Na madrugada deste sábado (3/1) Caracas, a capital da Venezuela amanheceu sob bombardeio norte-americano. De acordo com o presidente americano, Donald Trump, o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama venezuelana, Cilia Flores, foram levados para fora do país. O objetivo seria julgar Maduro nos EUA por supostos crimes ligados a narcoterrorismo.
A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, divulgou na rede social X que Nicolás Maduro foi acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos. Eles [Maduro e a primeira-dama venezuelana], afirma, “enfrentarão toda a severidade da justiça americana em solo americano, em tribunais americanos”.
Maduro é presidente da Venezuela desde 5 de março de 2013, data da morte do então líder venezuelano Hugo Chávez. Apesar de realizar eleições, não se pode dizer que a Venezuela é hoje uma democracia. Em 2017, por exemplo, o governo de Maduro manietou o Legislativo que havia passado a ser dominado pela oposição, eleita pelo voto popular. As duas últimas eleições presidenciais foram consideradas problemáticas, sendo que a última, em 2024, foi considerada uma fraude pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
Sob a gestão de Maduro, a economia do país também se deteriorou. Depois de atingir um ápice de 130.000% em 2018, em outubro deste ano, ela estava em cerca de 270%, a maior do mundo. A crise política e econômica provocou um êxodo populacional de mais de 7,7 milhões.
A vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, exigiu que os Estados Unidos enviem uma prova de vida de Maduro. “Diante dessa situação brutal e desse ataque, nós desconhecemos o paradeiro de Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores”, afirmou.
Papel do Brasil em xeque
O ataque norte-americano à Venezuela é para o Brasil um choque mais que eleitoral. Com Mercosul e OEA enfraquecidos e um governo dos EUA disposto a intervenções diretas no continente, o papel do país como líder e mediador na região foi enfraquecido imediatamente. E as consequências de longo prazo vão passar pelo funil das eleições deste ano, com os filtros ideológicos inescapáveis.
Se Flávio Bolsonaro comemorou imediatamente nas redes a “libertação” do povo Venezuelano e Javier Milei publicou que a liberdade avança, “carajo”, o presidente Lula escreveu que os bombardeios e a captura “ultrapassam uma linha inaceitável”, afrontam a soberania da Venezuela abrem um “precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
O presidente brasileiro ligou a condenação ao uso da força à posição que o Brasil adotou historicamente em outras situações (sem citar a exceção sob Jair Bolsonaro). Disse que a ação lembra “os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe” e colocou o Brasil à disposição para promover o diálogo.
Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
Atacar países, em…
— Lula (@LulaOficial) January 3, 2026
A citação a organizações como a ONU mostra a distância de objetivos e meios entre um Lula que vê no multilateralismo o palco para o papel global do Brasil e um Trump que ignora os grandes fóruns e trata a diplomacia como um jogo de potências em que os vetores são a força, o interesse próprio e a “química” pessoal entre líderes. A cúpula do governo brasileiro faz uma reunião de emergência no Itamaraty para discutir o ataque americano à Venezuela.
Em meio a essas diferenças de visão, o ataque deste fim de semana adiciona um elemento de incerteza geopolítica na América do Sul, no momento em que países da região tentam se estabilizar após convulsões internas. E é uma estabilização em que, com exceção do Brasil, tem sido feita pela direita, como ocorreu na Argentina, Bolívia, Peru, Equador e, por último, no Chile.
Com o futuro da Venezuela incerto e uma eleição que pode tirar a esquerda do poder na Colômbia, é cercado de governos de direita que o Brasil enfrentará as eleições deste ano em outubro. Fora a situação ideologicamente confusa de Guiana e Suriname, podem sobrar só Brasil e Uruguai, país em que o governo de esquerda já busca inspiração no modelo repressivo de Nayib Bukele para a segurança.
É, para Lula, uma corrida contra o vento que sopra do norte.