Uma fala do presidente Lula na semana passada disparou uma série de especulações sobre sua real disposição de concorrer a um quarto mandato, em meio a uma tempestade perfeita que envolve — entre outros fatores — as dificuldades de alavancar sua popularidade, o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a guerra no Irã e o escândalo do Banco Master. Há diferentes interpretações, mas fato é que Lula afirmou com todas as letras em entrevista ao site ICL que ainda não definiu se será candidato à reeleição.
É fato que algumas pessoas influentes no entorno de Lula já questionam a conveniência de ele concorrer sob o risco de encerrar sua biografia política com uma derrota nas urnas — e, ainda por cima, para Flávio Bolsonaro. Entretanto, dentro do governo, o cenário é o de Lula candidatíssimo. Mesmo nos bastidores, a maior parte das fontes sequer admite a possibilidade de uma desistência a essa altura do campeonato. Algumas até se irritam com o questionamento que se tornou mais frequente sobretudo após a declaração do presidente. De fato, um “plano B” ainda não é discutido a sério.
Mas vale lembrar que essa conversa não é recente. No ano passado, quando outra tempestade perfeita — a da fake news do Pix e da inflação de alimentos — fustigava a popularidade do presidente, já se ouvia entre petistas históricos afirmações como “é melhor perder a eleição de goleada do que Lula perder por pouco”. A idade do petista, que estará com 81 anos quando assumir um eventual quarto mandato, não é a questão, ao contrário do que insinuam algumas notas na imprensa.
É difícil dizer o que motivou a fala do presidente ao ICL. Para alguns, o que ele quis realmente dizer é que ainda não é candidato oficial. Mas outras pessoas, que frequentam o dia a dia do Palácio ou têm um certo grau de convivência com Lula, acreditam que a afirmação não foi feita por acaso. Aí, abrem-se outras três abas com “subinterpretações”: 1) Lula quis dar um chacoalhão no PT e na comunicação do governo, diante das dificuldades; 2) a fala representa uma estratégia deliberada para confundir, tanto o seu campo quanto o campo adversário; 3) ele realmente já não está tão certo sobre se vale a pena concorrer em outubro. A resposta correta está somente na cabeça do presidente.
Lula está contrariado com sua baixa popularidade a seis meses da eleição; o presidente esperava mais. E tem externado isso em reuniões internas, segundo relatos feitos ao JOTA. Pode-se falar em frustração neste momento, mas não em desânimo. Dentro do governo, sobretudo na Secom, ainda se acredita que é possível virar o jogo. Apesar disso, o número de integrantes do governo e do PT preocupados com a possibilidade real de derrota vem se avolumando.
Um fator que pesa muito é o desgaste da imagem do petista. Existe um diagnóstico no Planalto de que a popularidade de Lula não acompanha a aprovação de iniciativas do governo, como o “Pé de Meia”, a isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil e a política de valorização do salário mínimo. Também se identificou que o endividamento das famílias tem pulverizado a sensação de bem-estar que os dados macroeconômicos, como o aumento da renda e a queda da inflação, poderiam gerar.
A estratégia para a virada passa por uma “desmontagem” de Flávio Bolsonaro, tanto por seus muitos “telhados de vidro” como pela sua pouco testada capacidade de resistir aos embates previstos para a campanha. Também existe a aposta de que, no momento mais agudo da campanha, será possível impulsionar a imagem do presidente com a apresentação de programas aprovados pelo público e a comparação com o governo de Jair Bolsonaro, pai de seu principal rival. Por fim, há o entendimento de que a isenção do imposto de renda e o pacote para conter o endividamento terão efeito cumulativo que permitirá também melhorar a sensação de bem-estar geral — em uma conclusão que mistura análise e torcida.
Precedentes
No campo das hipóteses, uma das métricas mais utilizadas por operadores políticos para medir a viabilidade do incumbente antes do início da campanha é a avaliação líquida. Isto é, o saldo entre os índices de Ótimo/Bom e Ruim/Péssimo em pesquisas de opinião, como as do Datafolha, divulgadas no último fim de semana e que trouxeram um sinal de alerta para Lula.
A lógica é bastante simples: assim como no futebol, o que importa é o saldo. A série de dados que temos mostra que candidatos com avaliação líquida negativa tendem a enfrentar maiores dificuldades tanto para viabilizar a própria reeleição quanto para transferir capital político a um sucessor.
Os números mais negativos na avaliação do presidente em relação ao mês anterior ajudam a explicar o otimismo de quem vê Lula em dificuldade, mas a interpretação do movimento exige prudência. Ainda que o ambiente atual indique vantagem para uma candidatura desafiante – como ocorreu em 2022 – o teste decisivo ocorrerá apenas em 4 de outubro.
A comparação com o ciclo anterior é ilustrativa. No mesmo ponto do calendário, Jair Bolsonaro apresentava saldo negativo relevante, superior a 20 pontos. Hoje, Lula tem saldo negativo de 11 pontos. Com o avanço da campanha e o uso dos instrumentos de governo, Bolsonaro conseguiu reduzir essa diferença ao longo da disputa. Esse histórico indica que movimentos de recuperação junto ao eleitorado não apenas são possíveis, como fazem parte do padrão observado em disputas eleitorais, ainda que não sejam lineares nem garantidos.