Como resolver o problema da pobreza no Brasil?

A Folha de 04.07.2026, na reportagem “Após recuo em 2022, direita volta a superar a esquerda no Brasil, aponta Datafolha”, retratou recente pesquisa que procura entender o perfil ideológico do brasileiro[1]. As conclusões do Datafolha convergem bastante com aquelas a que chegou Felipe Nunes na pesquisa que deu base ao seu livro Brasil no Espelho[2], que foi objeto do episódio do podcast Direito e Economia[3].

A pesquisa do Datafolha mostra que 44% dos entrevistados são de direita e 39% de esquerda, quando, há quatro anos, eram respectivamente 34% e 49%. Isso quer dizer que 10% dos brasileiros migraram da esquerda para a direita. Por mais que haja segmentações – entre homens, 50% são de direita contra 33% de esquerda; entre mulheres, 44% são de esquerda contra 37% de direita; entre os evangélicos, 52% são de direita contra 30% de esquerda – observa-se que a mudança política é expressiva, ainda mais se considerarmos o curto período de tempo (quatro anos) no qual ela ocorreu.

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Vale ressaltar que a classificação não resulta de uma pergunta direta que exige a autoclassificação pelo entrevistado, mas sim de diversos questionamentos sobre temas que – como armas, pobreza, criminalidade, homossexualidade e religião – traduzem os valores sociais, políticos e econômicos que costumam diferenciar a esquerda da direita.

Dentre os achados mais impressionantes da pesquisa, encontram-se os relacionados à percepção dos brasileiros sobre a pobreza. Nessa área, a parcela de brasileiros que associa a pobreza à preguiça das pessoas que não querem trabalhar saltou de 22% para 40%, enquanto a parcela que associa a pobreza à falta de oportunidades iguais caiu de 76% para 58%.

É claro que, nesse quesito, há também segmentações socioeconômicas. Dos que ganham de 2 a 5 salários mínimos, 43% associam a pobreza à preguiça contra 63% que, ao terem renda familiar superior a dez salários mínimos, fazem a mesma associação.

Também há relevante segmentação por ocupação econômica, orientação política e geração. Entre empresários, 56% acreditam que a pobreza está ligada à preguiça, o maior valor entre as ocupações. Entre eleitores de Lula, somente 28% ligam a pobreza à preguiça contra 52% de Flavio Bolsonaro. Entre eleitores de 16 a 24 anos, 22% associam pobreza à preguiça contra 49% dos eleitores com mais de 60 anos que fazem essa associação.

Tais dados convergem com os achados de Felipe Nunes[4], que revelam que 56% dos brasileiros entendem que os pobres não se esforçam para melhorar sua renda e 67% acreditam que só se pode ajudar quem merece.

Ora, a partir do momento em que a pobreza é vista, por uma expressiva parcela da sociedade – incluindo aí percentual relevante das próprias pessoas de baixa renda – como um problema pessoal – e não estrutural – perde-se parte da motivação e do respaldo político para a busca de soluções que procurem melhorar o sistema e torná-lo menos injusto ou desigual, pelo menos no que diz respeito ao acesso a oportunidades.

Essa pode ser uma importante chave para se entender a desconfiança de muitos brasileiros em relação a projetos como o Bolsa Família ou mesmo para a aceitação da opinião dominante de que os ricos merecem ser ricos enquanto os pobres merecem ser pobres. Mais do que isso, essa pode ser uma importante justificativa para manutenção do status quo e para a não adoção de importantes medidas para tornar o sistema minimamente igualitário do ponto de vista do acesso às oportunidades.

Nesse sentido, a visão do brasileiro sobre a pobreza legitima o discurso meritocrático que vê nos mercados espaços legítimos de compensação dos méritos de cada um, o que leva a um consequente amesquinhamento do papel do Estado e da própria sociedade civil para resolver problemas estruturais.

A visão do brasileiro também destoa dos estudos econômicos mais importantes sobre o tema, muitos dos quais tenho procurado abordar nas minhas colunas e podcasts recentes[5]. Tais estudos têm demonstrado que a pobreza e a desigualdade decorrem essencialmente de escolhas políticas que criam barreiras institucionais quase intransponíveis para que uma série de pessoas possa experimentar a saída da pobreza e a mobilidade social.

