‘Crise do petróleo em Ormuz está promovendo a diversificação energética para renováveis’, diz Ana Toni

A poucos meses da COP31, marcada para novembro em Antália, na Turquia, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, participou da SB64. O evento é uma rodada intersessional da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) que prepara o terreno para a próxima conferência climática.

O encontro em Bonn, na Alemanha, ocorre em meio a uma crise energética global agravada pelas tensões no Oriente Médio e sob a ameaça de um novo El Niño. Em entrevista exclusiva ao JOTA, Toni analisa como esses fatores estão influenciando as negociações climáticas e o debate sobre a transição energética.

Para ela, o fechamento do Estreito de Ormuz, que fez os preços do petróleo dispararem, “é o que está promovendo diversificação para energias renováveis”.

O JOTA realizou in loco a cobertura da SB64, que reuniu o PIB global em peso de olho no futuro da energia e da economia verde – assuntos do projeto especial Matriz

Segundo Ana Toni, o clima das negociações em Bonn mudou significativamente em relação ao ano passado. Enquanto a aprovação da agenda levou quase três dias em 2025, neste ano o processo foi concluído em menos de dez minutos. Isso reflete o legado da COP30 – realizada em Belém e que na prática ainda está em curso até a nova conferência –, e as transformações recentes da geopolítica global. “Entramos na fase da implementação”, afirma.

Nesse novo contexto, temas que até pouco tempo atrás provocavam forte resistência passaram a ser discutidos de forma mais pragmática. Pela primeira vez, a transição para longe dos combustíveis fósseis integra a programação oficial de eventos da reunião, ainda que permaneça fora da agenda formal de negociação. A presença do setor privado nas discussões, algo incomum em um encontro tradicionalmente técnico, também reflete essa mudança de foco.

Na entrevista, Toni detalha os próximos passos do chamado mapa do caminho para deixar os combustíveis fósseis – agenda proposta proposta pelo Brasil em Belém –, explica por que a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento já não é suficiente para organizar o debate, comenta a relação entre eletrificação e biocombustíveis na agenda climática e, por fim, analisa como a ameaça de um novo El Niño reforça a urgência das políticas de adaptação. Confira abaixo a entrevista.

Vivian Oswald: No ano passado, você disse que a dependência de combustíveis fósseis não podia ser tratada como tabu. Diante de tudo o que está em jogo agora, esse tema continua sendo um tabu? Como esse debate mudou?

Ana Toni: A gente tem percebido, nesta reunião em Bonn, que muita coisa mudou. No ano passado, demoramos quase três dias para aprovar a agenda. Neste ano, ela foi aprovada em menos de dez minutos. Isso reflete dois fatores: primeiro, a COP30 absorveu boa parte das demandas que os países vinham trazendo, especialmente temas como comércio e financiamento. Segundo, a geopolítica mudou e a escala dos problemas também.

O da transição para longe dos combustíveis fósseis ainda não está na agenda formal de negociação, mas já faz parte da programação oficial. Pela primeira vez, também vi nessas reuniões a presença do setor privado, o que não é comum nesse tipo de encontro, normalmente voltado aos negociadores. Isso mostra que o debate está muito mais focado na implementação: como mobilizar os US$ 1,3 trilhão necessários para a transição energética, para o combate ao desmatamento e para outras frentes da agenda climática.

Isso não significa que exista um acordo. Os países continuam longe de um consenso e o tema segue sendo sensível. Mas, depois da COP30, ficou estabelecido que precisamos discutir essa questão de forma pragmática, olhando para o que os países já estão fazendo na prática, seja por meio da eletrificação, dos combustíveis sustentáveis ou da retirada de subsídios aos combustíveis fósseis. Entramos na fase da implementação.

Você mencionou o mapa do caminho. Pelo que temos ouvido aqui, a impressão é que esse processo vai funcionar como uma espécie de ponte até a COP31, e que o tema só deve avançar de fato na COP32. É isso que podemos esperar?

É importante deixar claro que o tema entrou na agenda oficial de eventos, não na agenda oficial de negociação. Isso nunca esteve formalmente na pauta de negociação.

O embaixador André Corrêa do Lago assumiu o compromisso de apresentar o relatório final do Mapa do Caminho antes da COP31, e é isso que vamos fazer. O que acontece depois ainda depende da maturidade do debate. O Mapa do Caminho foi criado justamente para servir de plataforma para essa conversa e o que temos visto, inclusive na reunião de Santa Marta, é um grupo crescente de países interessado em mantê-la viva.

Não sei dizer se isso voltará às negociações na COP31 ou na COP32. Mas há um marco importante pela frente: a COP33, quando acontecerá o segundo Global Stocktake. Foi no primeiro, aprovado em Dubai, que surgiu a referência à transição para longe dos combustíveis fósseis. Daqui a dois anos, teremos de avaliar o que foi implementado desde então e o que ainda precisa avançar. Por isso, certamente será um momento em que esse debate voltará a ganhar força.

No formato do mapa do caminho, podemos esperar mais clareza sobre a divisão de responsabilidades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, principalmente sobre quem deve financiar essa transição? Ou o documento ainda vai tentar agradar a todos para que o tema não saia da pauta? 

O que estamos tentando fazer no mapa do caminho é olhar primeiro para a demanda. Três quartos da população do mundo vivem em países que importam combustíveis fósseis. Isso mostra que a divisão entre Norte e Sul, ou entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, continua importante, mas não explica toda a complexidade do problema.

