Lula e Flávio Bolsonaro começaram a campanha recorrendo a uma aposta parecida: em seus berços políticos, realizaram atos oficiais marcados pelo tom emocional e pela reafirmação de suas identidades políticas, Fabio MuraKawa e Juliana Castro relatam nas duas primeiras notas.
Antes de buscar votos novos, os dois decidiram acordar suas próprias torcidas.
Mas esses são apenas pontos de partida, MuraKawa e Castro prosseguem na análise. Lula terá de convencer quem não é petista de que sua longa trajetória não significa falta de futuro. Flávio terá de provar que consegue empolgar o bolsonarismo tanto quanto o pai, sem assustar o eleitor mais moderado de que precisará para destronar o rival.
No primeiro ato de campanha, os dois foram às origens para ganhar impulso. A eleição, porém, será decidida fora dessa zona de conforto.
Boa leitura e boa semana.
O PONTO CENTRAL
1. Ponto de partida, pt. 1
A reafirmação do mito de Lula foi o fio condutor do evento de largada de sua campanha à reeleição, ontem (16), em São Bernardo do Campo (SP), Fabio MuraKawa escreve no JOTA.
No estádio da Vila Euclides lotado, o presidente voltou ao lugar onde nasceu politicamente para recontar sua própria história, religar-se às origens e incendiar uma militância que terá papel central na campanha.
Foi um ato carregado de símbolos e emoção — e muito mais voltado para explicar quem Lula foi do que para apresentar quem pretende ser num quarto mandato.
🔭 Panorama: Apesar de praticamente todo o roteiro do discurso de Lula olhar pelo retrovisor, houve algumas pistas sobre o futuro.
Na segurança pública, ele voltou a defender a criação de um ministério específico, condicionada ao avanço da PEC da Segurança no Congresso.
Endureceu o discurso ao dizer que pretende prender “todo mundo que acha que manda na favela”, mas procurou diferenciar sua proposta da retórica tradicional de combate ao crime.
Para ele, “matar bandido na favela é fácil”; o desafio, disse, é chegar a quem tem dinheiro, poder e ligação com as organizações criminosas.
Na educação, prometeu ampliar o número de crianças em escolas de tempo integral, como já vinha sinalizando.
O tema de futuro que recebeu mais ênfase foi a exploração de minerais críticos e terras raras.
Lula disse que o Brasil deve explorar, processar e agregar valor a essas riquezas antes de exportá-las.
Procurou ainda dar ao assunto uma moldura de soberania, ao afirmar que o país não fez opção nem pela China nem pelos Estados Unidos.
“Ninguém vai explorar nossos minerais críticos. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro”, disse.
🔮 O que observar: A escolha de São Bernardo para a largada tinha lógica política, mas a Vila Euclides é ponto de partida, não linha de chegada.
A história pode reacender quem já acredita em Lula — mas a eleição será vencida também fora daquela arquibancada, entre eleitores que não têm a memória afetiva das greves do ABC Paulista e que avaliarão de maneira mais pragmática se Lula merece um quarto mandato.
Para conquistá-los, o presidente terá de transformar o passado que o trouxe até aqui em uma razão para acreditar que ele ainda representa a ideia de um futuro melhor.
UMA MENSAGEM DE EY
Setor automotivo será um dos mais afetados pela reforma
Crédito: Westend61/Getty Images
A reforma tributária sobre o consumo vai exigir ao setor automotivo uma revisão ampla de modelos operacionais, comerciais e tributários. Na prática, a arrecadação passará a ocorrer de forma distribuída ao longo da cadeia. Com isso, concessionárias/dealers tendem a assumir novas responsabilidades como contribuintes no novo sistema.
A reforma tributária ainda deverá afetar diretamente as políticas comerciais do setor como bonificações, incentivos comerciais e determinadas estruturas promocionais, que precisarão ser revisitadas, além de exigir investimentos relevantes em tecnologia, processos, controles e governança tributária.
O setor estará sujeito ao IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e ao Imposto Seletivo, cuja incidência considerará critérios como potência, eficiência energética, tecnologias embarcadas e reciclabilidade dos veículos.
2. Ponto de partida, pt. 2
Flávio Bolsonaro discursa em Copacabana, no primeiro ato oficial de sua campanha / Crédito: Vittor Sales
Flávio Bolsonaro começou a campanha em Copacabana, ao lado de conhecidos aliados e milhares de apoiadores, mas em um evento esvaziado em relação aos liderados pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Juliana Castro registra no JOTA.
