O Comitê de Política Monetária (Copom) mencionou uma “assimetria altista” nos riscos para a inflação e a incerteza para caracterizar o cenário que levou à decisão de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14,50% para 14,25% ao ano na reunião de semana passada. As avaliações constam na ata divulgada pelo Banco Central (BC) nesta terça-feira (23/6).
Um dos pontos mais discutidos após a divulgação da decisão na quarta-feira passada e que gerou ruído no mercado foi o trecho em que o Copom tratava das trajetórias de política monetária.
Nesse ponto, o comitê informava que as simulações mostraram que a trajetória dos juros necessária para levar a inflação para a meta no horizonte relevante atual, do quarto trimestre de 2027, colocaria o índice em um patamar abaixo da meta no primeiro trimestre de 2028, que será o horizonte relevante a partir da próxima reunião.
O horizonte relevante é o período em que a política monetária faz mais efeito, 18 meses após cada decisão. Na próxima reunião do Copom, ele será o primeiro trimestre de 2028.
Na ata desta terça-feira, o colegiado destacou o diagnóstico de um cenário de deterioração, com alta na inflação corrente e nas expectativas para 2026, 2027 e 2028. A projeção no cenário de referência do Copom é de inflação em 3,7% no último trimestre de 2027.
Trajetórias alternativas
Dessa forma, o colegiado debateu “trajetórias alternativas” para a condução dos juros que não estavam presentes em expectativas ou respostas do relatório Focus ou do Questionário Pré-Copom (QPC), nem refletidas na precificação da política monetária pelo mercado.
Essas trajetórias consideravam uma convergência da inflação à meta no horizonte relevante atual, o quarto trimestre de 2027, “exigindo variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguida de diversos trimestres com inflação abaixo da meta”.
Segundo a ata, o Copom decidiu que trajetórias de Selic “menos discrepantes” ao que estava previsto no Focus, QPC ou na precificação da política monetária no mercado, seriam mais adequadas no momento. Para o colegiado, essas trajetórias foram escolhidas por evitarem induzir “volatilidade excessiva” que tenha “efeitos potencialmente contraproducentes” ao trabalho de convergência da inflação à meta.
“Essas trajetórias contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração. Nesse caso, as flutuações de produto se mostraram menores, com a inflação convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028”, diz a ata.
Na semana passada, a mediana de projeções do Focus mostrava uma expectativa de corte para 14,25% ao ano na reunião e o patamar da Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026. Já nesta semana, a mediana das expectativas passou para 14% ao final deste ano.
De acordo com a ata, o comitê debateu que o conjunto de resultados das trajetórias precisa ser ponderado “à luz das melhores práticas” de política monetária “recomendando não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes”.
Entre essas incertezas, o Copom mencionou as consequências de efeitos de choques “já materializados”, como os do conflito no Oriente Médio, como a extensão de impactos não materializados, como o do El Niño.
“No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”.
No balanço de riscos para a inflação, o colegiado confirmou a “assimetria” altista. No comunicado da semana passada, o Copom havia adicionado entre os fatores que poderiam levar a uma alta da inflação os “estímulos à demanda agregada” que resultem em crescimento da atividade acima do potencial e mencionou também os “efeitos climáticos” sobre a produtividade agrícola e custos de energia.
Cenário internacional e inflação
O Copom destacou que a incerteza sobre o cenário externo continuou em “níveis elevados” considerando não só o conflito no Oriente Médio, como a “permanência de incertezas” sobre a política econômica dos Estados Unidos.
Na visão do colegiado, as últimas divulgações de inflação mostraram “sinais claros” dos efeitos dos conflitos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 4,72% no acumulado de 12 meses até maio. A meta é de 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O Copom também ressaltou que, além dos efeitos dos conflitos, há uma inflação pressionada pela demanda e requer uma política monetária “contracionista”. Na ata, o colegiado destacou que “ficou evidente” uma desancoragem adicional das expectativas de inflação para o ano de 2028.
Para além dos riscos, o comitê destacou que os efeitos dos juros em patamar restritivo por período prolongado ainda “se fazem sentir” por meio da desaceleração do saldo de crédito. O Copom iniciou o atual ciclo de queda da Selic em março deste ano, quando a taxa passou de 15% para 14,75% ao ano.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”.