Estamos analisando a demanda, a oferta e os efeitos econômicos da transição. Estamos trabalhando com diferentes grupos de países, levando em conta fatores como produção, consumo, nível de desenvolvimento e grau de preparação para a transição energética.

Diante desse cenário, a demanda por combustíveis fósseis continua existindo?

A demanda continua existindo, sem dúvida. O que muda é a forma como os países estão respondendo a ela. Etiópia e Ruanda, por exemplo, não produzem combustíveis fósseis e dependem totalmente da importação, mas aprovaram legislações para restringir a entrada de veículos a combustão. A solução que encontraram foi avançar na eletrificação.

Também não dá mais para tratar a transição energética de forma genérica. Dentro do próprio setor de transportes, os desafios são diferentes. A transição dos carros leves está mais avançada do que a da aviação ou da navegação, que dependem de outras soluções tecnológicas. O que queremos mostrar com o mapa do caminho é justamente isso: existem desafios e oportunidades diferentes para cada setor e para cada grupo de países.

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Não basta ampliar a oferta de energias renováveis. É preciso também planejar a redução da dependência dos combustíveis fósseis. As duas coisas precisam caminhar juntas, de forma justa e ordenada. Acabou o “fla-flu”. Agora precisamos entrar nos detalhes e ajudar os países que querem fazer essa transição.

Os investimentos em energia sustentável parecem cada vez mais irreversíveis. Basta olhar para a crise recente em torno do Estreito de Ormuz para perceber que existe um incentivo econômico para acelerar essa mudança. Existe um caminho de oportunidades importante por trás dessa crise?

Foram os Estados Unidos que começaram essa crise, não o Estreito de Ormuz. E, provavelmente sem intenção, essa crise está promovendo a diversificação energética para os renováveis.

Três quartos da população do mundo dependem da importação de combustíveis fósseis. Quando esse combustível dobra ou triplica de preço, é natural pensar em outras fontes, independentemente da discussão climática. É exatamente isso que está acontecendo.

Os países importadores perceberam que não querem permanecer vulneráveis a fatores que não controlam. Eles podem investir em energia solar ou eólica produzida localmente, reduzindo essa dependência.

Durante muito tempo, a segurança energética foi associada ao uso de combustíveis fósseis. O que a crise atual está mostrando é justamente o contrário: em muitos casos, é a dependência dos combustíveis fósseis que está gerando insegurança energética. Isso está levando os países a reverem esse conceito e reforçando o papel das energias renováveis nesse processo.

Na primeira entrevista coletiva do presidente designado da COP31, a eletrificação apareceu como uma das prioridades da agenda. O Brasil tem uma aposta histórica nos biocombustíveis, frequentemente defendida pelo presidente Lula. O Brasil ficou um pouco de fora desse planejamento? E essas metas representam uma novidade ou aprofundam compromissos já discutidos em conferências anteriores?

A COP31 está aprofundando uma estrutura criada pela agenda de ação da COP30. Na COP30 foram lançados 120 planos de aceleração. O que a COP31 fez foi destacar algumas dessas frentes e dar mais profundidade a elas.

Não vejo eletrificação e combustíveis sustentáveis como agendas concorrentes. Elas são complementares. Hoje, a média global de eletrificação gira em torno de 20%, faixa em que o Brasil também está, embora tenha metas mais ambiciosas. E eletrificação não significa apenas carros elétricos. Ela envolve edifícios, eficiência energética e diversos outros setores.

Ao mesmo tempo, os combustíveis sustentáveis continuam fundamentais, especialmente para áreas como aviação e navegação, onde ainda existem poucas alternativas tecnológicas. Por isso, vejo a COP31 aprofundando temas que já estavam presentes na COP30, e não substituindo uma agenda pela outra.

É uma agenda que agrada mais aos europeus?

Não só aos europeus. É uma agenda importante para qualquer país porque está diretamente ligada à eficiência energética. E eficiência energética beneficia todo mundo, das famílias às empresas.

Também não vejo nenhuma incompatibilidade entre eletrificação e combustíveis sustentáveis. Ao contrário, elas se complementam. Os combustíveis sustentáveis estão cada vez mais presentes no debate e ganharam muito espaço no Mapa do Caminho, especialmente em setores como aviação e navegação, onde as alternativas ainda são limitadas.

Ainda não falamos sobre o El Niño. Sabemos que há países insulares e em desenvolvimento menos preparados para lidar com seus efeitos, e vimos recentemente o que aconteceu no Rio Grande do Sul. Como o fenômeno está impactando as discussões aqui?

O El Niño está impactando bastante as discussões. E o que me deixa muito orgulhosa é que, para o Brasil e para a COP30, o tema da adaptação já era absolutamente central. Com o El Niño, ele se torna ainda mais importante.

O fenômeno reforça tudo o que construímos na COP30, como o financiamento para adaptação e os indicadores de adaptação. Nesta reunião em Bonn, o número de eventos sobre adaptação triplicou. Estamos muito mais focados em como acelerar esses instrumentos do que em discutir o que precisa ser feito. O El Niño torna tudo isso concreto, porque mostra o que cada país precisa fazer para lidar com impactos cada vez mais frequentes.

Um dos grandes debates aqui tem sido a relação entre adaptação e agricultura. O fenômeno vai influenciar a capacidade de produção de alimentos em diversos países e exige planejamento antecipado. Deveríamos ter começado essa conversa há dez anos. Estamos atrasados, mas pelo menos começamos na COP30.

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