A Eletronuclear anunciou na última sexta-feira (1/5) a troca no comando da companhia, com a nomeação de Raphael Ehlers dos Santos como presidente interino. Além da presidência, Santos acumula a Diretoria Técnica, mantendo a estrutura operacional sob sua supervisão direta.
Nos bastidores, a avaliação é de que o redesenho do controle da empresa demorou para sair do papel. Desde a entrada de Alexandre Caporal, em novembro do ano passado, agentes políticos e servidores da estatal pressionavam por sua saída. Ainda não há previsão de quando será escolhido um presidente efetivo.
Caporal era visto como um nome da Axia e recebia críticas de sindicatos pela situação financeira da empresa. Simultaneamente, o PDT cobrava um acordo feito com o governo no início do ano passado para que tivessem o comando da geradora nuclear. De acordo com fontes, o nome de Santos foi visto como uma saída para a situação, já que tem aval da legenda e também do Ministério de Minas e Energia.
A mudança ocorre em um momento considerado sensível para a companhia, que enfrenta desafios estruturais ligados à sua sustentabilidade econômico-financeira e à continuidade de projetos estratégicos. A Eletronuclear é responsável pela operação das usinas de Angra 1 e Angra 2 e pela condução do projeto de Angra 3.
O agora presidente é servidor público federal vinculado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). Nos últimos anos, integrou o Ministério de Minas e Energia (MME) sob a gestão de Alexandre Silveira, bem como o Ministério de Infraestrutura (MInfra) durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A alteração no comando da empresa também incluiu a nomeação de Gustavo Loureiro Chagas para a Diretoria Financeira – antigo cargo de Caporal e a quem ainda é atribuída uma indicação direta de empresas privadas. Chagas é economista, com experiência em empresas de transmissão e no grupo da antiga Eletrobras.
Com nova direção, Eletronuclear mira ajuste regulatório e avanço de Angra 3
O JOTA apurou que a nova gestão assume com uma proposta de resgatar a companhia estruturada em três frentes principais: aprimoramento regulatório, ganho de eficiência operacional e avanço de projetos de expansão. A estratégia está inserida em um projeto mais amplo de sustentabilidade empresarial, ainda em fase de consolidação, voltado ao reequilíbrio econômico-financeiro da empresa.
O primeiro eixo concentra esforços na interlocução com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com o objetivo de ajustar parâmetros regulatórios à realidade das usinas nucleares. Entre os pontos que devem ser avaliados estão o reconhecimento adequado de custos operacionais (PMSO), a revisão do custo de capital (WACC) e possíveis mudanças no modelo de comercialização de energia.
São ajustes considerados essenciais diante das especificidades da geração nuclear, que envolve altos requisitos de segurança, complexidade tecnológica e crescente impacto de fatores externos, como restrições globais na cadeia de suprimentos.
O segundo pilar do plano prevê medidas internas voltadas à eficiência operacional. Isso inclui revisão de contratos, racionalização de custos, melhoria de processos e fortalecimento da disciplina financeira. A intenção é ampliar a previsibilidade da gestão e consolidar ganhos estruturais que sustentem o equilíbrio econômico da empresa no médio e longo prazo.
Já o terceiro ponto está relacionado à expansão e ao avanço de projetos estratégicos, com destaque para suporte técnico às instâncias decisórias acerca de Angra 3. A retomada do empreendimento, porém, depende de decisões que envolvem outros atores, como o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e os acionistas da companhia.