A relação entre Estados Unidos e Venezuela costuma ser descrita em termos ideológicos, porém seus efeitos mais palpáveis são econômicos. Ao longo dos últimos anos, a estratégia de pressão externa — especialmente por meio de sanções — moldou não apenas a política venezuelana, mas também as condições de vida no país e a dinâmica do mercado internacional de energia.
Observada com atenção, essa interação se aproxima menos de um embate moral e mais de um jogo estratégico repetido, em que decisões presentes são tomadas antecipando reações futuras.
Do lado norte-americano, o uso de sanções parte da premissa de que restrições econômicas podem catalisar mudanças políticas. Em termos de teoria dos jogos, trata-se de uma estratégia punitiva: ao impor custos elevados, espera-se alterar o comportamento do outro jogador.
O problema é que, em jogos repetidos, punições prolongadas tendem a perder eficácia. Desse modo, as sanções freiam a atividade produtiva, afastam investimentos e enfraquecem o setor privado local, sem assegurar a cooperação almejada. Com o tempo, o custo econômico se acumula — inclusive para empresas e consumidores fora da Venezuela — enquanto o ganho político permanece incerto.
Esse quadro pode ser compreendido como uma versão do Dilema do Prisioneiro, em que ambos os países teriam ganhos superiores em um resultado cooperativo (alívio gradual de sanções em troca de compromissos econômicos e institucionais verificáveis).
No entanto, a desconfiança recíproca leva cada lado a escolher a estratégia dominante de curto prazo: os Estados Unidos mantêm a pressão para não “ceder primeiro”, e a Venezuela responde fechando-se ainda mais e reforçando o controle estatal para contornar as restrições. O desfecho é um equilíbrio ruim para ambos, mas estável — precisamente porque ninguém quer assumir o risco de cooperar isoladamente.
Na Venezuela, o ambiente externo reforça um contexto já marcado por forte intervenção estatal. A dificuldade de acesso a mercados, tecnologia e financiamento limita a recuperação econômica e reduz os incentivos à diversificação produtiva. Do ponto de vista do jogo, o governo venezuelano adapta sua estratégia para minimizar perdas, ampliando seu papel como mediador quase exclusivo da atividade econômica. O impacto recai sobretudo sobre a população — na forma de menor renda, instabilidade e restrições ao consumo — enquanto o setor privado perde espaço e capacidade de reação.
A teoria dos jogos também ajuda a explicar por que esse impasse persiste: trata-se de um jogo repetido com alto custo de mudança de estratégia. Mesmo quando os resultados são claramente insatisfatórios, abandonar a postura atual envolve riscos políticos internos: para Washington, parecer complacente; para Caracas, parecer fraco. Assim, a lógica do equilíbrio — ainda que ineficiente — incentiva a continuidade do confronto.
Nesse cenário, abordagens graduais tendem a produzir resultados mais consistentes. Em jogos repetidos, estratégias condicionais, como “cooperação em troca de cooperação”, costumam gerar melhores desfechos ao longo do tempo. A vinculação de avanços econômicos a compromissos claros e verificáveis pode reduzir incertezas, reativar fluxos comerciais e fortalecer mecanismos de mercado, sem exigir concessões unilaterais imediatas.
O caso Estados Unidos–Venezuela sugere que políticas externas precisam considerar não apenas seus objetivos declarados, mas também seus efeitos econômicos de longo prazo. Em economias já fragilizadas, estratégias rígidas tendem a cristalizar equilíbrios ruins. A teoria dos jogos não oferece soluções milagrosas, mas indica que, frequentemente, insistir no confronto não é sinal de firmeza — é apenas manter-se preso a um jogo em que todos perdem.
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