A medicina nuclear permite diagnosticar doenças precocemente, definir tratamentos com maior precisão e oferecer terapias altamente eficazes, especialmente nas áreas da oncologia, cardiologia e neurologia. Mais do que uma tecnologia avançada, trata-se de uma ferramenta capaz de salvar vidas, reduzir custos ao sistema de saúde e melhorar a qualidade de vida da população.
O Brasil vive uma profunda transição demográfica. Em 1940, a expectativa de vida era de apenas 39 anos. Hoje, alcança 75,5 anos e deverá aproximar-se de 80 anos até 2040. Em 2030, teremos mais idosos do que crianças. Como consequência, crescerá a incidência de doenças crônicas, principalmente câncer, doenças cardiovasculares e demências, justamente aquelas em que a medicina nuclear possui papel fundamental.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028. Estima-se que entre 200 mil e 335 mil brasileiros tenham indicação anual para realização de PET/CT oncológico com FDG ou PSMA, evidenciando uma demanda crescente por exames de alta complexidade.
Apesar dessa realidade, a estrutura nacional ainda é insuficiente. O país conta com apenas 800 médicos nucleares, o equivalente a 0,2% dos especialistas brasileiros, sendo 57,8% concentrados na Região Sudeste e apenas 3,8% na Região Norte. Além disso, 63,3% desses profissionais atuam nas capitais, obrigando milhares de pacientes do interior a percorrer longas distâncias para acessar diagnóstico e tratamento.
A infraestrutura acompanha essa desigualdade. Atualmente existem 453 serviços de medicina nuclear e apenas 159 equipamentos PET/CT em funcionamento no país, correspondendo a cerca de 0,78 equipamento por milhão de habitantes. Estudos internacionais indicam que o Brasil necessitaria de aproximadamente 300 a 400 equipamentos para atender adequadamente sua população, demonstrando um importante déficit assistencial.
Outro desafio é a dependência tecnológica. O Brasil importa praticamente todos os equipamentos e grande parte dos insumos utilizados na medicina nuclear, gerando um déficit anual de cerca de US$ 30 milhões na balança comercial do setor. Essa dependência expõe o sistema de saúde às oscilações cambiais e às interrupções no fornecimento internacional de radiofármacos, comprometendo a assistência aos pacientes.
Também é necessário enfrentar o subfinanciamento da especialidade. Embora 91% dos serviços sejam privados, eles respondem por parcela expressiva da assistência pública. Em 2022, o SUS realizou aproximadamente 486 mil procedimentos de medicina nuclear e PET/CT, sendo cerca de 82% dos procedimentos ambulatoriais executados em clínicas privadas contratualizadas. Isso demonstra que ampliar o acesso depende de políticas públicas sustentáveis e da integração entre os setores público e privado.
Fortalecer a produção nacional de radioisótopos e radiofármacos, concluir o Reator Multipropósito Brasileiro, estimular investimentos privados, modernizar a legislação, ampliar programas de residência médica e incentivar a fixação de especialistas em regiões menos assistidas são medidas essenciais para reduzir desigualdades e garantir segurança ao abastecimento nacional.
A Organização Mundial da Saúde e a Agência Internacional de Energia Atômica reconhecem a medicina nuclear como componente essencial da Cobertura Universal de Saúde. Estudos internacionais da Lancet Oncology Commission demonstram que a expansão do acesso ao diagnóstico por imagem pode evitar 2,46 milhões de mortes por câncer e gerar um retorno econômico estimado em US$ 179 para cada dólar investido, evidenciando que investir em medicina nuclear é também investir no desenvolvimento econômico e social.
A medicina nuclear não deve ser encarada como um custo, mas como um investimento estratégico para o país. Ampliar o acesso a essa especialidade significa fortalecer o SUS, reduzir desigualdades regionais, impulsionar a inovação, desenvolver a indústria nacional e oferecer aos brasileiros uma assistência mais moderna, eficiente e capaz de enfrentar os desafios impostos pelo envelhecimento da população.