O cuidado do outro e o cuidado de si: como apoiar no transtorno bipolar sem adoecer

O transtorno afetivo bipolar (TAB) é uma condição neurobiológica crônica que, segundo a Organização Mundial da Saúde, afeta cerca de 37 milhões de pessoas no mundo, ou 1 em cada 200. Longe de se reduzir a oscilações cotidianas de humor ou a falhas morais, o transtorno envolve episódios de mania, hipomania e depressão, além de estados mistos, que alteram energia, sono, concentração, pensamento, impulsividade e capacidade funcional. É um problema de saúde pública associado a sofrimento intenso, prejuízos funcionais, isolamento, estigma e maior risco de suicídio, o que exige acompanhamento especializado e continuidade do cuidado.

O impacto do TAB não se limita à pessoa diagnosticada: tensiona laços familiares, afetos, amizades, trabalho, finanças e rotinas. A rede de apoio próxima pode ser decisiva para reduzir o isolamento, identificar sinais de piora e favorecer o acesso ao tratamento profissional. Mas essa rede só ajuda de fato quando atua com informação, respeito à autonomia, definição de limites e articulação com a equipe terapêutica. Cuidar não autoriza substituir a vida do outro.

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Dr. Volnei Vinicius Ribeiro da Costa, psiquiatra e vice-presidente do Conselho Científico da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), explica que as pressões sobre quem convive com a pessoa com TAB precisam ser reconhecidas para que o cuidado seja responsável: “As maiores dificuldades enfrentadas pela rede de apoio decorrem principalmente da falta de informação de qualidade sobre o transtorno e do estigma associado. Sem acesso à educação em saúde e à psicoeducação, as famílias enfrentam barreiras para compreender o comportamento, identificar sinais de alerta e oferecer o suporte adequado. Além disso, o tratamento de saúde mental é deficitário na rede pública e na maioria das operadoras de saúde suplementar, e custa caro para as famílias”.

Esse cenário exige que a rede íntima reconheça a eutimia, período de estabilidade clínica, como janela para diálogo, escuta e construção de pactos preventivos. Discutir combinados durante uma crise amplia o estresse e reduz a capacidade de negociação. Na estabilidade, a pessoa com TAB e sua rede podem estruturar um plano de crise, com identificação de sinais de alerta, definição de quem acionar em emergências, organização de consultas, apoio à adesão terapêutica e eventual proteção temporária de decisões sensíveis, sobretudo financeiras, quando houver perda de autocrítica, isto é, comprometimento temporário do reconhecimento do próprio adoecimento.

Esse contrato de cuidado mútuo, recomendado por organizações internacionais como a britânica Mind e o NICE, deve incluir a identificação dos sinais iniciais ou pródromos, como alterações importantes no sono, isolamento abrupto, aceleração do discurso, irritabilidade desproporcional, gastos incomuns ou mudanças relevantes de comportamento. No Brasil, esses parâmetros se articulam ao Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do TAB do tipo I, instituído pela Portaria SAS/MS 315, de 30 de março de 2016, que define os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como serviços de referência e remete a medicação à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename). Os combinados preservam a autonomia da pessoa e estabelecem parâmetros para momentos em que a condição clínica imponha restrições temporárias a ela.

Para o psiquiatra, a estabilidade é o momento mais adequado para pactuar essas fronteiras com dignidade: “A estabilidade clínica é o melhor cenário para reconstruir os vínculos rompidos. É o momento de pactuar acordos respeitosos, sinais de alerta e escolher uma pessoa de confiança para as decisões difíceis. Devemos partir sempre da lógica do cuidado e da observação, e não da correção ou do controle que anule a autonomia do indivíduo.”

Como apoiar quando algo começa a sair do eixo

Quando os sinais de alerta se manifestam, a rede próxima deve passar do diálogo horizontal para a ação firme e protetiva. Identificar queda de energia e desinteresse severos, da fase depressiva, ou aumento de atividade, compras impulsivas e grandiosidade, da mania e da hipomania, permite o manejo precoce. O estado misto, de alto risco, exige atenção redobrada pela coexistência simultânea de sintomas de polos opostos, quadro associado a maior risco de suicídio.