Flávio, que estava vestindo um colete à prova de balas, lembrou o pai em diversos momentos.
Reafirmou em seu discurso a intenção de realizar um ajuste fiscal.
Sem citar diretamente o tarifaço, falou diversas vezes sobre soberania, especialmente na segurança, e repetiu a intenção de declarar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Na intenção de tentar melhorar entre o eleitorado feminino, usou um trecho do discurso para falar sobre propostas para as mulheres e afirmar que iria protegê-las.
Fernanda, mulher de Flávio, falou brevemente e seu discurso também foi voltado ao público feminino.
O candidato falou ainda em mudar o currículo escolar e criar o programa minha primeira empresa.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não compareceu ao ato, e seu nome sequer foi citado por aliados mais próximos do candidato.
3. Nova semana, velhos assuntos
Ministros do TSE chegam para sessão, com o presidente, Nunes Marques, à frente / Crédito: Antonio Augusto/TSE
Na primeira semana da campanha eleitoral, o TSE deve reafirmar a integridade da urna eletrônica a representantes estrangeiros e decidir regras que vão nortear a disputa de 2026, Flávia Maia registra no JOTA PRO Poder.
Nunes Marques se reúne hoje (17) com embaixadores para apresentar o funcionamento do sistema eletrônico de votação.
Entre os convidados estará a representação dos Estados Unidos.
A reunião ocorre após a embaixada americana procurar a área internacional do TSE para uma possível visita à Corte.
Amanhã (18), o ministro deve aproveitar a presença dos outros ministros do TSE em Brasília para organizar uma reunião sobre as limitações ao uso de deepfakes nas eleições deste ano.
A ideia é que o encontro ocorra às 18h, antes da sessão.
O veto total à produção de avatares sintéticos será discutido no contexto da ação movida pelo PT contra a campanha de Flávio Bolsonaro (PL).
Acredita-se que Nunes Marques tentará chegar a um consenso com o restante dos ministros antes de pautar o julgamento da ação do PT.
4. Me dê motivo
O ministro Alexandre de Moraes em sessão do Supremo na semana passada / Crédito: Rosinei Coutinho/STF
O mal-estar causado pela decisão do ministro Alexandre de Moraes ao quebrar o sigilo da fonte tem potencial para ir além de críticas domésticas.
Há a leitura de que ela pode acabar instrumentalizada por segmentos da direita internacional e usada como munição para movimentar as redes — numa tentativa de interferência eleitoral, Flávia Maia e Vivian Oswald escrevem no JOTA.
🔭 Panorama: Não é novo o temor dentro do governo de que as plataformas digitais possam originar perturbações no processo eleitoral.
O governo está convencido de que novas tentativas de interferência devem acontecer daqui até o fim do segundo turno, e é nesse contexto que a decisão de Moraes poderia ser usada.
Seguindo esse raciocínio, nada melhor do que temas que mobilizem a opinião pública: “O risco maior vem do subterrâneo, que é a capacidade que as plataformas têm de interferir na opinião das pessoas”, disse uma fonte ao JOTA.
A situação pode ter dado à direita brasileira e internacional o argumento de que precisava para trazer o Supremo de volta ao debate como um tribunal que fere a liberdade de expressão.
Ainda mais por se tratar de uma atuação de Alexandre de Moraes — ministro que virou alvo internacional por supostamente proferir decisões que restringem a liberdade de expressão.
Mas esse não é o único tema que pode municiar a mobilização nas redes.
A preocupação do governo é entender e buscar evitar aqueles que tenham capacidade de criar grandes marolas nas redes às vésperas da eleição.
5. República de Alagoas
A senadora Drª Eudócia cumprimenta o senador Laércio Oliveira durante sessão da CAE, presidida por Renan Calheiros, ao fundo / Crédito: Saulo Cruz/Agência Senado
O cenário político de Alagoas pautou os discursos dos senadores na Comissão de Assuntos Econômicos em 2026, Daniel Marques Vieira e Maria Eduarda Portela registram no JOTA PRO Poder.
O colegiado é presidido por Renan Calheiros (MDB-AL), pai do também senador e ex-governador Renan Filho (MDB-AL).
Juntos, eles travam um embate aguerrido com outros clãs do estado.
Do outro lado do ringue, figuram o deputado Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, e a senadora Drª Eudócia (PSDB-AL), mãe de João Henrique Caldas, o JHC, ex-prefeito de Maceió.
💥 Panorama: A escalada da tensão ocorreu com a criação do grupo de trabalho da CAE para investigar o Master.
