Caso do Banco Master escancara jogo político e reforça imagem do mar de lama

O looping de crises políticas no qual o Brasil entrou em 2013, no contexto das Jornadas de Junho e manifestações populares subsequentes contra o então primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), parece longe do fim. De lá para cá, conflitos, polarizações e escândalos escancararam os piores aspectos de nossa política, reforçando uma lacuna que sempre existiu entre o eleitorado e seus representantes. O caso do Banco Master está apenas no começo, e essa etapa inicial talvez seja a mais conturbada e a que mais problemas pode trazer para uma república.

A imagem que eu gostaria de evocar, longe de ser uma novidade, é, na verdade, uma metáfora constantemente evocada em situações como esta: o “escândalo do Banco Master” chega como um furacão no jogo político de 2026. Mais especificamente, gostaria de chamar a atenção para como um furacão é visto por quem o vê a uma certa distância: uma massa de vento que desorganiza e destrói tudo ao seu redor. Ao final do processo, é preciso começar a organizar as coisas, em um misto de colocá-las de volta ao lugar e também de dar um novo lugar a alguma delas.

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Na semana passada, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) entregou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado o relatório final dos trabalhos do colegiado no qual pediu o indiciamento de três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A alegação de Vieira para os indiciar foi fundamentada no fato de que não foi possível aprofundar a investigação no âmbito do Banco Master devido à atuação dos indiciados, que teriam feito o possível para que depoimentos e pistas não fossem obtidos.

Ao fim do dia e após manobras que envolveram a substituição de integrantes, a própria CPI votou contra o relatório de Vieira, encerrando-se, assim, de forma melancólica. Restou apenas um gosto amargo, resultado de, no mínimo, duas circunstâncias: de um lado, após meses de investigações, tudo que ela se propôs entregar havia sido o indiciamento de ministros do STF e de Gonet; do outro, as declarações e reações de membros do STF, longe de os afastarem das acusações advindas do relatório, terminaram por dar-lhes um ar de culpa que, com certeza, afetou um eleitorado já polarizado. Ao fim e ao cabo, Vieira, um senador sério – e com um propósito eleitoral para 2026 – parece ter metido os pés pelas mãos e desgastado sua imagem ao produzir um documento cuja única contribuição será colocar mais lenha na já acalorada fogueira eleitoral, ainda que tenha ignorado as conexões de parlamentares com o Master.

De fato, o escândalo da instituição outrora comandada pelo agora encarcerado Daniel Vorcaro não parece ter uma estrutura diferente da de outros casos de corrupção: ele traz em si uma lógica tentacular, rizomática e não ideológica, alastrando-se por todos os espectros do poder, de alto a baixo, da esquerda à direita. É por isso que se trata de algo confuso para a opinião pública: os muitos nomes dos possíveis envolvidos desfilam diante de nossos olhos e ouvidos ao serem pronunciados nos meios de comunicação e difundidos pelas redes sociais.

A imagem que fica é que corrupção se impregnou no sistema político de modo irascível. A confusão proporcionada por esse tornado político parece criar a necessidade de uma simplificação, a identificação de alguns culpados, para que nosso cérebro consiga processar o evento. Ao seguir qualquer noção ética, não existiria saída fácil para o problema: seria necessário paciência e anos de investigação para que tivéssemos os culpados revelados. O tempo da política, no entanto, é rápido e, quando as coisas estão confusas, o imaginário eleitoral se direciona ao centro do poder político. Sobram apenas narrativas que não dão conta da complexidade dos problemas que enfrentamos.

Nos últimos anos estabeleceu-se em nosso imaginário uma associação entre o STF e a centro-esquerda que, por si só, é indevida e bastante negativa. Arrisco dizer que ela é consequência de um processo ainda mais longo de compreender o STF como um agente político-ideológico, por vezes visto como de esquerda, por vezes como de direita. Nesta narrativa, a corte empreende um antagonismo com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu campo político enquanto se coloca como  aliada do governo Lula 3.

A situação polarizada do Brasil e esse imbróglio político-judiciário atuam de forma a relativizar os limites entre a justiça e a política, criando uma situação indefinida da qual diversos atores políticos buscam se aproveitar, sempre disfarçados de uma aparente neutralidade. De forma prática, todos sabem que um ataque ao STF respinga na imagem do governo, independente da real natureza relacional entre estes agentes.

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Como dito, o caso do Master é rizomático e não ideológico, mas o problema do relatório de Vieira é similar ao de muitos meios de comunicação que buscam priorizar alguns agentes em detrimento de outros: vão ao encontro do que o filósofo Jacques Rancière compreende como “partilha do sensível” e diz respeito a como resolvemos distribuir sensivelmente os elementos que se encontram disponíveis em um todo coletivo.

Ou seja, cabe perguntar por que, considerando todo o escândalo, que envolve agentes de todas as esferas políticas, por que se vem dando mais visibilidade a alguns agentes, enquanto a maior parte dos envolvidos permanece oculta ou pouco mencionada e, portanto, praticamente invisível aos nossos sentidos? Será que esse processo não implica na criação de um sujeito oculto da política nacional, tal como fazemos ao empregar a palavra “Centrão”, que usamos para definir um conjunto de políticos fisiológicos, muito embora o termo oculte seu real posicionamento no campo conservador?

O escândalo Master provavelmente afetará o curso das eleições. Resta saber se a máscara da objetividade se apropriará da necessidade real de apontar os envolvidos para realizar uma partilha do visível para nos conduzir, novamente, a um período de escuridão. Talvez não seja demasiado repetir que a análise da corrupção na política exige tempo e distanciamento ideológico para uma mais objetiva — e futura — aplicação da justiça.

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