Eliminação da seleção expõe dissonância cognitiva da vida pública nacional

Era Neymar? Ou os problemas da seleção brasileira de futebol tem raízes mais profundas? Não há instituição que melhor reflita nossos dilemas como sociedade à busca de uma identidade coletiva do que o escrete canarinho, cujo amarelo desbota-se progressivamente a cada ciclo de quatro anos.

Alguns dirão que a decadência dentro das quatro linhas é fruto da corrupção, como se a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) já tivesse sido em alguma época um convento de carmelitas descalças. Outros vão colocar a conta das seis eliminações em Copa do Mundo entre 2006 e 2026 na superioridade europeia das últimas duas décadas no esporte que mais mobiliza multidões no mundo.

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Era Neymar, não o jogador/indivíduo, mas o símbolo de uma geração que, seja nos gramados, seja na política e nos negócios, mais ostenta que entrega — um fenômeno não causado, mas potencializado, pela ascensão das redes sociais digitais e a economia da atenção junto com seus efeitos nefastos na política.

Deitamo-nos eternamente em berço esplêndido deslumbrados com as glórias do passado enquanto enxergamos no espelho uma realidade distorcida, seja para exaltar supostas qualidades, seja para procurar defeitos que, ainda que existam, estão distantes de representar a raiz dos problemas.

Nesse pêndulo de emoções, ora nos vemos como os grandes, imbatíveis, ora enxergamo-nos ainda eivados daquilo que Nelson Rodrigues definiu magistralmente como complexo de vira-lata. Tal lógica pervade a vida nacional para além dos gramados.

Na política, por exemplo, atores à esquerda e à direita alternam-se entre discursos de grandeza e vitimização. Para além de artifícios retóricos, a narrativa de buscar em migalhas sinais de superioridade levam-nos a ignorar potencialidades e, sobretudo, construir estratégias para convertê-las em bons frutos.

O presidente Lula, que ironizou Neymar ao encampar a brincadeira de chamá-lo de jogador de home office, no fundo encarna o papel de peso morto de esquerda, pois novas lideranças de projeção nacional desse campo não se formaram para substituí-lo. O ciclo de poder do PT será visto no futuro como uma era em que o país enxugou gelo, entregando políticas compensatórias, sem fazer transformações estruturais, conformando-se com o retorno a uma economia primário-exportadora.

Com a ascensão da extrema direita, Lula ganhou sobrevida tal e qual o jogador que está no banco de reservas devido à experiência, não obstante o histórico de lesões e notória fora de forma. Por falar nesse lado do espectro político, impossível também deixar de fazer uma analogia entre a idolatria devotada a Neymar mesmo sem títulos relevantes pela seleção principal e a alcunha de mito atribuída pela base fanática de direita a Jair Bolsonaro (PL), que na Presidência legou ao país 700 mil mortes na pandemia de Covid-19 depois da negligência na aquisição de vacinas contra o vírus.

Com a eliminação para a Noruega, não faltam aqueles que criticam a escolha por um técnico estrangeiro para comandar o Brasil. O problema não reside na nacionalidade, mas na tentativa de impor ao país um modelo externo, seja no futebol, seja na política. Podemos — e devemos — aprender com experiências externas, mas sem nos deslumbrarmos com o que nos é alheio a princípio.

Eis a raiz do complexo de vira-lata: o outro é melhor. Portanto, devo copiá-lo. Parece ter sido essa a lógica da escolha do italiano Carlo Ancelotti para técnico da seleção, que, no jogo contra a Noruega, adotou um estilo nada afeito à tradição brasileira, dando à equipe adversária o controle de bola.

É o mesmo raciocínio implícito entre aqueles que defendem emular o trumpismo no Brasil, à direita (com pretensões autocráticas), que ignora a experiência histórica que nos conecta tanto ao Ocidente quanto ao Sul Global. De modo análogo, há à esquerda uma obsessão por emular as regulações da União Europeia e seu declinante Estado de bem-estar social sem atentar para o fato de que, ano após ano, perdemos posições relativas para outros países no ranking de renda per capita.

Seja na política, seja nos esportes, receita de bolo dificilmente funciona. O caminho para o sucesso está na capacidade de adaptação às circunstâncias sem perder princípios fundamentais enquanto se rejeita uma viagem em torno do próprio umbigo ou a glorificação de outros mortais.

Identidade é a palavra mais recorrente que vi nos textos publicados nas quase 24 horas que se sucederam à eliminação do Brasil. Por identidade, entende-se a busca por um estilo de jogo próprio, mas que seja eficaz. Para além dos gramados, o futebol nos deu uma identidade ao mostrar ao mundo que um time multirracial, de um país em desenvolvimento, poderia vencer uma competição de classe mundial.

Assim, não é mera coincidência que a turbulência da amarelinha ocorra em paralelo ao ciclo de mal-estar político-institucional que se tornou evidente com os protestos de junho de 2013. Desde então, o país só toma de 7 a 1. Os que se propõem como solução são o remédio amargo do autoritarismo associado à pior forma de vira-latismo que existe: a crença de que uma potência estrangeira vai nos salvar.

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No campo democrático, restam os gerentões do pacto de mediocridade encarnado no Brasil fazendão, exportador de commodities, sejam elas agrícolas, minerais ou humanas, no formato de jogadores a serem talhados em clubes europeus de capital árabe-asiático, talvez o real vencedor da globalização.

O estilo Neymar já era? Renunciamos a nós mesmos sem qualquer sucesso não apenas no futebol, mas também nas dimensões material e simbólica da nação. Resta-nos como cachaça do vira-latismo a mania de grandeza que entorpece, barrando qualquer ação e diagnóstico preciso da realidade.

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