Há uma mudança de tom e de ambição no discurso de Luiz Inácio Lula da Silva para a campanha do quarto mandato. Na convenção que oficializou sua candidatura neste domingo (2/8), o presidente dedicou menos tempo a defender o legado de seus governos e mais a desenhar aquilo que pretende fazer de diferente. Também focou no perfil de seu quarto mandato, caso seja reeleito em outubro.
A mensagem ressoa muito do que seu núcleo político vem ouvindo em pesquisas qualitativas e deve dar o tom da campanha: não basta administrar a herança construída desde 2003. É preciso inaugurar uma nova agenda para um país que envelheceu, vive uma disputa tecnológica global e passou a enxergar a soberania nacional também pela ótica da indústria, da inteligência artificial e da defesa.
O próprio Lula resumiu essa ideia em uma frase que sintetiza o espírito do discurso: “Eu não quero ser o presidente só do Bolsa Família”, disse. “Agora que as pessoas estão comendo, que as crianças estão na escola, é preciso dar um salto de qualidade.”
A política social que marcou sua trajetória continua sendo apresentada como uma marca das gestões petistas, mas deixou de ser suficiente como projeto de futuro. Ao anunciar que apresentará seu programa de governo no próximo dia 16, o presidente antecipou algumas das prioridades que pretende colocar no centro de um eventual Lula 4:
educação em tempo integral,
atenção aos idosos,
inteligência artificial,
minerais críticos
e fortalecimento da indústria de Defesa.
A educação apareceu como a principal delas. Lula voltou a repetir que “educação não é gasto, é investimento” e defendeu estabelecer a meta de resolver, em dez anos, o problema educacional brasileiro. A lógica apresentada é conhecida: gastar mais com escolas para gastar menos com presídios. Mas dá um sinal negativo para aqueles que esperam, por exemplo, um ajuste fiscal que passe pela desvinculação total dos gastos nessas áreas em relação ao crescimento da receita do governo.
Outro eixo novo foi o envelhecimento da população. Pela primeira vez em uma campanha presidencial, Lula tratou o acolhimento aos idosos como uma dívida do Estado brasileiro. Disse que pretende criar um programa para oferecer espaços de convivência, atividades culturais, esportivas e de lazer, argumentando que o país envelheceu e que muitas famílias já não conseguem cuidar de seus parentes mais velhos. É um tema pouco explorado historicamente pelo PT e que dialoga com a transformação demográfica do país nas últimas duas décadas.
O presidente também reforçou um discurso que vinha amadurecendo nas últimas semanas: o de que o Brasil precisa deixar de ser apenas exportador de matérias-primas e passar a dominar as tecnologias ligadas aos minerais críticos. Ele repetiu que americanos, chineses ou europeus não podem simplesmente “meter a mão” nas terras raras brasileiras e voltou a defender investimentos pesados em pesquisa, processamento industrial e inteligência artificial. A ideia de agregar valor às riquezas minerais do país já vinha sendo defendida por Lula em eventos sobre ciência e tecnologia, mas agora foi incorporada explicitamente ao discurso eleitoral.
Novidade política
Talvez a novidade política mais relevante tenha sido, porém, a mudança de postura institucional que Lula prometeu adotar. O presidente avisou que seu quarto mandato “vai mudar muita coisa” e acrescentou que “vai ter briga”. Citou nominalmente as emendas parlamentares e a preservação das prerrogativas constitucionais da Presidência, afirmando que não aceitará perder espaço na indicação de dirigentes de agências reguladoras nem de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O “Lulinha paz e amor”, afirmou, dará lugar ao “Lulinha porreta”.
Foi um recado direto ao Congresso, sinalizando que pretende abandonar a estratégia predominantemente conciliadora que marcou boa parte do atual governo. O discurso sugere um presidente disposto a confrontar o Legislativo quando considerar que competências do Executivo estejam sendo reduzidas. É uma inflexão importante para alguém que, desde a redemocratização, construiu boa parte de sua reputação política justamente na capacidade de negociar.
Esse tom mais assertivo apareceu também na área da Defesa. Em um momento em que o governo transformou a soberania nacional em uma das principais bandeiras políticas diante da escalada de tensões com os Estados Unidos, Lula surpreendeu ao pedir explicitamente que a esquerda abandone o preconceito histórico contra investimentos militares.
Ele argumentou que um país com o tamanho territorial, as fronteiras e as riquezas naturais do Brasil precisa desenvolver sua indústria de Defesa, produzir drones, investir em tecnologia e preparar-se para proteger sua soberania. Citou os investimentos bilionários feitos por países da Europa e pelo Japão no setor e afirmou que pretende levar o tema “muito a sério” em um eventual novo mandato.
Em contraste com essa agenda voltada para o futuro, Lula também procurou ancorar sua candidatura no legado de governo. Repetiu que quem está no poder não pode prometer o que não fez e afirmou que o governo tem “autoridade moral” para defender suas realizações em qualquer cidade do país. Fez elogios enfáticos a Geraldo Alckmin, classificando-o como o melhor ministro da Indústria e Comércio que o Brasil já teve e atribuindo ao vice duas qualidades que considera decisivas: competência e lealdade.
Ao final, o discurso revelou um Lula que tenta equilibrar duas narrativas. De um lado, a experiência acumulada de quem disputa a sétima eleição presidencial e pede ao eleitor que confie em seu histórico. De outro, o esforço para convencer o país de que ainda tem capacidade de oferecer algo novo.
Se, na eleição de 2022, o desafio era vender seu passado e colocar-se como um defensor da democracia, a convenção deste domingo mostrou um presidente empenhado em construir uma ideia de futuro para justificar um quarto mandato aos 80 anos.