A realização da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em novembro de 2025, em Belém do Pará, não é apenas um marco diplomático. Trata-se de um teste de coerência — para o Brasil, que assume a presidência da conferência em plena Amazônia, e para o regime climático internacional, que completa uma década desde a adoção do Acordo de Paris. A COP30 se desenha como um divisor de águas: ou será a “COP da virada”, na expressão já cunhada pelo embaixador André Corrêa do Lago, ou poderá consolidar a percepção de que o multilateralismo climático perdeu tração.
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Se a COP28, em Dubai, marcou o início da discussão explícita sobre “transição para longe dos combustíveis fósseis” e a COP29, em certa medida, decepcionou ao esvaziar o tema, a conferência de Belém terá a difícil missão de retomar o fio da coerência.
O momento coincide com a entrega das novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que deverão fixar metas até 2035. Embora os países tenham obtido um prazo estendido até setembro para submeter suas metas e integrá-las à avaliação global da ONU antes da COP30, apenas cerca de 60 apresentaram suas propostas até agora — menos de um terço dos signatários da UNFCCC. O número evidencia não apenas atraso burocrático, mas um déficit político preocupante: justamente os maiores emissores, responsáveis por cerca de 65% das emissões globais, são os que mais hesitam ou apresentam metas aquém do necessário.
Com efeito, a União Europeia, que responde por 6% das emissões, limitou-se até o momento a uma carta de intenção prometendo cortes entre 66% e 72% até 2030, sem formalizar a meta em sua NDC. Os Estados Unidos, responsáveis por 11% das emissões, estabeleceram meta de redução entre 61% e 66% até 2035, classificada pelo Climate Action Tracker como “criticamente insuficiente”. A China, que responde por 32% das emissões, por sua vez, anunciou o compromisso de reduzir as emissões de 7% a 10% até 2035 “em relação ao pico” – analistas indicavam que, no mínimo, 30% seria uma meta alinhada para limitar o aquecimento global sob a meta de 1,5oC acima dos níveis pré-industriais, razão pela qual a meta anunciada foi vista como “enigmática” por não especificar a linha de base e “aquém do necessário”. O Brasil, que representa 3% das emissões, propôs redução entre 59% e 67%, centrada no combate ao desmatamento — também considerada “insuficiente”.
Para o Brasil, país anfitrião da conferência, o cenário é de contrastes.
Embora tenha apresentado uma NDC revisada, ainda há críticas quanto à ausência de metas mais específicas voltadas aos setores industrial e energético e a liberação para exploração de petróleo na Foz do Amazonas às vésperas da COP30 parece ir na contramão do discurso climático.
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De outro lado, o lançamento da plataforma de implementação do Acelerador de Transição Industrial (Industrial Transition Accelerator – ITA) projeta o país em posição de destaque no esforço global de descarbonização. O Brasil é o primeiro a adotar oficialmente essa iniciativa multissetorial, voltada a impulsionar a redução de emissões em indústrias de alta intensidade de carbono. A escolha do país para sediar o primeiro núcleo do ITA reflete o reconhecimento internacional da trajetória nacional em políticas de descarbonização industrial e na criação de um ambiente regulatório favorável à transição energética.
Alinhado à Missão 5 da Nova Indústria Brasil (NIB) — dedicada à bioeconomia, à descarbonização e à segurança energética —, o ITA busca acelerar projetos privados prioritários que ampliem o portfólio brasileiro de descarbonização profunda até a COP30. A iniciativa tem como objetivo destravar investimentos em larga escala em setores como alumínio, cimento, produtos químicos, aço e transporte, fomentando soluções tecnológicas e cadeias produtivas mais limpas.
Outro aspecto decisivo nas próximas semanas será o financiamento climático. Em Baku, os compromissos firmados somaram apenas US$ 300 bilhões até 2035 — muito aquém dos US$ 1,3 trilhão estimados pela Agência Internacional de Energia para o mesmo período. Sem uma mobilização robusta, envolvendo bancos multilaterais, instrumentos de de-risking, integração de taxonomias e maior participação de instituições financeiras nacionais em estruturas de coinvestimento, qualquer pacto climático corre o risco de se tornar letra morta. É essencial que o setor financeiro exerça um papel protagonista na construção de uma economia de baixo carbono.
Nesse contexto, destaca-se o Tropical Forests Forever Fund (TFFF), estruturado por especialistas do governo brasileiro como um fundo de investimento que remunera investidores — países ou entidades privadas — e destina parte dos rendimentos a nações detentoras de florestas tropicais que comprovem sua preservação. Para iniciar suas operações, o fundo precisa captar US$ 25 bilhões (cerca de R$ 132 bilhões) até novembro, durante a COP30, em compromissos de investimento de governos e entidades filantrópicas. O plano completo prevê US$ 125 bilhões, sendo US$ 100 bilhões provenientes do setor privado.
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A adaptação climática — frequentemente relegada — precisa ocupar o centro da agenda de Belém. No Brasil, eventos extremos recentes revelaram fragilidades estruturais, especialmente em drenagem urbana, gestão hídrica e monitoramento de riscos. Para responder a esses desafios, é necessário priorizar instrumentos que gerem impacto mensurável: ampliar o uso de soluções baseadas na natureza (SbN) — como reflorestamento de bacias, infraestrutura verde urbana, bioengenharia de encostas e restauração de áreas úmidas — e integrá-las a políticas públicas e investimentos privados. Tecnologias associadas à captura e armazenamento de carbono (CCS/BECCS), quando aplicadas a projetos de bioenergia, também podem reforçar a capacidade de mitigação e adaptação no longo prazo.
Estudos internacionais demonstram o alcance dessas abordagens. O Global Facility for Disaster Reduction and Recovery do World Bank contabilizou cerca de 250 projetos entre 2012 e 2024 que combinam SbN e infraestrutura convencional para fortalecer a resiliência climática — desses, 66 projetos encerrados beneficiaram 9,5 milhões de pessoas e restauraram 1,1 milhões de hectares de ecossistemas. Em última análise — adaptar custa caro, porém não adaptar sai bem mais caro. Os impactos de tempestades, inundações, secas e calor extremo recaem desproporcionalmente sobre a população, enquanto as externalidades positivas das soluções podem resultar em economia de riscos e proteção ao patrimônio público e privado, por exemplo.
Belém será, portanto, um teste de coerência. Para o regime climático, é a oportunidade de demonstrar que ainda é capaz de avançar mesmo em meio à crise do multilateralismo. Para o Brasil, é a chance de provar que sua liderança internacional é compatível com suas escolhas domésticas. Se conseguir entregar isso, a COP30 poderá ser lembrada como o momento em que o Acordo de Paris recuperou tração. Caso contrário, será a conferência da oportunidade perdida — e o mundo precisará reconhecer que enfrentar ameaças globais exige mais do que consensos frágeis.