A expansão acelerada das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, amplia a necessidade de soluções de armazenamento de energia, na medida em que essas fontes são variáveis, não controláveis e nem sempre geram energia nos mesmos horários em que há maior demanda do sistema.
O armazenamento permite absorver excedentes de geração renovável em períodos de maior oferta e disponibilizar essa energia posteriormente, quando o sistema necessita de potência, flexibilidade ou segurança operativa. Nesse contexto, as Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) ganham relevância como tecnologia inovadora para armazenar energia em larga escala e entregá-la ao sistema nos momentos de maior demanda energética.
Além do uso de reservatórios hidrelétricos existentes, ganha força o aproveitamento de cavas de mineração exauridas e demais áreas pertencentes a empreendimentos de mineração em fechamento como reservatórios de armazenamento hidráulico.
A proposta é transformar estruturas, hoje associadas a passivos ambientais, custos de fechamento e obrigações de monitoramento, em ativos energéticos, com potencial de gerar receitas, reduzir riscos de longo prazo ambientais, geotécnicos e operacionais associados às áreas mineradas sem uso econômico definido, além de contribuir para a transição energética.
Usinas Hidrelétricas Reversíveis
As UHRs funcionam como uma “bateria hidráulica”. Em momentos de menor demanda, baixo preço ou excesso de geração renovável, a usina consome energia para bombear água de um reservatório inferior para um reservatório superior. Posteriormente, quando há maior demanda ou necessidade de potência, a água é liberada de volta ao reservatório inferior, passando por turbinas e gerando eletricidade.
A lógica econômica não está apenas na comercialização de energia em momentos de maior demanda energética, mas na prestação de serviços sistêmicos, como: armazenamento de energia, potência firme – isto é, capacidade de disponibilizar potência ao sistema em momentos críticos, de forma previsível e contratável –, flexibilidade operativa, controle de frequência, resposta rápida, redução de eventos de constrained-off, suporte à integração de renováveis e, em alguns casos, postergação de investimentos em transmissão.
Regulação no Brasil hoje
O Brasil ainda está em fase de consolidação regulatória para UHRs. Na Consulta Pública 39/2023 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a agência avançou principalmente no tratamento das UHRs de ciclo fechado (reservatórios operando de forma isolada), com proposta de enquadramento como sistema de armazenamento, enquanto os modelos aberto e semiaberto foram remetidos a fases posteriores da Consulta Pública, por envolverem questões mais complexas de outorga, uso de bem público, inventário e aproveitamento ótimo.
Adicionalmente, em abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou duas resoluções relevantes para a inserção do armazenamento hidráulico no planejamento energético:
A primeira, Resolução CNPE 8/2026, estabelece diretrizes para o desenvolvimento e a contratação de Sistemas de Armazenamento Hidráulico, prevendo a contratação por leilões e outros mecanismos competitivos.
Também foi aprovada a Resolução CNPE 7/2026, determinando à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a realização de estudos de inventário hidrelétrico para mapear e desenvolver projetos com capacidade de armazenamento hidráulico.
Potencial de utilização do passivo minerário brasileiro
A mineração a céu aberto é a hipótese mais diretamente relacionada às UHRs em áreas mineradas, pois a própria cava exaurida pode ser reaproveitada como reservatório inferior ou superior.
Esta modalidade resulta, ao final da lavra, em estruturas de grande porte, como cavas, pilhas, acessos, , estruturas elétricas, vias internas e, em alguns casos, conexão próxima à rede elétrica. Tradicionalmente, essas áreas deverão ser objeto de ações fechamento da mina, incluindo recuperação ambiental e gestão de riscos geotécnicos, ambientais e hídricos.
A readequação dessas estruturas permite mudar a lógica do passivo a ser endereçado durante o fechamento da mina: a cava exaurida poderá ser convertida em reservatório inferior ou superior de uma UHR, possibilitando sua utilização como armazenamento hidráulico.
Importante destacar que, conforme regulamentação do setor mineral, é possível (e em muitos casos, recomendado) o fechamento progressivo da mina. Nesse sentido, estruturas cuja utilização seja encerrada ao longo da vida útil do projeto – ainda que antes do encerramento da integralidade das atividades de lavra – já poderiam passar a ser utilizadas para fins de instalação de uma UHR. Nestes casos, será necessária avaliação da compatibilidade entre a atividade de mineração que continuará a ser exercida e a instalação da UHR.
Esse processo pode auxiliar que empreendimentos de mineração consigam atingir a autoprodução de energia.
No Brasil, o potencial é particularmente relevante em regiões mineradoras, como o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e a província mineral de Carajás, no Pará. A alternativa aos passivos minerários também se conecta a estratégias de diversificação econômica de municípios mineradores e reindustrialização verde.
Desafios logísticos, técnicos e jurídicos
Apesar das vantagens econômicas, ambientais e energéticas, a utilização de cavas de mineração para UHR exige análises multidisciplinares:
No plano técnico, é necessário avaliar a geometria da cava, volume útil, permeabilidade e conexão à rede elétrica.
No plano ambiental, os principais pontos são: qualidade da água e interação com aquíferos.
No plano jurídico-regulatório, os temas centrais são: uso de áreas com reservas minerais reconhecidas pela ANM, se verificada eventual inviabilização da utilização da reservas; compatibilização com o Plano de Fechamento de Mina – instrumento técnico-regulatório que reúne as medidas de desativação, recuperação, estabilização, monitoramento e destinação futura da área minerada após o encerramento da atividade de lavra -, licenciamento ambiental, outorga de recursos hídricos, segurança de barragens e estruturas associadas, autorização ou concessão para exploração do potencial hidráulico, conexão à rede elétrica, comercialização de energia, prestação de serviços ancilares e eventual participação em leilões de armazenamento ou capacidade.
Experiências internacionais
A experiência internacional oferece referências importantes. O projeto Kidston Pumped Storage Hydro, na Austrália, converteu uma antiga mina de ouro em uma usina reversível de 250 MW e 8 horas de armazenamento hidráulico.
Há, ainda, experiências complementares de armazenamento de energia a partir da readequação de áreas mineradas desativadas, como as chamadas baterias gravitacionais.
Na China, o projeto EVx, da Energy Vault, prevê sistema de 25 MW/100 MWh com quatro horas de duração, baseado na elevação e descida de blocos ou módulos sólidos de grande massa, movimentados verticalmente por sistemas eletromecânicos: quando há excedente de energia, os blocos são elevados; quando há necessidade de geração, eles descem de forma controlada, acionando geradores e convertendo energia potencial gravitacional em eletricidade.
Embora não envolva água, o paralelo relevante para o Brasil está no conceito de Underground Gravity Energy Storage (UGES), que propõe utilizar minas subterrâneas desativadas para armazenamento gravitacional de longa duração, assim como as UHRs em cavas.
Conclusão
As UHRs representam uma oportunidade estratégica na interseção entre setor elétrico, infraestrutura, mineração e transição energética. Para o Brasil, o uso de cavas de mineração exauridas como reservatórios representa uma solução inovadora para:
redução dos passivos minerários atualmente existentes;
aproveitamento de áreas minerárias ambientalmente impactadas;
abertura de nova fronteira de projetos entre agentes minerários, geradores de energia, investidores e consumidores intensivos em energia; e
novas oportunidades de investimento em armazenamento de energia.