Um levantamento conduzido pelo JOTA com 36 deputados e 13 senadores influentes no Legislativo demonstra que a revogação da impopular “taxa das blusinhas” dividiria bancadas na Câmara dos Deputados e não seria aprovada com facilidade pelos senadores. Entre os entrevistados, estão 18 líderes de blocos partidários, presidentes de comissão e/ou integrantes das Mesa Diretoras das Casas.
“Taxa das blusinhas” é como ficou conhecida a cobrança de 20% da alíquota do Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, aprovada pelo Congresso em junho do ano passado. Dos 36 deputados, 55% disseram apoiar a revogação da medida.
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O ambiente no Senado seria mais hostil, com 46% dos entrevistados contrários ao fim da taxação, enquanto 23% não souberam responder. O JOTA ouviu os parlamentares entre os dias 7 e 18 de julho.
Como o JOTA publicou, há um movimento político gestado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) para incluir a revogação entre as pautas do governo para este ano. A ideia conta com a simpatia de outros ministros que foram contrários à taxação, como Rui Costa (Casa Civil) e Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais), mas não avançou a ponto de se debater a forma para endereçá-la. O Ministério da Fazenda sequer foi consultado sobre o assunto.
Pesquisas internas da Secom e outras divulgadas por institutos, como o AtlasIntel, apontam que a “taxa das blusinhas” tem os maiores índices de rejeição entre todas as medidas aprovadas no terceiro mandato de Lula.
O deputado Rogério Correia (PT-MG), presidente da Comissão de Finanças e Tributação, recordou que estava com Lula no dia em que a Câmara votaria a taxa — um jabuti idealizado pelo então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), para o PL 914/2024, que criou o Programa Mover.
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“Fiquei uma hora com Lula e Gleisi para tratar da candidatura à Prefeitura de Belo Horizonte, mas só consegui conversar com ele por cinco minutos. Ele não queria votar. Ligava ministro, ligava líder. O Arthur Lira ligou duas vezes. O Lula falou que chegou no limite [da alíquota], disse para o Lira que era contra a taxação e que já tinha feito muita concessão. Foi muita pressão vinda do Congresso”, disse Correia, que é favorável à revogação.
Discurso semelhante foi feito pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), e pelo líder do governo na Casa, José Guimarães (PT-CE). Ambos disseram defender a revogação do tributo porque Lula foi contrário à sua criação.
‘Não assunto’
O ensaio, ainda tímido, por parte de setores do Palácio do Planalto para retomar o debate não chegou aos Salões Verde e Azul. Líderes de bancadas e parlamentares influentes insistem que a revogação continua sendo um “não assunto” e que é difícil captar o clima no Congresso sobre algo que não é visto como uma prioridade para o atual momento.
Mesmo com tal diagnóstico, um deputado relevante no centrão provocou: “Isso virou uma questão política. Quem vai se colocar contra?”. Fato é que a iniciativa não é unanimidade nem na base do governo. Três nomes de destaque entre os deputados petistas rechaçam a revogação do tributo, sob o risco de atentar contra a indústria nacional e de comprar uma briga com setores importantes da economia.
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Esses são argumentos recorrentes entre os parlamentares que se opõem a novas mudanças, como os governistas Mauro Benevides Filho (PDT-CE) e Gervásio Maia (PSB-PB), relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026. “A matéria parece muito simpática, em um primeiro momento, para o consumidor. Mas o que eles não sabem é que seus parentes perderão o emprego com o fechamento das empresas brasileiras”, declarou Maia.
Na oposição mais ideológica ao governo, a linha argumentativa é majoritariamente favorável à revogação da “taxa das blusinhas”, mas há quem diga que o assunto precisa ser melhor debatido para não criar um fato positivo para Lula às vésperas do ano eleitoral.
Já opositores mais alinhados aos setores produtivos são fiadores da manutenção do tributo. Entre eles estão Joaquim Passarinho (PL-PA), presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), e Domingos Sávio (PL-MG), presidente da Frente Parlamentar do Comércio e Serviços (FCS). “Se a FPE e a FCS são contra, então isso não vai para frente de jeito nenhum”, disse um opositor do governo com ascendência no centrão. A FPE conta com 208 deputados e 46 senadores. Já a FCS tem 177 integrantes na Câmara e 20 no Senado.
Termômetro no Senado
No Senado, onde o assunto foi votado de forma simbólica e sem discussões sobre o mérito,a revogação da “taxa das blusinhas” enfrentaria um cenário mais adverso. Em geral, os senadores afirmam que o Congresso não deve voltar a se debruçar sobre um tema aprovado recentemente e com consenso no plenário.
“Qualquer pessoa que tem bom senso entende a necessidade da taxação”, disse Cid Gomes (PSB-CE). Omar Aziz (PSD-AM) seguiu a mesma linha: “A revogação seria ruim para a indústria nacional”, afirmou. Laércio Oliveira (PP-SE) resumiu: “Revogar seria um absurdo. É arranjar mais problema”.
Dinâmicas flagradas na Câmara se repetem no Salão Azul, com os opositores da linha mais ideológica favoráveis à revogação, como Eduardo Girão (Novo-CE). “O Brasil precisa de menos impostos”, declarou. Enquanto isso, os detratores do governo que possuem relações mais fortes com o empresariado descredenciam a ideia. “Parece que temos setores do governo que entraram muito cedo no modo campanha”, afirmou um senador filiado ao PL.
Já a bancada petista permanece dividida. Humberto Costa (PT-PE) declarou ser favorável à revogação porque a medida “atingiu as camadas mais pobres” da sociedade. Rogério Carvalho (PT-SE), por sua vez, declarou não ver essa ideia “como um caminho a ser seguido no momento”. A opinião de Carvalho foi compartilhada por Paulo Paim (RS), outro petista contrário à revogação.