Por décadas, as elevadas taxas de juros ao consumidor e a extrema facilidade de acesso ao volume de crédito foram consensualmente considerados os grandes vilões responsáveis por sufocar o orçamento das famílias. No entanto, um novo fator silencioso, altamente sedutor e amplamente divulgado tem acelerado o endividamento de uma forma inegavelmente mais agressiva: as apostas esportivas, popularmente conhecidas como bets.
Um estudo desenhado para isolar o efeito específico destas apostas sobre a aceleração do endividamento revelou uma realidade econômica francamente assustadora. O impacto residual das bets na frágil economia das famílias é, na verdade, quase o dobro da soma dos impactos provocados pelos juros e pela oferta de crédito em conjunto.
Recorrendo a modelos de séries temporais (análise de intervenção), o referido estudo capturou o efeito da quebra estrutural provocado pela legalização e a disseminação em massa das apostas a partir de janeiro de 2019. Ao contrário do que argumentam os defensores da indústria de jogo, o modelo estatístico utilizado evidencia a causalidade de forma incontestável após controlar as variações da taxa de juros e da oferta de crédito.
Os números revelam uma situação preocupante. Enquanto as taxas de juro apresentam um coeficiente de impacto na ordem dos 0,0709 e o volume de crédito regista apenas 0,0440, as plataformas de apostas emergem de forma avassaladora como o fator dominante e inequívoco, ostentando um coeficiente esmagador de 0,2255. Naturalmente, os juros e o crédito continuam a explicar de forma significativa o motivo pelo qual as famílias acumulam dívidas. Contudo, os dados mostram que as apostas têm um peso significativamente maior que os outros dois fatores, mesmo considerando os dois conjuntamente.
Embora representantes do setor de apostas esportivas tentem minimizar a evidente gravidade do problema com o argumento de que mais de metade dos apostadores gasta quantias consideradas irrisórias, na faixa de até R$ 50, esta justificação apressada ignora por completo a verdadeira dinâmica do negócio.
A distribuição de gastos em apostas esportivas é, de fato, fortemente assimétrica. Ou seja, o volume de apostas é sobretudo impulsionado por apostadores pertencentes às famílias mais vulneráveis em termos financeiros. Por conseguinte, o foco principal de qualquer análise criteriosa não deve ser o gasto médio individual ilusório, mas sim o seu efeito agregado e implacável sobre o endividamento da sociedade ao longo do tempo.
Este forte desequilíbrio financeiro impulsionado pelas plataformas digitais de jogo não é uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos realizou-se um trabalho semelhante (Gambling Away Stability), e os resultados são os mesmos. Os pesquisadores norte-americanos examinaram as consequências decorrentes da legalização das apostas após 2018.
Baseando-se em microdados bancários o estudo revelou um aumento expressivo do nível de endividamento das famílias, sobretudo nas mais vulneráveis. O fato dos dois países, com contextos econômicos e sociais tão distintos, produzirem resultados tão convergentes justifica e amplia as preocupações com a atuação da indústria das apostas esportivas.
Mas, afinal, qual é a explicação de por que as pessoas se desequilibram financeiramente? A resposta encontra-se essencialmente na própria raiz estrutural do modelo de negócio dessa indústria. O desenho é arquitetado para explorar falhas cognitivas humanas. Trata-se de uma verdadeira armadilha comportamental moderna camuflada de entretenimento, onde o peso da propaganda massiva e a constante fragmentação do processo decisório destroem o comportamento racional.
Trata-se de uma relevante temática social que não só revolucionou o estudo analítico do comportamento de consumo, como já rendeu diversos prêmios Nobel – entre eles Daniel Kahneman.
Kahneman demonstrou que o cérebro humano opera primordialmente por meio de dois sistemas distintos: o chamado Sistema 1, que é extraordinariamente rápido, altamente emocional e marcadamente automático; em contraposição ao Sistema 2, que atua de forma muito mais lenta, estritamente racional e analítica. A propaganda massiva das bets aprisiona o indivíduo no primeiro. Simples assim.