Com o debate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro pautado por temas ligados à relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, o governo observa os processos eleitorais no Peru e na Colômbia a fim de mensurar até onde Donald Trump está disposto a interferir para favorecer aliados.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada hoje (10) mostra que o embate narrativo entre governo e oposição sobre o tarifaço favorece Lula, Daniel Marcelino analisa no JOTA PRO Poder.
47% concordam com a versão do presidente de que Flávio teve influência sobre a decisão americana;
e 35% acreditam na versão do senador.
Resultado semelhante aparece na discussão sobre as motivações das tarifas:
46% concordam com a interpretação de Lula de que a medida representa uma retaliação relacionada ao Pix;
ante 36% que apoiam a explicação apresentada por Flávio.
A sexta rodada da pesquisa indica uma melhora do ambiente político para Lula, com 39% das intenções no primeiro turno, dez pontos à frente de Flávio Bolsonaro (29%), e vantagem de seis pontos em um eventual segundo turno (44% a 38%).
O dado mais relevante está na movimentação do eleitorado independente. Entre os entrevistados que não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, Lula avançou de 29% para 37%, enquanto Flávio recuou de 31% para 24%.
O governo segue acreditando na força da relação pessoal entre Lula e Trump, com um possível encontro entre os dois ainda no radar.
Na pauta das negociações, o Planalto avalia negociar tarifas setoriais, incluindo uma possível troca entre a discussão sobre o etanol americano e o acesso do açúcar brasileiro ao mercado deles, Fábio Pupo escreve na nota 2.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. E o Brasil?
Com a proximidade do fim da conturbada eleição peruana, é a disputa colombiana que hoje concentra a atenção do governo brasileiro, Vivian Oswald e Daniel Marcelino escrevem no JOTA PRO Poder.
Por que importa: No Palácio do Planalto e no Itamaraty, o segundo turno é visto como um teste importante para medir até que ponto os Estados Unidos estão dispostos a se envolver nas eleições latino-americanas, sob a lógica de sua Estratégia de Segurança Nacional para o hemisfério.
O governo acompanha com lupa os desdobramentos da campanha rumo ao pleito para observar os limites da etiqueta diplomática que Washington pretende respeitar — ou se as regras de bom comportamento vão deixar de valer.
Os Estados Unidos não têm feito questão de esconder a intenção de interferir nas eleições em curso na América Latina, onde tem avançado uma onda à direita.
Isso vai acontecer no Brasil?
A resposta para o caso brasileiro permanece incerta.
O contexto colombiano é diferente, e a relação entre Lula e Donald Trump é bem diferente da que o presidente americano tem com Gustavo Petro.
🎯 Panorama: O entorno de Lula considera que a eleição brasileira ocupa posição central nos cálculos estratégicos de Washington para a região.
Essa percepção ganha força desde o ano passado, quando integrantes do governo passaram a interpretar sinais vindos dos Estados Unidos como uma demonstração de interesse crescente nos rumos da política doméstica brasileira.
Episódios envolvendo negociações comerciais e o debate sobre a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro foram lidos em Brasília como indícios de que a disputa eleitoral já estava no radar da Casa Branca.
🔮 O que observar: Se os prognósticos eleitorais se confirmarem no Peru, com a vitória de Keiko Fujimori, e na Colômbia, onde Abelardo de la Espriella — que recebeu apoio de Trump — aparece como favorito para o segundo turno de 21 de junho, o Brasil ocupará uma posição singular no mapa político sul-americano.
Cercado por governos eleitos em uma onda conservadora que avançou sobre os vizinhos, o país se tornaria a principal exceção regional, mantendo uma coalizão de centro-esquerda no poder.
O cenário reforçaria a percepção, já presente em setores do governo, de que a eleição brasileira ganhou uma dimensão geopolítica ainda maior.
Mais do que definir os rumos internos do país, o pleito de outubro poderá determinar se o Brasil acompanha a guinada à direita observada em boa parte da América do Sul…
…ou se permanece como o último grande contraponto a esse movimento na região, onde Trump tem por objetivo ampliar o domínio americano e afastar a China do “seu quintal”.
⏩ Pela frente: O governo ainda aposta na relação entre Lula e Trump como um possível freio a iniciativas mais explícitas de interferência.
Essa expectativa ajuda a explicar o interesse do Planalto em manter canais de diálogo abertos com a Casa Branca.
Neste contexto, segue no radar diplomático um novo encontro entre Lula e Trump à margem da cúpula do G7, que começa na próxima semana em Évian-les-Bains, na França.
