O tenente-coronel do Exército Hélio Ferreira Lima afirmou em interrogatório no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (28/7) que seria um “cenário hipotético” as informações sobre a chamada “Operação Luneta”. Segundo as investigações, o documento “Desenho Op Luneta”, encontrado com o militar, trazia detalhamento tático, etapas, análise de riscos e avaliação de ambiente para um suposto golpe de estado no Brasil, em 2022. Inclusive, com a previsão de “neutralizar” o ministro Alexandre de Moraes.
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“Ali, era declinado o objetivo de ‘reestabelecer a lei e a ordem por meio da retomada da legalidade e da segurança jurídica e da estabilidade institucional’, confirmando o intuito da organização criminosa de desconstituir as estruturas vigentes com base em suas próprias noções de lei e ordem. Havia previsão de não admitir governo ligado a ideologias de esquerda”, diz trecho da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Ainda de acordo com a denúncia da PGR, a planilha continha linhas de operações em blocos temporais, que englobam o período de dezembro de 2021 a agosto de 2023, dentre as quais figurava a meta de “neutralizar a capacidade de atuação do Min AM”, em referência ao ministro Alexandre de Moraes, “exatamente o que veio a ser operacionalizado pelo plano Punhal Verde Amarelo”, concluiu a denúncia da PGR.
Ao STF, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima justificou que desenhou o cenário hipotético devido à situação que o Brasil estava vivendo, com pessoas acampadas em portas de quartéis e o aumento da temperatura das discussões sobre o processo eleitoral. Portanto, como oficial de inteligência, ele precisava traçar cenários para o comandante não ser pego de surpresa em nenhuma situação. Segundo ele, o desenho dos cenários era para saber sobre a possibilidade de emprego da tropa e manter a imagem do Exército.
De acordo com o militar, o documento era uma espécie de “esboço” de cenários e não um plano com etapas para um golpe de estado. O juiz auxiliar Rafael Henrique Tamai, do gabinete de Moraes, perguntou ao tenente-coronel se todo o documento era um cenário hipotético, e o tenente-coronel confirmou. “Sim. Totalmente hipotético”. Na sequência, ele disse: “Não tem nada de ilegal, na verdade. É todo amparado em normas legais”.
Depois o juiz acrescentou: “Por que personificar? Por que personificar com um tipo de ministro específico e não o TSE [Tribunal Superior Eleitoral]?”. E o militar explicou que o ministro era uma figura importante por ser o presidente do TSE na época. Ele emendou que nem chegou a despachar com superiores sobre o plano e o trabalho foi abandonado, tanto que a investigação apreendeu um documento incompleto.
“Para o senhor ter uma ideia: eu nem despachei isso com o meu general, porque quando fui tratar esse assunto com ele, ele disse: ‘Ferreira, vamos deixar as proposições para a gente olhar depois e vamos focar nessa possibilidade de tirar esse pessoal aqui da frente [do quartel-general no Rio Grande do Sul]’. É por isso que eu reforço ao senhor: esse trabalho foi abandonado em dois dias.”
O tenente-coronel também disse que não teria competência para levar o plano adiante, mesmo com apoio de Forças Especiais, como os Kids Pretos, pois são poucos homens e muitos não estão na ativa. “Ainda que todos os forças especiais resolvessem se juntar para dar um golpe, seriam fagocitados até por policiais militares dos estados, quem tem mais homens que isso”, disse.
Os interrogatórios do núcleo 3 (militares) estão sendo tomados na AP 2696.