Obviamente que esse tipo de visão também se projeta no papel do Estado. Por mais que a pesquisa do Datafolha tenha mostrado o quanto esse tema é repleto de nuances – já que uma boa parte dos brasileiros defende um estado forte na economia, inclusive para ajudar grandes empresas em risco, para aplicar leis trabalhistas etc. – , fato é que apontou que a ideia de que depender menos do governo melhora a vida das pessoas é apoiada por 65% das pessoas (71% de homens e 59% de mulheres), o maior valor da série. Da mesma maneira, 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar serviços particulares de saúde e educação.

Trata-se de mais uma convergência com a pesquisa capitaneada por Felipe Nunes[6], segundo a qual as pessoas estão cansadas, mas não defendem políticas de redistribuição de renda nem gostam de cotas. No que diz respeito às ideologias, o livro também mostra várias das ambivalências do nosso povo, como ser mais de direita, mas ser também estatista.

O problema é que a visão equivocada das causas da pobreza dificulta a compreensão do real papel do Estado e das políticas públicas para as devidas soluções. Daí por que mesmo o estatismo não necessariamente legitimará medidas que resolvam estruturalmente a pobreza, assim como não é suficiente para evitar o discurso de demonização do Estado e das políticas públicas.

Como já tive oportunidade de apontar, ao explorar a obra Good Economics for Hard Times de Banerjee e Duflo[7], não há alternativa ou substituto para uma série de coisas que o governo faz. Isso é particularmente verdadeiro no que se refere à erradicação da pobreza e à diminuição da desigualdade. Por essa razão, se os governos são ruins, há que se ajustar tais problemas e não simplesmente se erradicar os governos ou minar a sua credibilidade.

Aliás, a postura caracterizada pelo ataque vigoroso ao Estado e pelo incentivo à falta de fé nos burocratas tem efeitos perversos, impedindo que as pessoas vejam que o governo pode ser parte da solução, diminuindo os incentivos para que pessoas qualificadas resolvam trabalhar no governo e criando uma imagem do governo que afeta a honestidade dos que querem trabalhar para ele.

Nesse sentido, é interessante mencionar entrevista recente de David Beasley, Prêmio Nobel da Paz e ex-diretor do Programa Mundial de Alimentos[8], quando foi indagado sobre se o capitalismo seria capaz de erradicar a fome. Ele responde que sim, mas alerta para o fato de que mais riqueza deveria ser acompanhada de mais responsabilidade, chamando atenção para o aumento do patrimônio dos bilionários e o quanto um dia do lucro dessas pessoas poderia ajudar a pessoas do mundo todo. Entretanto, ressalta que caridade não é salvação, razão pela qual “a solução a longo prazo é desenvolver sistemas que deem a todos emprego e estabilidade”.

Ora, falar em sistemas que deem a todos emprego e estabilidade é falar de questões estruturais que possam ao menos assegurar oportunidades minimamente equitativas para todos. É aceitar que o crescimento dos indivíduos depende não apenas da sua disposição para o trabalho, mas também de pressupostos que lhe assegurem o caminho de obtenção de rendas adequadas por meio do empreendedorismo ou do trabalho digno.

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É por todas essas razões que são preocupantes os resultados das recentes pesquisas. Fica claro que os brasileiros têm muitas dificuldades para entender a variedade e a complexidade das causas da pobreza, optando por desconsiderar os aspectos políticos e sociais imprescindíveis em prol de uma visão equivocada que associa a pobreza ao demérito individual.

É preciso tentar entender as razões dessa compreensão equivocada do nosso povo pois, sem um diagnóstico mais adequado e fidedigno sobre as razões da pobreza, dificilmente conseguiremos ter o respaldo popular para soluções efetivas.

[1] Folha de São Paulo, Edição de 04.07.2026, pp. A-6 a A-9.

[2] NUNES, Felipe. Brasil no Espelho. Um Guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Globo S.A., 2025.

[3] Podcast Direito e Economia, com Ana Frazão. Episódio 143. Brasil no Espelho, com Felipe Nunes. https://open.spotify.com/episode/4LebOfxf7x7BhEHkuaXEO2

[4] NUNES, Felipe. Op.cit.

[5] O podcast Direito e Economia tem vários episódios dedicados à questão da pobreza e da desigualdade, assim como há varias colunas do Jota sobre o tema. A título de exemplo, destaca-se a série Novas Perspectivas para a Regulação Jurídica dos Mercados. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados

[6] NUNES, Felipe. Op.cit.

[7] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados-parte-iv

[8] “Caridade não vai solucionar a fome no mundo, mas setor privado é essencial”. Folha de São Paulo. Edição de 06.07.2026, A-3- a A-31.

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