UMA MENSAGEM DO MATTOS FILHO
Aplicação do ECA Digital na prática: o que a lei fala sobre apostas
O debate sobre o uso de produtos e serviços digitais por crianças e adolescentes foi ampliado com a entrada em vigor do chamado ECA Digital, que estabeleceu desafios práticos para empresas de diferentes setores.
As apostas foram reguladas em 2025, quando as bets passaram a se submeter às regras da Secretaria de Prêmios e Apostas, incluindo a obrigatoriedade de mecanismos de verificação de idade e autenticação de identidade para impedir o acesso de menores de idade.
O ECA Digital ainda impõe aos fornecedores de tecnologia a adoção de medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos relacionados ao acesso, exposição ou interação de menores com jogos de azar e apostas de quota fixa. O decreto regulamentador ainda exige que lojas de aplicativos e sistemas operacionais impeçam a disponibilização de operadores ilegais ou sem verificação etária.
Saiba mais sobre os impactos do ECA Digital.
2. Pour some sugar
Lula discursa em evento do setor sucroalcooleiro / Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O governo avalia negociar tarifas setoriais com os Estados Unidos, incluindo uma possível troca entre a discussão sobre o etanol americano e o acesso do açúcar brasileiro ao mercado de lá, Fábio Pupo escreve no JOTA PRO Poder.
Por que importa: A iniciativa pode reabrir uma disputa comercial histórica entre os dois países na cadeia da cana e ampliar o diálogo sobre outras áreas da economia.
O governo pretende usar um argumento antigo do setor sucroalcooleiro, de que os Estados Unidos criticam as taxas sobre o etanol, mas mantêm barreiras maiores para o açúcar brasileiro.
Integrantes do governo já defenderam que as tarifas atuais representam um equilíbrio entre os dois produtos.
Lula se reuniu ontem (9) com representantes do setor sucroalcooleiro e ministros para discutir o tema.
⏩ Pela frente: O avanço das negociações dependerá das conversas previstas entre autoridades brasileiras e americanas nas próximas semanas.
3. Rastilho
O ministro Dario Durigan e Davi Alcolumbre em reunião no Senado / Crédito: Pedro Gontijo/Agência Senado
O ministro Dario Durigan pediu a Davi Alcolumbre que o Senado não vote as pautas-bomba em tramitação na Casa, Marianna Holanda, Fábio Pupo e Maria Eduarda Portela escrevem no JOTA.
O apelo ocorreu na tarde de ontem (9) em meio a cálculos da Fazenda que apontam impacto fiscal de ao menos R$ 364 bilhões caso quatro matérias sejam aprovadas no Senado.
Impulsionadas pelo ano eleitoral, a maioria trata de piso de categorias.
🔭 Panorama: Após a reunião, Alcolumbre sinalizou em uma fala breve no plenário que será contrário ao andamento dessas propostas.
“Estou sendo cobrado por muitos colegas meus e eu estou assim muito triste de ter que ficar toda hora dizendo: ‘Não posso pautar, o Estado brasileiro não vai resistir, os municípios brasileiros não vão ter condições de pagar’”, disse.
“Na Marcha dos Prefeitos, eles solicitaram que não votasse, porque no Orçamento do Brasil não cabe”, completou.
O senador mencionou a PEC do Suas (Sistema Único de Assistência Social), que fixa em 1% do Orçamento da União para a assistência social, cujo impacto é de R$ 38 bilhões.
Nas contas da Fazenda, entram os seguintes projetos:
PL de renegociação de dívidas rurais: R$ 170 bilhões;
PEC dos agentes de saúde: R$ 99 bilhões;
PEC que amplia repasse para Fundo de Participação dos Municípios: R$ 10 bilhões, no primeiro ano, e
PL de piso dos médicos e cirurgiões dentistas: R$ 47 bilhões.
4. Embargos, decreto e PDL
O ministro Edson Fachin em sessão do Supremo / Crédito: Gustavo Moreno/STF
O Supremo Tribunal Federal inicia hoje (10) o julgamento dos embargos de declaração apresentados para reformular o acórdão que torna parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet, Edoardo Ghirotto e Karol Bandeira escrevem no JOTA PRO Tecnologia.
🔭 Panorama: O julgamento começa em meio à decisão de Davi Alcolumbre de dar andamento a PDLs (projetos de decreto legislativo) da oposição que sustam o decreto de Lula que regulamentou o novo regime de responsabilidade.
A definição do relator dos PDLs deveria ter saído de uma reunião de líderes do Senado, ontem (9), mas o encontro não aconteceu.
Segundo o presidente da CCJ, Otto Alencar, não há perspectiva de quando Alcolumbre tentará marcar uma nova reunião.
