Setenta anos depois, o legado de Dartmouth chega para a IA

Setenta anos separam dois documentos que dizem mais sobre a inteligência artificial do que qualquer modelo já produzido por ela. O primeiro é a proposta que convocou, para o verão de 1956, a conferência do Dartmouth College que batizou o campo. O segundo foi publicado nesta segunda-feira (13/7) e tem apenas quatro frases.

É a declaração “We Must Act Now”, organizada pelo laboratório de economia digital de Stanford e assinada por mais de 200 economistas e pesquisadores de IA, entre eles 16 vencedores do Prêmio Nobel. O primeiro documento transbordava confiança. O segundo transpira urgência. Entre um e outro, a tecnologia percorreu um caminho que seus criadores não previram e chegou a um destino que seus herdeiros admitem não compreender.

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Vale reler a proposta original para medir a distância. John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon pediram financiamento para reunir dez pesquisadores durante dois meses, partindo da conjectura de que “todo aspecto da aprendizagem ou qualquer outra característica da inteligência pode, em princípio, ser descrito com tanta precisão que uma máquina pode simulá-lo”.

Acreditavam que um avanço significativo era possível naquele único verão. As preocupações listadas eram todas técnicas. Como fazer máquinas usarem linguagem, formarem abstrações, melhorarem a si mesmas. Em nenhuma linha aparece a pergunta sobre o que aconteceria com o trabalho humano, com a distribuição da renda ou com o poder econômico se o projeto desse certo. Não por negligência. A economia política das máquinas simplesmente não fazia parte do problema que aqueles homens acreditavam estar resolvendo.

A trajetória seguinte puniu o otimismo com método. O campo atravessou o primeiro inverno nos anos 1970, quando as promessas correram muito à frente da capacidade de entrega e o financiamento secou. Renasceu com os sistemas especialistas, voltou a congelar no fim dos anos 1980, mudou de natureza com o aprendizado de máquina, acelerou com as redes neurais profundas a partir de 2012 e explodiu com a arquitetura dos transformers, que tornou possível o lançamento do ChatGPT em 2022.

Em cada ciclo anterior, o descompasso era o mesmo. A tecnologia prometia mais do que conseguia entregar. O ciclo atual inverteu o sinal. Pela primeira vez, a capacidade instalada corre à frente da compreensão que temos sobre suas consequências.

A indústria tem pressa

É exatamente essa inversão que a carta de Stanford registra em sua formulação telegráfica. O texto afirma que a IA pode se tornar radicalmente mais poderosa nos próximos dez anos e provocar uma transformação econômica “maior que a Revolução Industrial”, mas comprimida em um intervalo de tempo drasticamente menor.

Reconhece o duplo movimento, riscos de deslocamento de empregos em larga escala de um lado, ganhos possíveis de padrão de vida do outro, e conclui que governos e indústria precisam construir desde já os incentivos, as salvaguardas e as instituições capazes de orientar a tecnologia para complementar o ser humano em vez de substituí-lo. Yoshua Bengio, laureado com o prêmio Turing e um dos signatários, acrescentou em declaração separada que as escolhas precisam ser coletivas e democráticas, sob pena de deixar a maioria dos cidadãos para trás caso as forças de mercado sigam operando sozinhas.

O contexto que cerca a publicação explica a pressa. A Amazon anunciou em outubro de 2025 o corte de cerca de 14 mil postos, meses depois de seu presidente-executivo admitir que a IA generativa e os agentes assumiriam parte das funções.

Recém-formados americanos enfrentam o mercado de trabalho mais estreito em anos e estudos do próprio grupo de Stanford identificaram queda relativa de 16% no emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA generativa, enquanto o emprego dos profissionais experientes permanece estável. A transformação anunciada pela carta não é hipótese de pesquisa. Já aparece nas estatísticas de emprego do país que lidera a corrida.

Algumas ausências

Há, porém, três ausências no documento que merecem tanto exame quanto suas presenças. A primeira é a dos responsáveis. Entre os signatários estão executivos e cofundadores das próprias empresas que empurram a fronteira, casos de Anthropic, OpenAI e Google.

É um gesto ambíguo. Pode ser lido como lucidez de quem conhece o poder do que constrói, mas também como a terceirização do problema para “governos e instituições” enquanto a corrida comercial segue em velocidade máxima. A carta pede salvaguardas sem dizer quem paga por elas, pede instituições sem dizer quem as controla e pede ação imediata de todos sem atribuir obrigação específica a ninguém. O diagnóstico é coletivo. A responsabilidade, difusa. Mesmo com a declaração de boas intenções da Anthropic.

A segunda ausência é geográfica. O texto fala de “nossa economia” no singular, como se a transformação fosse distribuída de maneira uniforme pelo planeta. Não será. A infraestrutura de computação, os modelos de fronteira e as receitas da nova economia estão concentrados em um punhado de empresas de dois países. O deslocamento de empregos, ao contrário, será global, e atingirá com força particular as economias que exportam exatamente os serviços que os agentes de IA aprendem a executar.

Para o Brasil e o Sul Global, o risco não é apenas o desemprego tecnológico descrito pela carta. É participar da transformação apenas pelo lado dos custos, fornecendo dados, energia, minérios e mercado consumidor, enquanto os ganhos de produtividade prometidos se acumulam nos balanços de quem controla a infraestrutura. As instituições que a carta reivindica, se nascerem apenas em Washington e em seus fóruns aliados, organizarão a transição para os países do clube e deixarão os demais administrando as consequências.

Nada ilustra melhor esse desequilíbrio do que o calendário, que traz a terceira ausência. A carta de Stanford é assinada predominantemente por integrantes de instituições dos EUA e da Europa. Enquanto os especialistas ocidentais publicavam a carta, a China ultimava os preparativos para abrir, nesta sexta-feira (17/7), em Xangai, a nova edição da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, que este ano terá o próprio Xi Jinping no discurso de abertura e uma reunião de alto nível sobre governança global de IA com representantes de dezenas de países. Serão mais de 1.000 expositores, 3.000 tecnologias de fronteira e 300 produtos estreando mundialmente, sustentados por uma indústria que ultrapassou 1 trilhão de yuans em 2025 e projeta crescer mais de 30% em 2026.

Dois pesos, duas iniciativas

A justaposição das duas cenas resume o momento. De um lado, o manifesto de quatro frases que pede instituições sem construí-las, assinado por quem continua forçando a fronteira tecnológica mas admite não controlar suas consequências.

De outro, um Estado que trata a IA como política pública, exibe resultados mensuráveis e oferece ao mundo, na mesma semana, exatamente a plataforma de governança que a carta constata faltar. A carta de Stanford, lida nesse contexto, é menos um programa de ação do que a confissão de um vácuo. E vácuos, em geopolítica, não permanecem vazios por muito tempo.

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Os fundadores de Dartmouth erraram o prazo, mas acertaram a direção. A máquina que simula aspectos da inteligência existe. O que eles não podiam prever, porque não era pergunta do seu tempo, é que o desafio decisivo não seria construí-la, e sim decidir quem se apropria do valor que ela gera e quem arca com o custo do que ela destrói.

A carta de 2026 tem o mérito de colocar essa pergunta no centro da agenda com a autoridade de 16 vencedores do Nobel. Tem o limite de não dizer quem é o sujeito da ação que reivindica. Setenta anos depois do verão de 1956, a fatura daquele experimento de dois meses chegou para todos. Cabe a cada país decidir se vai negociar os termos do pagamento ou apenas recebê-la pronta, emitida em dólar e redigida em inglês.

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