Renan Santos faz show de indie rock com Mamãe Falei e enfrenta cancelamento: ‘sabotagem’

“Limão Rosa, Renan Santos, futuro presidente do Brasil”. É a legenda escolhida para acompanhar a imagem do novo status de WhatsApp de um senhor, cabelos acinzentados e jaqueta de couro, que assiste ao show de lançamento do álbum Chão Pintado de Rubi, da banda formada por membros do partido Missão – a legenda eleitoral que se originou do grupo de direita Movimento Brasil Livre (MBL).

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Renan Santos, presidenciável pelo Missão, é o compositor, vocalista, guitarrista e gaitista do grupo. Ele tem angariado cerca de 3% dos votos nas pesquisas eleitorais – na última Genial/Quaest, ficou empatado tecnicamente em 3º lugar com Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

Na bateria da Limão Rosa, Arthur do Val, o ex-deputado estadual conhecido como Mamãe Falei, que teve o mandato cassado pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) por ter dito frases sexistas e misóginas sobre refugiadas ucranianas. O irmão de do Val, Gustavo Moledo, toca o baixo.

Na plateia de um inferninho na Vila Madalena, bairro agitado na capital paulista, moletons do partido Missão se misturam com camisetas de bandas como Gorillaz – grupo expoente da cena alternativa dos anos 2000.

Mas a confusão não é apenas estética. O mesmo coro que canta um dos refrões mais conhecidos da Limão Rosa ecoa também gritos políticos exaltando os ídolos. “Meu deputado, quase prefeito, Arthur mostra seu peito” diz um desses bordões, direcionado ao ex-deputado, no intervalo entre uma música e outra.

O álbum, Chão Pintado de Rubi, foi lançado um mês antes da convenção online que oficializa, nesta segunda-feira (20/7), a candidatura de Renan Santos à presidência. O político diz que a proximidade das datas não se trata de uma estratégia eleitoral, e que música e política seguirão como coisas separadas. Ao ser questionado sobre como concilia a dedicação à banda com a campanha eleitoral, porém, sua resposta é que “uma ajuda a outra”.

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“Tem um elemento de a gente ajudar a educar a sensibilidade do nosso público. Eu acho que o movimento de direita não é muito voltado a perspectivas estéticas fora da caixa”, fala. Para Renan Santos, o Spotify (onde tem mais de 38 mil ouvintes mensais) também ajuda a fazer o som chegar a outros espaços. “Na plataforma, a gente caiu numa bolha de rock indie que não tem nada a ver com o MBL”, afirma.

Limão Rosa é uma espécie de garage band. A gramática indie – com riffs distorcidos e vocais que emulam a língua inglesa – é usada para contar histórias sobre dilemas pessoais, autoridades e mulheres, várias mulheres. “Pra um movimento machista, até que estamos bem, as mulheres são bem protagonistas na nossa música”, diz Renan Santos, com ironia.

O show na capital paulista aconteceu no dia 10 de julho no Bar Alto. Os ingressos custaram entre R$ 30 e R$ 100, e a assessoria do candidato diz que todo o lucro será revertido para a própria banda. Também afirma que nenhum dinheiro da campanha foi usado para o aluguel do espaço.

Na última semana, a casa de shows Audio Rebel, no Rio de Janeiro, cancelou a apresentação da banda prevista para a última sexta-feira (17/7). Em comunicado, informou que o cancelamento ocorreu porque o espaço não deseja “correr o risco de associar sua marca a um provável candidato à presidência da República, ainda mais quando esse candidato representa um campo político incompatível com os princípios e valores que a casa defende desde sua fundação”. No Instagram da Limão Rosa, Renan chamou o cancelamento de “sabotagem”.

O MBL foi um dos grupos políticos que promoveram inúmeras manifestações contra a ex-presidente Dilma Rousseff, além de ter protocolado um pedido de impeachment contra ela. Apesar de o descontentamento com o Partido dos Trabalhadores (PT) ter sido combustível para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, a relação do MBL com o bolsonarismo, que já foi próxima em alguns momentos (o grupo apoiou o candidato no segundo turno das eleições daquele ano), hoje é de inimizade.

Ao comentar a participação de seu vice, o ex-militar Aroldo Medina, em atos antidemocráticos, ele diz que Medina “chegou em algum momento a ficar indo naqueles acampamentos, só que, se for pegar os vídeos dele da época, ele vai tendo a percepção de ‘pera, isso aqui está errado’”.

O discurso é de que a geração de Medina foi “abusada intelectualmente” pelo bolsonarismo e que, hoje, o MBL está numa posição melhor dentro da direita. “O futuro deles [dos bolsonaristas] é completamente incerto, e o nosso futuro é certo. A gente tem um partido político que é nosso, nós temos as nossas lideranças, o nosso discurso, o nosso eleitorado. E eles estão se matando entre eles. Eles não têm nada. Eles têm o Valdemar que foi pego agora com R$ 119 milhões em emenda roubada”, falou, em referência à operação da Polícia Federal (PF) que bloqueou bens de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, por uso irregular de emendas parlamentares.

Renan Santos não é o primeiro político da direita a se arriscar nos palcos. Javier Milei, presidente argentino, também tem uma “banda presidencial”, que se apresenta em eventos como lançamentos de livro e coleciona singles exaltando o sistema capitalista. O pré-candidato pelo Missão nega que o argentino seja uma inspiração também na música. “O Milei é um presidente inovador, mas a música dele é cafona”.

Marc Bolan, The Strokes, Bob Dylan – estas, sim, seriam suas referências musicais. “É o meu ídolo”, diz Renan Santos em relação a Dylan, um dos compositores e gaitistas mais famosos do mundo. Mais uma imagem friccionada pela contradição histórico-política. Ainda que Dylan, já mais velho, tenha flertado com movimentos religiosos que andavam de mãos dadas com o conservadorismo, ele se tornou conhecido por ser um símbolo da contracultura e do movimento hippie.

Ao passear por ambiguidades – e buscar angariar apoio dos mais novos sob uma imagem “jovial” –, Renan Santos, de 42 anos, quer ultrapassar nomes da velha política, como Zema e Caiado, e se consolidar como a verdadeira “terceira via” na disputa polarizada entre os dois principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na hora de lançar mão dos recursos, nem o indie rock ficou de fora.

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