A rejeição da segunda proposta de delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro não tirou o caso Master do centro da política. Mesmo sem o ex-dono do banco abrir o jogo, a investigação continuou a atingir governo, Congresso e a afetar as estruturas do Supremo Tribunal Federal (STF), numa sequência de desdobramentos que parece não ter fim.
Nesta semana, foram quatro alvos: o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI); o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP); o presidente da Câmara, Hugo Motta; e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
Primeiro, reportagem da Veja afirmou que Alcolumbre recebeu um repasse de US$ 30 milhões por meio de uma conta no exterior. Na sequência, foi revelado que Nogueira e Motta tiveram diárias de hospedagem pagas pelo ex-banqueiro durante viagem a Lisboa, em Portugal. Alcolumbre negou o repasse. Motta confirmou a hospedagem paga pelo ex-banqueiro.
Em diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF), os detalhes aparecem:
1. “Só não pode deixar a turma pagar”, diz Vorcaro ao reservar restaurante e balada para Ciro
O caso também teve desdobramentos no STF. Em sessão da 2ª Turma que manteve, por maioria de votos, as prisões de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, e de Felipe Cançado Vorcaro, primo do ex-banqueiro apontado como operador financeiro do esquema envolvendo o Banco Master, o ministro Gilmar Mendes disse ver na investigação uma “desconfortante semelhança” e “tristes reminiscências dos métodos e expedientes” da Lava Jato. O relator, André Mendonça, reagiu à insinuação.
2. STF confirma prisões de pai e primo de Vorcaro após embate entre Gilmar e Mendonça
Mas não parou aí. No dia seguinte:
3. PF diz que Jaques Wagner atuou em favor do Master em troca de imóveis e viagens
A operação foi avaliada como muito ruim dentro do Palácio do Planalto. Aliados do presidente Lula esperam que Wagner deixe a liderança do governo no Senado, mas Lula não deve tirá-lo do posto, segundo o analista de política do JOTA Fabio MuraKawa.
4. Planalto espera que Jaques Wagner renuncie à liderança do governo após operação da PF
“Jaques é um aliado muito próximo e amigo pessoal do presidente Lula. Por isso mesmo, a postura não será a de abandoná-lo completamente. Mas tampouco existe a disposição, em ano de campanha eleitoral, de deixar o presidente ‘morrer abraçado com ele’”, escreveu MuraKawa.
Desarmando a bomba
Na sexta-feira (19/6), em entrevista exclusiva ao JOTA, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que articula com o STF ajustes no texto da proposta de súmula para disciplinar a tramitação de temas fiscais no Congresso. O objetivo é conter “pautas-bomba” que comprometam a sustentabilidade das contas públicas.
A proposta foi apresentada pelo ministro Gilmar Mendes e encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin. A ideia é estabelecer parâmetros para a tramitação de projetos com impacto fiscal, num momento em que o governo tenta evitar novas derrotas no Congresso com efeito direto sobre as contas públicas.
O ministro também falou que:
5. Fazenda avalia elevar limite do MEI para R$ 130 mil e descarta ampliar Simples Nacional
Assista à íntegra
Condenado e inelegível
Também nesta semana:
6. Eduardo Bolsonaro é condenado pelo STF por coação em julgamento da tentativa de golpe
O cumprimento da pena será feito inicialmente em regime semiaberto. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) também está inelegível e perde o cargo público de escrivão da PF. Ainda cabem recursos da decisão.
Ainda sobre a família Bolsonaro, no mesmo dia do julgamento, na terça-feira (16/6), o ministro Alexandre de Moraes ordenou que a defesa do ex-presidente explicasse, em 24 horas, por que ele mantinha uma arma de fogo em casa. A defesa respondeu que a arma apreendida era legal e que seguranças a deixaram inoperante.
O ex-presidente, porém, também recebeu uma sinalização positiva da Procuradoria-Geral da República (PGR):
7. PGR se manifesta contra suspensão da Lei da Dosimetria e sinaliza validade da norma
Isso porque, se for considerada válida, a norma pode fundamentar uma redução na pena de Bolsonaro. Na prática, a legislação altera o cálculo das penas quando mais de um crime contra o Estado Democrático de Direito é cometido no mesmo contexto, como nos atos de 8 de janeiro. Nesses casos, em vez de somar as penas de todos os crimes, o juiz deve aplicar a punição do delito mais grave. Com isso, a expectativa é que a pena do ex-presidente seja reduzida entre 2 anos e 5 meses a 3 anos.
‘Decisão histórica’
Na quarta-feira (17/6), o STF aprovou uma nova tese sobre a responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos postados por usuários. O texto é uma resposta aos recursos apresentados por big techs e entidades civis, que questionavam itens estabelecidos em junho do ano passado. O consenso foi firmado durante um almoço entre os ministros promovido por Fachin. Para ele:
8. Decisão do STF sobre Marco Civil da Internet é uma das mais importantes da década, diz Fachin
Além disso, Fachin alertou para problemas causados por algoritmos. Segundo o ministro, as inovações tecnológicas da sociedade digital produziram a “vulnerabilidade algorítmica”, que exclui e segrega pessoas a partir de critérios geralmente opacos e de difícil contestação.
O direito, afirmou Fachin, não deve combater a inovação, mas “orientá-la” para que a tecnologia “permaneça subordinada aos valores humanos”.
Após 14 meses…
O ministro Gilmar Mendes retirou a suspensão dos processos que discutem a pejotização de trabalhadores e a contratação de autônomos por empresas. Flávia Maia e Lucas Mendes escrevem no JOTA.
9. Pejotização: Gilmar Mendes libera processos em instâncias inferiores
As ações estavam paradas desde abril de 2025, à espera de uma decisão definitiva do STF sobre o tema. Mais de um ano depois, esse julgamento ainda não saiu.
Com a nova decisão, os processos voltam a andar na 1ª instância e nos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs). A trava, porém, não desapareceu por completo: assim que houver julgamento no TRT, o caso volta a ficar suspenso.
O motivo apontado por Gilmar foi o “significativo represamento” das ações. Na prática, a suspensão em massa passou a atrasar não apenas processos sobre pejotização, mas também casos trabalhistas sobre outros temas.