Durante o ápice do caso, em sessões realizadas ao longo de maio, Calheiros passou a usar a comissão para mirar Lira e JHC.
O emedebista alegou diversas vezes que a Prefeitura de Maceió teria aportado R$ 117 milhões na instituição financeira de forma irregular.
“A gravidade é tão grande que, no Iprev Maceió, não houve sequer a decisão do conselho. As assinaturas arregimentadas foram fraudadas, e assinaram a autorização pessoas que não eram nem do conselho”, acusou o senador.
A ofensiva trouxe Dra. Eudócia ao confronto.
Ela é apenas suplente na comissão, mas passou a frequentar o colegiado para responder ao seu rival e conterrâneo.
Em nota ao JOTA, o Maceió Previdência alega que todos os investimentos realizados respeitaram os ritos legais e administrativos, sem comprovação de irregularidades.
Como contra-ataque, a senadora acusou Renan Calheiros de atuar como “advogado de Vorcaro” ao propor que o FGC arque com o rombo de instituições de previdência.
A proposta está no PL 2.502/26.
Em seguida, Eudócia estendeu as denúncias a Renan Filho.
“Eu nunca ensinei meu filho a roubar — e é isso que às vezes você coloca, porque você repete várias vezes em Maceió —, diferentemente do senhor, infelizmente”, disparou a parlamentar em junho.
A senadora afirmou haver um esquema de sonegação fiscal de quase R$ 1 bilhão em Alagoas durante a gestão de Renan Filho e de seu então secretário da Fazenda, George Santoro.
Segundo ela, decretos teriam permitido que navios carregados de combustíveis importados parassem em águas alagoanas sem fiscalização antes de seguirem para o Rio de Janeiro, manobra que teria beneficiado o empresário foragido Ricardo Magro, dono da Refit, em esquemas de lavagem de dinheiro.
O JOTA procurou o senador Renan Filho para comentar as acusações da senadora, no entanto, não obteve retorno.
⏩ Pela frente: A troca de acusações é um reflexo da corrida eleitoral pelo comando de Alagoas.
Renan Calheiros busca a reeleição ao Senado, enquanto Arthur Lira tenta se eleger à Casa Alta.
Enquanto isso, JHC aparece numericamente à frente de Renan Filho na disputa pelo governo, mas ainda não decidiu se irá disputar o Palácio República dos Palmares ou o Senado.
Apesar de ser uma das principais personagens, a senadora Drª Eudócia ainda não definiu se tentará a reeleição ao Senado.
AGENDA BSB
6. Pauta do STF e posse no STJ
Está na agenda de quarta (19) do Supremo o julgamento de ações que questionam a Lei Geral do Licenciamento Ambiental sob o argumento de que dispositivos da norma flexibilizam indevidamente o licenciamento ambiental. Também estará em votação a ação ajuizada pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) que pede a declaração de constitucionalidade integral da norma.
Também na quarta (19), os ministros vão decidir o formato e as regras para as eleições do mandato tampão ao governo do Rio de Janeiro. Está em discussão se a eleição será indireta, com votação feita na Assembleia Legislativa, ou direta, com voto popular. Caso a eleição seja indireta, também será analisado se o voto será secreto e qual o prazo de desincompatibilização.
A Corte Especial do STJ volta a julgar as condições para devolução em dobro de cobrança indevida feita ao consumidor. Os ministros julgam o caso sob o chamado rito dos repetitivos, que permite que o entendimento adotado seja aplicado pelas instâncias inferiores da Justiça. Dois votos foram apresentados até o momento. Ambos adotam a definição já pacificada no STJ, de que a devolução em dobro é cabível quando a cobrança indevida for “contrária à boa-fé objetiva”, ou seja, independentemente da demonstração de má-fé por parte do fornecedor.
Ainda na quarta-feira (19/8), os ministros Luis Felipe Salomão e Mauro Campbell Marques assumem como presidente e vice do STJ, às 18h. Salomão, atual vice, sucede o ministro Herman Benjamin para conduzir o tribunal e o Conselho da Justiça Federal (CJF) de 2026 a 2028. Salomão chega à presidência em um momento de mudanças estruturais no STJ, que busca enfrentar o elevado volume de processos e reduzir o acervo da Corte.
Entre as principais novidades está a implementação do filtro de relevância do recurso especial, criado para restringir a chegada de casos ao tribunal e concentrar sua atuação em questões relevantes. O mecanismo deve entrar em funcionamento ainda neste semestre.