O psiquiatra observa que ler essas transições é difícil e que respostas impulsivas da rede agravam o quadro: “Os sinais de piora envolvem mudanças abruptas no funcionamento, na energia e na qualidade dos pensamentos, com comportamentos pouco usuais. (…) A rede próxima geralmente erra quando tenta ajudar de forma imediatista, agindo movida pelo medo, pela exaustão ou pela urgência em conter o comportamento, o que pode aumentar a resistência e o conflito.”

A abordagem de quem está sob suspeita de descompensação não deve virar vigilância, desconfiança ou infantilização. Cobranças por reação rápida, tentativas de persuasão lógica durante a mania ou o uso do diagnóstico como argumento punitivo em conflitos domésticos deterioram o vínculo. A rede ajuda mais quando fala a partir de comportamentos específicos e observáveis, sem transformar toda emoção legítima em sinal de crise. O ponto de equilíbrio está em acolher sem ser conivente, respeitar a autonomia sem abandonar e agir com firmeza sem assumir controle excessivo sobre a vida da pessoa.

Quando o cuidador precisa demarcar limites para evitar o próprio adoecimento, o especialista sugere uma comunicação direta e firme: “limites nos ajudam a continuar cuidando, permitindo ao familiar dizer de forma amorosa e firme: ‘eu continuo aqui, mas também preciso cuidar da minha saúde’”.

Nas fases ativas, separar escuta empática de intervenção firme é mais difícil. Nos episódios depressivos, marcados por retraimento acentuado, a rede pode oferecer presença discreta e persistente, com mensagens que não exijam respostas elaboradas e respeitem o tempo de recuperação. Nas fases de aceleração, em que a pessoa pode tomar decisões financeiras arriscadas ou se tornar hostil, os pactos da estabilidade podem autorizar medidas previamente consentidas, como restrições temporárias ao uso de cartões de crédito.

Há situações em que o acolhimento se torna insuficiente. Diante de perda evidente de contato com a realidade, delírios, desorganização comportamental severa, comportamentos autoagressivos ou ideação suicida manifesta, a rede deve agir com firmeza e buscar apoio profissional imediato. O acolhimento não substitui o tratamento clínico. Em emergências e crises agudas, a orientação segura é acionar a equipe médica responsável ou recorrer aos serviços de urgência, como pronto-socorro psiquiátrico, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) ou o CAPS territorial, conforme a disponibilidade local e a gravidade.

Depois da crise, quem cuida também precisa continuar

A superação da fase aguda inaugura o pós-crise, marcado por culpa, vergonha e isolamento quando a pessoa recupera a consciência dos atos praticados, momento de vulnerabilidade potencializado por déficits de atenção e memória que podem persistir na estabilidade. A rede deve evitar dois erros simétricos: reduzir a pessoa ao episódio ou fingir que nada aconteceu, apagando a dor e os danos reais na dinâmica familiar.

O Dr. Volnei pondera o equilíbrio entre empatia, responsabilidade e limites no retorno à estabilidade: “O transtorno bipolar não elimina responsabilidade, mas também não autoriza leitura moral simplista do comportamento durante uma descompensação. Depois de uma crise, a pior coisa que a rede pode fazer é esconder o episódio ou agir como se nada tivesse acontecido, porque isso não apaga o sofrimento nem os impactos reais na dinâmica familiar. É preciso responsabilidade e reparação, com reconstrução gradual de confiança, respeitando os limites de cada um sem infantilizar a pessoa”.

Nesta fase de retorno à rotina, a adesão ao tratamento deve ser repensada. A resistência ao tratamento medicamentoso raramente advém de mera teimosia; ela se vincula ao estigma, à vergonha ou aos efeitos adversos dos fármacos. Ajustes de dose, troca ou suspensão de medicamentos são decisões clínicas, que cabem ao médico responsável, e não à rede de apoio.

