A era da sustentabilidade, tão simbiótica ao ESG (boas práticas ambientais sociais e de governança), deu uma guinada recente, afastando-se de uma versão mais “soft”, que vinha sendo lastreada pela adesão de empresas, e ganhou uma versão “hard”, com novos pilares de defesa e segurança, segundo John Elkington, consultor britânico e considerado uma referência em responsabilidade e sustentabilidade corporativa.
Para Elkington, a transição energética sofreu um colapso diante do que ele chamou de a “Terceira Guerra do Golfo”, que desencadeou, em sua opinião, um golpe na sustentabilidade soft, gerando a necessidade de criar novos equilíbrios, uma vez que o torniquete da falta de petróleo, gás e fertilizantes, principalmente para a Ásia, alterou a forma como a agenda da sustentabilidade era formatada.
Segundo ele, a transição energética tornou-se o centro vital da sustentabilidade, quando estava acordado que o mundo deveria sair da era dos combustíveis fósseis para ingressar na era descarbonizada em um ritmo que fosse razoável para todas as economias. Ao expor a dependência mundial aos hidrocarbonetos, Elkington diz que as energias renováveis, armazenamento, eletrificação e nitrogênio alternativo deixaram de pertencer à esfera climática e ingressaram como elementos de infraestrutura de segurança nacional.
A sustentabilidade ganhou um status de “soberania energética”, deixando de ser soft para se tornar hard, ao adquirir perspectiva política: “A sustentabilidade soft pressupunha que os materiais da transição fluiriam por mercados liberalizados, com as classificações ESG atenuando as imperfeições”.
Essa lógica já não se mantém, devendo incluir as emissões de cunho militar que sempre estiveram fora da conta do carbono porque, para Elkington, quem precifica a sustentabilidade atualmente não são mais as COPs (Cúpulas do Clima), mas as companhias de seguro diante dos impactos bélicos no Oriente Médio sobre as cadeias de suprimentos globais.
Nesse possível novo trajeto, caminhamos para a consolidação da tendência do ESG 2.0, considerado fundamental para a evolução e a maturação das práticas ambientais, sociais e de governança, respondendo por credenciais de sustentabilidade mais densas e verificáveis. O ESG 1.0 foi formatado pela busca da conformidade dos relatórios de sustentabilidade e KPIs (indicador-chave de desempenho).
O conceito ESG 2.0 vai mais à frente: “Uma característica definidora do ESG 2.0 é a integração das considerações ESG na estratégia central de negócios. As empresas estão indo além de iniciativas isoladas, como a redução da pegada de carbono (CO2) ou a promoção da contratação de pessoas de diferentes origens, e caminhando para o estabelecimento de estruturas sistêmicas que vinculam as metas de sustentabilidade ao desempenho financeiro, à gestão de riscos e à responsabilidade social”.
Cinco características principais estão presente no ESG 2.0: a sustentabilidade passa a ser uma proposta de valor a longo prazo; metas ESG dialogam com todos os departamentos; os dados são apurados e monitorados em tempo real e, por fim, a importância da dupla materialidade, mensurando os impactos das empresas sobre o meio ambiente, a sociedade e desempenho financeiro, conseguindo visualizar seus risos e oportunidades potenciais diante da sustentabilidade.
Dentro do modelo ESG 2.0, o eixo central da governança está migrando dos mecanismos de responsabilização para políticas proativas e eficiência para impulsionar práticas sustentáveis, podendo dar respostas a pressões externas, acatando a participação de stakeholders (partes interessadas) e reconhecimento de que os interesses negociais impactam o planeta.
Contudo, embora o ESG 2.0 seja um modelo dinâmico que permite aumentar a resiliência ambiental e social das empresas com práticas ESG, só agora tem sofrido os efeitos dos conflitos do Oriente Médio e as vulnerabilidades energéticas mundiais que este evento criou, impondo que as companhias naveguem em ambientes regulatórios e litigiosos mais instáveis.
Um dado da instabilidade aleatória na esfera ESG está presente na redução do volume de investimentos, com saídas líquidas de US$ 55 bilhões de fundos globais sustentáveis, no terceiro trimestre de 2025, por exemplo.
Até onde a resiliência do ESG fará frente às novas necessidades geopolíticas para impulsionar a sustentabilidade em ritmo acelerado? Algumas falhas rumo à sustentabilidade vêm se tornando cada vez mais visíveis, como falta de transparência de dados, emprego do greenwashing, adiamento de uma regulação mais robusta e padronizada, além da ausência de conformidade nos pilares ambientais, sociais e de governança.
Para Elkington, os riscos sustentáveis ganharam uma nova dimensão e uma versão hard precisa ser pensada para encaixar com o novo fluxo comercial, a adaptação climática e uma economia cada vez mais verde. No entender do consultor, a sustentabilidade voluntária, portanto soft, não terá mais lugar diante da pressão geopolítica da sobrevivência, que depende da sustentabilidade de longo prazo. Ele prenuncia, inclusive, que as classificações ESG darão lugar ao litígio climático contra Estados e empresas.
Nesse contexto é possível fazer uma analogia entre o conceito de sustentabilidade “hard” – elaborado por Elkington – e o conto enigmático do escritor argentino Jorge Luiz Borges, “O Aleph” (princípio de tudo).[1]
A trama parte da morte de uma pessoa amada (Beatriz), levando o escritor a fazer todo ano uma visita de cortesia ao pai e ao primo-irmão (Carlos) dela, em seu aniversário de nascimento, o que acaba se tornando um hábito ao longo dos anos. Igualmente, a sustentabilidade nem sempre é um motor de transformação dentro das companhias e, em muitas companhias, corre o risco de virar um “hábito institucionalizado”, incorporada de forma automática ao dia a dia corporativo e ao ESG.
No conto, as visitas contínuas e rotineiras sofrem uma ruptura, quando a velha casa está para ser demolida e um fato inusitado vem à tona: o primo-irmão revela que no porão da sala de jantar há um Aleph, que ele divisou ainda criança.
Antes da descoberta, Borges estava receoso por ter aceitado o convite para visitar o porão, um ambiente constrangedor, escuro, além de ter de cumprir muitas exigências. Porém, na escuridão, se maravilha quando abre os olhos e se depara com o Aleph. Segundo ele, era impossível transmitir pela linguagem o infinito que representava.
A sustentabilidade – enquanto valor essencial para a sobrevivência planetária – pode ser comparada à visão do Aleph. Borges afirma que “o diâmetro o Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico ali estava, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a vi claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um roto labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu (…) vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra…”
Mesmo diante da força que a sustentabilidade (hard) ganhou após os conflitos no Oriente Médio e seus possíveis desdobramentos globais, não é possível afirmar que sua adoção será obrigatória e urgente, a partir da perspectiva da segurança energética.
No entanto, assim como no “Aleph” de Borges — onde apenas quem “viu” pode compreender a totalidade contida naquele elemento mítico –, aqui também é preciso ter experimentado a verdadeira amplitude e urgência do conceito da sustentabilidade, na prática, para entender o impacto que ele projeta sobre o futuro dos Estados e das empresas, elencando justificativas para ser implementado de forma mandatória – e não voluntária –, indo do macro ao microcosmo.
[1] BORGES, Jorge Luis.O Aleph. Rio de Janeiro: Editora Globo,1973,p.132-133