Os dois textos anteriores desta série trataram da fragilidade material da segurança energética brasileira e dos limites da desverticalização aplicada ao setor. Falta examinar uma terceira camada do problema: a infraestrutura jurídico-econômica que viabiliza o comércio internacional.
É sabido que a precificação do frete, os termos das apólices de seguro e até mesmo os mecanismos de solução de controvérsias são significativamente influenciados — quando não objetivamente determinados — por parâmetros internacionais. Mas há uma variável crítica comum a todas essas operações, cujo status hegemônico chega a sugerir sua completa inevitabilidade: o câmbio, sobretudo a liquidação em dólar americano.
Os dois lados do problema—a regulação propriamente dita e aquela implicitamente colocada pela moeda americana—são especialmente visíveis no contexto da atual crise em torno do Irã. Quando o Estreito de Hormuz foi fechado, o mercado de frete de superpetroleiros entre o Oriente Médio e a China entrou em desordem. Cabe à Baltic Exchange, sediada em Londres, estabelecer os modelos de cálculo de frete dessas rotas, mas ela o faz tomando como base o trajeto entre portos chineses e Ras Tanura, um grande porto saudita localizado no Golfo Pérsico.
Diante do colapso total do tráfego marítimo no Golfo durante as primeiras semanas da guerra, a BE manteve a taxa de referência TD3 para todos os deslocamentos marítimos envolvendo o trajeto Oriente Médio-China, mesmo quando embarcações e operadores já alteravam seus portos de origem ou destino para fora da zona de conflito.
O efeito prático foi uma disparada do índice, calculado agora em bases totalmente teóricas devido à ausência de deslocamentos físicos, carregando com ele inúmeros contratos onde a TD3 figurava como indexador. A lição do episódio é simples: em momentos de ruptura, a governança sobre convenções e parâmetros operacionais será decisiva para estabelecer alinhamento ou adversariedade entre participantes daquele mercado. Da moeda, trataremos em um instante.
No caso brasileiro, o ponto relevante é que o choque aparece, mesmo que por canais menos visíveis. A própria ANP, ao definir em 2026 a metodologia do preço de referência do diesel importado, partiu de benchmark externo e incorporou frete marítimo, demurrage, opcionalidade de descarga, AFRMM, seguro marítimo, armazenagem e frete terrestre, além de um spread de diesel entregue a partir da Costa do Golfo do México e demais origens.
É verdade que as operações brasileiras não mantêm relação direta com benchmarks da Baltic Exchange ou Golfo Pérsico, já que os principais benchmarks nacionais são estabelecidos pela Platts/S&P e dizem respeito a Golfo do México, Qingdao e Ningbo. Ainda assim, dada a forma com que os preços de referência são estabelecidos, o choque internacional elevou frete, seguro, prêmio de origem e custo financeiro em rotas relevantes para o Brasil, afetando a formação de preços domésticos.
Mas seria ingênuo imaginar que o Brasil poderia simplesmente se desconectar de práticas internacionais num mercado tão globalizado como o do petróleo. O que não é ingênuo, por outro lado, é acender um alerta sério e pragmático sobre o papel do dólar como reserva global. Nesse setor, a moeda ocupa posição ainda mais sensível do que benchmarks contratuais, sobretudo por conta do famoso petrodólar.
O dólar concentra liquidez, financiamento e previsibilidade operacional, mas também concentra, acima de tudo, jurisdição. A literatura recente do FMI sobre dominant currency pricing mostra que, quando as transações são faturadas em dólar, o preço de importação reage à taxa de câmbio mais do que à taxa bilateral entre exportador e importador. Em termos concretos, isso significa dizer que uma transação Brasil-China tende a responder primeiro à variação do dólar, para só então responder aos termos de troca estabelecidos pelas duas partes.
O caso russo oferece um primeiro alerta concreto. Em 2024, o Brasil importou da Rússia mais de US$ 10,9 bilhões, com forte peso de fertilizantes na pauta. Ainda em 2022, com a disparada de sanções por parte principalmente de Estados Unidos e União Europeia, o uso de moedas locais já crescia nas importações brasileiras vindas da Rússia, chegando a 9% das transações.
Embora relativamente tímido diante do saldo ainda liquidado em dólar, a medida representava uma mudança importante para assegurar o suprimento de insumos críticos num período de incerteza geopolítica. Embora transações em dólar definitivamente não tenham desaparecido, o custo regulatório aumentou, com análise de sanções, due diligence reforçada, bancos intermediários e custos adicionais.
Voltando ao Irã, o problema ganha novas proporções. O próprio OFAC, Office of Foreign Assets Control dos EUA, informa que transações envolvendo bancos iranianos precisam ser processadas por intermédio de terceiros países, porque bancos americanos não podem manter contas correspondentes para essas instituições. A moeda de liquidação deixa então de ser mero veículo de pagamento e passa a funcionar como filtro regulatório. Isso alcança o Brasil, que importa ureia iraniana, enquanto exporta soja e milho; de fato, o Irã foi o principal destino do milho brasileiro em 2025.
É nesse ponto que a China aparece como a grande exposição brasileira. Trata-se do principal parceiro comercial do país, representando nosso maior superávit comercial; no petróleo, quase metade da exportação do óleo bruto tem contraparte chinesa. Apesar disso, o dólar responde por mais de 99% dos quase US$ 95 bilhões exportados para a China, com operações em moeda local somando modestos US$ 41,9 milhões. Se a rivalidade entre Washington e Pequim vier a produzir restrições cambiais mais duras, o efeito sobre o Brasil poderia tomar proporções catastróficas. Seria necessário improvisar, sob pressão, uma alternativa que hoje ainda é embrionária.
Por isso, discutir liquidação em RMB, linhas de swap, uso de moedas locais no Brics e outras formas de diversificação monetária vai muito além de um exercício de retórica antiamericana. Trata-se, de fato, de política de resiliência. Em 2020, a Vale já havia liquidado operações com a China em yuan. Em 2025, o Banco Central e o People’s Bank of China renovaram uma linha de swap equivalente a R$ 157 bilhões. Embora esses movimentos estejam longe de substituir o dólar, eles começam a criar alternativas antes que a crise torne o custo de adaptação praticamente insuperável.
A ideia de resiliência defendida nos dois primeiros artigos também se aplica à dimensão cambial da economia. Cadeias de suprimento podem ser diversificadas; rotas podem ser redesenhadas; navios podem ser redirecionados. A operação financeira, porém, segue há décadas muito mais concentrada.
Numa economia dependente de energia, fertilizantes e da demanda chinesa, soberania não diz respeito apenas ao que se produz ou se refina, mas também à capacidade de comprar, vender e receber sem depender integralmente de um único centro decisório. Num cenário de sanções mais frequentes e de geopolítica errática, a moeda tornou-se parte da infraestrutura estratégica do comércio, carregando consigo jurisdição, compliance e política externa.