A expectativa do Planalto é de que os ministros do STF usem o julgamento dos embargos de declaração para respaldar o decreto que entrou na mira de Alcolumbre e da oposição.
O governo não espera que o Supremo valide o teor da regulamentação, mas, sim, a sua aplicação.
Tal sinalização já foi dada pelos ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes durante o Fórum de Lisboa, na semana anterior.
O presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, tem expressado interesse em terminar o julgamento de todos os recursos nesta quarta, mas não existem garantias de que isso de fato acontecerá.
5. Em suspenso
A ministra Estela Aranha em sessão do TSE / Crédito: Luiz Roberto/TSE
A ministra Estela Aranha pediu vista e interrompeu o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral sobre a suspensão de uma pesquisa AtlasIntel que relacionava Flávio Bolsonaro ao Master e a Daniel Vorcaro, Flávia Maia registra no JOTA.
Com isso, segue válida a liminar de Nunes Marques que retirou o levantamento de circulação.
Por que importa: O caso pode servir de referência para as regras das pesquisas eleitorais de 2026, especialmente sobre perguntas que possam induzir respostas e o uso de áudios e vídeos nos levantamentos.
⏩ Pela frente: O julgamento será retomado após a devolução do processo por Estela Aranha.
6. Letras miúdas
Trabalhador rural em plantação de alho / Crédito: Wenderson Araújo/Trilux
Parlamentares da bancada do agronegócio buscam reduzir a resistência do setor bancário a fim de manter para hoje (10) a votação do PL das dívidas rurais, Daniel Marques Vieira escreve no JOTA PRO Poder.
A preocupação dos ruralistas é que a própria Febraban se posicionou contra alguns dispositivos do projeto — o que tem potencial para dificultar a votação, uma vez que o governo também tende a se opor.
💸 Panorama: O agro está próximo de conseguir um acordo com os bancos, segundo articuladores do tema, e a expectativa do setor é que a votação seja mantida.
Primeiro, a discussão avança para restringir os critérios de acesso à renegociação de dívidas.
Na solução em estudo, o produtor precisará comprovar, obrigatoriamente por meio de laudos técnicos, pelo menos duas perdas de 30% ou mais entre 2019 e 2026, ou prejuízos decorrentes de conflitos geoeconômicos.
Isso deve substituir o critério anterior, que usava os municípios como unidade de análise.
Em segundo lugar, o agro busca avançar na negociação com os bancos em relação aos prazos de pagamento.
O governo defende um parcelamento de 10 anos, o que inclui dois anos de carência.
Agora, é avaliado um prazo maior, de 13 anos, com dois a três anos de carência para o produtor rural.
🔮 O que observar: O principal gargalo diz respeito à inclusão no PL de dívidas não bancárias, como as Cédulas de Produto Rural (CPR) emitidas para fornecedores.
Os defensores do projeto argumentam que a maior parte do endividamento do produtor rural não está nos bancos, mas sim com agentes privados.
Por outro lado, as instituições financeiras temem ter de assumir créditos com alta possibilidade de inadimplência.
O governo também tem atuado para retirar o trecho.
Ainda que uma solução não tenha sido apresentada, é estudado um meio-termo, que pode ser firmado por fora do projeto.
7. Votação sem acordo
O senador Plínio Valério, relator da PEC do BC / Crédito: Saulo Cruz/Agência Senado
A CCJ do Senado deve votar hoje (10) a proposta que amplia a autonomia financeira e gerencial do Banco Central, apesar da falta de acordo entre a autoridade monetária, o Ministério da Fazenda e o Senado, Daniel Marques Vieira e Fábio Pupo escrevem no JOTA.
Por que importa: O principal impasse envolve a retirada do Banco Central do regime de autarquia, o que daria mais autonomia para contratar pessoal e investir, mas também alteraria a contabilidade da dívida pública e das contas fiscais.
O governo defende manter o Banco Central como autarquia e avalia que as mudanças poderiam distorcer indicadores fiscais e reduzir controles sobre gastos com pessoal.
A equipe econômica trabalha em uma proposta alternativa e tenta fechar um acordo antes do recesso parlamentar.
A PEC ainda precisará passar pelo plenário do Senado e pela Câmara.
Defensores da proposta afirmam que as mudanças contábeis não teriam impacto real na economia e que o texto mantém o teto salarial do funcionalismo.
O BC argumenta que enfrenta restrições orçamentárias para investir em tecnologia, supervisão bancária e na operação do Pix.
O relatório mais recente de Plínio Valério (foto) prevê que o BC seja uma “entidade pública de natureza especial, com autonomia técnica, operacional, administrativa, orçamentária e financeira”.