conseguir convencer o governador a abrir seu palanque também para Caiado.

Se a polarização e a máquina falharem, as chances de Alexandre Kalil (PDT), pela centro-esquerda, e Gabriel Azevedo (MDB), pela centro-direita, aumentarão substancialmente. O primeiro, ex-prefeito de Belo Horizonte, pontua bem nas pesquisas quando o nome de Cleitinho, o líder em todos os levantamentos, é retirado. Vereador da capital, o emedebista é uma jovem promessa de renovação para a velha escola mineira de política.

No entanto, Cleitinho, como todo bom personagem que se recusa a sair de cena facilmente, ainda insiste com o Republicanos para ser candidato a governador, mesmo diante de tanta resistência de Marcos Pereira, o presidente do partido. Foram tantas as idas e vindas nessa novela desde o final do ano passado que cada novo episódio precisa começar com um resumo do capítulo anterior.

Nesta semana, o senador se reuniu com Pereira e deixou o encontro dizendo que havia desistido da candidatura, o que encerrou a primeira temporada da novela. Horas depois, mudou de ideia e agora busca uma nova reunião para tentar convencer o dirigente de suas boas intenções ao insistir em disputar o governo e se manter na trama.

Cleitinho quer estar na nova temporada, a da eleição, na qual poderá fazer a diferença em termos positivos para seu grupo político. Até agora, a única coisa que ele conseguiu foi fragmentar e atrasar ainda mais a centro-direita. No entanto, é inegável que o nome “Cleitinho” na urna tem força suficiente para explodir a polarização sonhada por PL e PT, pois somente ele consegue pescar votos com eficiência nos dois extremos do espectro político-eleitoral.

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Semana que vem, dia 15/8, termina o prazo legal para a inscrição das chapas. No final, como nos bons roteiros, o senador Cleitinho, uma espécie de anti-herói populista mineiro, experimentará a solidão político-eleitoral e acabará fora da disputa ou obterá a redenção reservada aos ungidos pelo povo? Aguardem os próximos capítulos.

Chapa pura

Antônio Carlos Arantes, deputado estadual do PL ligado ao agronegócio, está bem cotado para ser o vice de Flávio Roscoe.

De cima para baixo

Os líderes nacionais do PSB — entre eles João Campos e Geraldo Alckmin — atuam fortemente para que o partido esteja com Patrus Ananias, o que contraria parte do comando estadual da sigla, pouco afeita ao PT.

Sempre bom lembrar

Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Desde a redemocratização (1985), o presidenciável que vence em Minas sobe a rampa do Planalto para receber a faixa no ano seguinte.

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