O que faz um burocrata exercer sua função com maestria? Como professor de cursos na área de Ciências Sociais, muitos de meus ex-alunos viraram servidores públicos. Há quase uma década, depois de voltar da pós-graduação no exterior, lecionei para alunos de Administração Pública. Surpreendeu-me a falta de preparo deles para interpretar resultados de métodos estatísticos. Do mesmo modo, incomodava-me (e ainda me incomoda) a pressão existente em departamentos de Economia e Ciência Política de universidades do mundo anglo-saxão para quantificar todo e qualquer fenômeno social.
Sem entrar no necessário, embora infindável, debate sobre o que é ciência ou não, diria com base em minha experiência em sala de aula que a formação mais apropriada para um futuro servidor combina aquilo que há de mais avançado em técnicas estatísticas — hoje muitas vezes embutidas de modo um tanto quanto superficial em cursos que adotam o rótulo Ciência de Dados — com sólido conhecimento em métodos qualitativos, além de, claro, disciplinas de fundamentação sociohumanística, desde Introdução à Antropologia até Fundamentos de Economia.
O leitor mais atento já deve estar me criticando ao pensar que essa abordagem multidisciplinar não faz sentido e seria até mesmo impossível num mundo complexo, que prima pela especialização. No modelo universitário brasileiro, que conduz alunos a escolher uma profissão já no começo do ensino superior, ensinar várias abordagens sobre o mundo social seria ainda mais desafiador.
Uma maneira de equilibrar o jogo entre diversas abordagens teóricas e metodológicas na solução de problemas da sociedade seria formar equipes de burocratas compostas por profissionais de diversas áreas. Foi o caminho escolhido pelo Banco Mundial para fugir do viés econômico e econométrico das decisões que impactam o desenvolvimento de alguns dos locais mais pobres do mundo e que acabou por dominar a visão de mundo de organismos internacionais e burocracias mundo afora à medida que o neoliberalismo prevaleceu como paradigma de organização sociopolíticoeconômica a partir dos anos 1980.
Nem tudo é (ou deveria ser) somente uma questão de oferta e demanda — tampouco a escassez de recursos pode ser o fator dominante a orientar escolhas de vida e morte. Para além da suposta racionalidade fria dos números, é preciso ter em mente que a alocação de recursos é um processo político, com implicações éticas para além da eficiência.
Do que conheço da produção acadêmica de Marcio Pochmann, indicado pelo presidente Lula para presidir o IBGE, posso dizer que a heterodoxia econômica do agora professor aposentado da Unicamp está longe de exemplificar as qualidades acima listadas. Sua atuação assemelha-se muito mais àquela de um intelectual orgânico, um homem de partido.
Dito isso, o debate suscitado pela imposição do nome de Pochmann ao comando da burocracia responsável por formar dados — principal insumo à formulação de políticas públicas com base em evidências — é uma grande oportunidade para repensarmos quais burocratas queremos. Ironicamente, essa discussão não se aplica incialmente ao correligionário petista-lulista — uma indicação política, necessária e esperada numa democracia. Afinal, a legitimidade burocrática não é derivada apenas do conhecimento técnico e da ética dos servidores. Que bobagem achar que a política não importa! Nos meandros do discurso tecnicista travestido de ciência, residem as mais profundas tentações autoritárias.
O cerne da questão da relação Estado-sociedade no Brasil de hoje está no corpo burocrático, cuja qualificação é pilar da formação e consolidação da democracia. Imagine o que teria sido do Brasil sem os servidores do IBGE que bravamente conduziram a realização do último censo em meio a um governo negacionista. Conclusão similar aplica-se à gestão da pandemia de Covid-19 sob o bolsonarismo e a ação de resistência dos servidores do SUS, cuja descentralização demonstrou-se fundamental para que a tragédia brasileira não tivesse sido maior.
Porém, o fato de haver dificuldades em preencher vagas qualificadas no serviço público, tal como noticiado nesta segunda-feira (31) pela Folha, sugere que estamos num mar de burocracias limitadas dentre as quais poucas ilhas de excelência se sobressaem. Somente uma formação ampla desde a graduação pode fazer com que futuros burocratas sejam mais do que meros cabeças de planilha ou intelectuais que bem diagnosticam os problemas da sociedade, mas nada oferecem para resolvê-los senão a crítica pela crítica.