O monitoramento invasivo e a desconfiança geram reações defensivas. O psiquiatra aponta que a cooperação ativa do paciente melhora a adesão ao projeto terapêutico: “A adesão ao tratamento tende a melhorar não quando a rede de apoio vigia obsessivamente a medicação ou pune o comportamento, mas quando a pessoa sente que o tratamento não está sendo imposto contra ela, e sim construído de forma compartilhada, ajudando a diminuir a vergonha, o isolamento social e a ambivalência que cercam a rotina de cuidados”.

Esse esforço longitudinal cobra um preço elevado da saúde mental dos cuidadores. Revisão sistemática de Karambelas e colaboradores (2022), com 28 estudos e mais de seis mil cuidadores, indica que a sobrecarga e os efeitos sobre ansiedade, depressão e estresse de quem cuida de pessoas com transtorno bipolar são comparáveis aos do cuidado a pessoas com esquizofrenia, e que os sintomas ativos e as dificuldades funcionais pesam mais sobre a rede do que o diagnóstico em si.

O Dr. Volnei alerta que o autocuidado de quem apoia sustenta o próprio amparo: “Um dos principais sinais de sobrecarga é quando o cuidador deixa de cuidar da própria vida e passa a funcionar em estado permanente de alerta. O tratamento precisa ser compartilhado entre paciente, equipe de saúde e rede de apoio, pois o cuidador não pode ocupar sozinho todos esses papéis. Estabelecer limites não é abandono nem desistência, mas proteção contra a exaustão, o ressentimento e o colapso emocional de quem cuida. O descanso, o lazer, o trabalho e a terapia individual do cuidador são vitais para preservar a empatia”.

As organizações de pacientes têm papel central ao estruturar redes de psicoeducação e apoio mútuo, preenchendo lacunas da assistência em saúde mental. Os grupos presenciais e online da Abrata constroem um espaço coletivo de acolhimento que rompe a solidão e o estigma familiar e aproxima o cuidado individual da mobilização comunitária. O psiquiatra conclui que o amparo coletivo assegura a dignidade no percurso de tratamento: “Ninguém precisa enfrentar o transtorno bipolar sozinho. Informação, acolhimento, psicoeducação e apoio entre pares fazem parte do tratamento”.

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Pessoas com TAB precisam de tratamento baseado em evidências, acompanhamento profissional e continuidade do cuidado. Também dependem de vínculos informados, de ambientes menos estigmatizantes e de redes capazes de acolher sem controlar, compreender sem infantilizar e estabelecer limites sem abandonar. Garantir essas condições não é tarefa apenas das famílias: depende de uma rede pública de saúde mental com capacidade instalada, fluxos de referência e psicoeducação acessível, sob pena de transferir ao cuidado informal uma sobrecarga que o sistema deveria dividir.

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Agradecimento especial à Dra. Isabela Noivo, médica psiquiatra, pelas valiosas contribuições na revisão deste artigo, bem como por compartilhar sua experiência profissional e pessoal no cuidado e na vivência do transtorno afetivo bipolar, e a Wagner Silveira, farmacêutico, por sua contribuição ao compartilhar sua experiência como cuidador de um familiar diagnosticado com transtorno afetivo bipolar.

KARAMBELAS, George J. et al. A systematic review comparing caregiver burden and psychological functioning in caregivers of individuals with schizophrenia spectrum disorders and bipolar disorders. BMC Psychiatry, London, v. 22, p. 422, 2022.

MIND. Supporting someone with bipolar disorder. London: Mind, [s.d.].

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Bipolar disorder: assessment and management: information for the public. London: NICE, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

RABELO, Juliana Lemos et al. Psychoeducation in bipolar disorder: a systematic review. World Journal of Psychiatry, Pleasanton, v. 11, n. 12, p. 1407-1424, 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Bipolar disorder. Geneva: World Health Organization, 2025.

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