Oferecido por moradores, aluguel por temporada expande turismo para fora do eixo convencional

O turismo brasileiro cresceu em 2026 – e de um jeito diferente, se expandindo além dos eixos tradicionais. Pela primeira vez, os recordes de chegadas internacionais estão sendo puxados por estados que ficavam à margem do circuito turístico convencional.

O Rio Grande do Norte, por exemplo, registrou alta de 151% na entrada de turistas internacionais de janeiro a maio deste ano, segundo dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) em parceria com o Ministério do Turismo e a Polícia Federal. Pernambuco cresceu 103,6% no mesmo período, enquanto o Pará avançou 56,1% só no quinto mês do ano.

Para Bruno Reis, presidente da Embratur, o avanço reflete uma estratégia construída em parceria com estados, municípios e o setor privado, baseada em inteligência de mercado e promoção segmentada. “O objetivo é ampliar a distribuição do fluxo internacional, fortalecer novos destinos e posicionar o Brasil em toda a sua diversidade, mostrando que o país oferece experiências capazes de atender diferentes perfis de viajantes em todas as regiões”, acrescenta, em entrevista exclusiva ao Estúdio JOTA.

Esse fenômeno de expansão para estados onde a rede hoteleira tradicional é limitada ou concentra altas demandas em períodos específicos encontrou no aluguel por temporada a oferta de acomodação necessária para o crescimento do turismo, como aponta Guilherme Dietze, presidente do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). “Nas regiões do país com pouca ou sem hotelaria, o Airbnb acaba sendo uma solução viável para atender um público de fora”, avalia, em referência à principal plataforma que possibilita a conexão entre anfitriões e turistas.

Os dados da própria Embratur corroboram o peso das plataformas de aluguel por temporada: em pesquisa realizada com visitantes estrangeiros em parceria com Visa e Ipsos, o Airbnb e similares aparecem como o segundo tipo de acomodação mais utilizado, com 21,6% de participação.

Mas essa descentralização no turismo brasileiro reflete um fenômeno que já é consolidado nas grandes cidades: o aluguel por temporada, oferecido pelos moradores, complementa a infraestrutura turística. Isso também é relevante durante grandes eventos e datas festivas, quando o fluxo de visitantes se intensifica. Esse é o caso do Rio de Janeiro, onde Réveillon e Carnaval têm superado a marca de 95% de ocupação hoteleira em bairros da Zona Sul, segundo a prefeitura.

Grandes eventos mostram esse efeito com clareza. Quando Lady Gaga reuniu 2,5 milhões de pessoas em Copacabana em 2025, número recorde para a cidade, cerca de 60 mil foram recebidos por anfitriões cadastrados no Airbnb – os fãs vieram de 1,7 mil cidades e 66 países. O cálculo é que isso tenha ajudado a movimentar mais de R$640 milhões na economia carioca.

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Efeitos econômicos do aluguel por temporada

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Airbnb, comprovou o impacto da plataforma no turismo e na economia brasileira em 2025. A movimentação econômica gerada pela atividade no Brasil movimentou mais de R$ 113 bilhões na economia nacional, alta de 13% em relação ao ano anterior, contribuiu com quase R$ 63 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB), sustentou mais de 700 mil empregos e gerou quase R$ 9 bilhões em tributos.

Os desdobramentos econômicos da atividade também chegam aos serviços que fazem parte da rotina dos viajantes, como restaurantes, mercados, motoristas, profissionais de limpeza e pequenos empreendedores. Em 2025, de acordo com a FGV, a renda do trabalho associada à atividade do Airbnb chegou a quase R$ 32 bilhões, crescimento de quase 12% em relação ao ano anterior. Os postos de trabalho também aumentaram em 12% em relação a 2024.

Para Jurema Monteiro, consultora e coordenadora do Comitê de Travel Techs da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Câmara-e.net), esses impactos na economia evidenciam como a tecnologia tem sido um catalisador no turismo. “As travel techs ajudam a dar visibilidade a novos destinos, permitindo a conexão entre quem precisa de um espaço e aqueles que possuem imóveis que podem disponibilizar”, aponta. “Essa oferta é complementar à hotelaria e contribui para diversificar as opções, atender diferentes perfis de viajantes e distribuir melhor os benefícios econômicos do turismo pelo território.”

A mudança de comportamento do turista é outro motivo que justifica o destaque das plataformas como o Airbnb. Segundo Monteiro, a jornada de viagem se tornou essencialmente digital nos últimos vinte anos, da escolha do destino à reserva. “O viajante passou a ter mais autonomia para organizar a própria experiência e fazer escolhas de acordo com seu perfil, orçamento e interesses”, ressalta.

Isso explica por que o volume de noites reservadas por viajantes brasileiros no Airbnb cresceu mais de 20% no primeiro trimestre de 2026 pelo terceiro trimestre consecutivo, de acordo com dados do Airbnb.

Para que esse crescimento da locação por temporada – assim como o efeito multiplicador dessa atividade na economia – continue, Monteiro defende que o ambiente regulatório acompanhe a evolução do setor sem criar restrições desproporcionais.

A locação por temporada já é disciplinada pela Lei do Inquilinato (Lei 8.245/1991). Mudanças que possam interferir na liberdade econômica e no direito de propriedade poderiam comprometer os benefícios que a atividade gera, especialmente em destinos ou períodos com oferta hoteleira limitada

Assim, a preservação deste ecossistema regulatório e tecnológico é fundamental para que o país atinja metas globais cada vez mais ousadas. Para o turismo internacional como um todo, o horizonte é ambicioso, segundo Bruno Reis, presidente da Embratur.

O Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027 estabeleceu como meta oficial 8,1 milhões de turistas internacionais anuais até 2027. Diante dos recordes consecutivos, esse número foi superado na prática. O desafio agora, proposto pelo Ministério do Turismo e que, segundo Reis, se tornou o norte estratégico da instituição, é chegar a 10 milhões de visitantes internacionais por ano.

“O que era visto como um cenário extraordinário, hoje pauta as ações da Embratur pela própria realidade dos recordes consecutivos”, conclui o presidente da agência.

Os números de 2026 e as estimativas mostram o espaço que as plataformas como Airbnb podem ocupar para viabilizar essa nova escala do turismo nacional.

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