JOTA Principal | Lula vai à ONU e tenta retomar controle da agenda de campanha com soberania

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Após mais uma semana em que a guerra no Supremo Tribunal Federal tomou o noticiário político, Lula vai à Assembleia Geral da ONU amanhã (22) e busca retomar o controle da agenda eleitoral.

A agenda internacional oferece a Lula a possibilidade de voltar a falar como chefe de Estado, e não apenas como candidato, Vivian Oswald e Daniel Marcelino analisam na nota de abertura.

Ainda assim, as revelações do caso Master são indiferentes à agenda do petista — e o fim de semana trouxe mais uma, desta vez um vídeo do ministro Alexandre de Moraes desembarcando ao lado da esposa, Viviane Barci, de um jatinho de Daniel Vorcaro, conforme mostrou O Globo (com paywall).

Mas, por incrível que pareça, o Supremo não trouxe só más notícias para Lula nos últimos dias. Na sexta (18) à noite, o ministro Gilmar Mendes disse que o decreto que aumentou o Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno é constitucional, se antecipando à analisa do Tribunal Superior Eleitoral.

Boa leitura e boa semana.

O PONTO CENTRAL

1. Palanque internacional

A poucos dias de uma eleição acompanhada de perto pela comunidade internacional, Lula dobra a aposta na vitrine que o púlpito da Assembleia Geral da ONU pode oferecer, Vivian Oswald e Daniel Marcelino analisam no JOTA PRO Poder.

Pela tradição, o Brasil é o primeiro país a falar na abertura da sessão.
É o momento de maior concentração da plateia no plenário, com representantes dos 193 países-membros e dos dois Estados observadores atentos aos recados do presidente brasileiro.

🔭 Panorama: É nesse palco que Lula deverá, sem citar diretamente os Estados Unidos, exigir respeito à soberania nacional e defender a não interferência externa nos assuntos internos dos países.

A mensagem terá CEP conhecido, mas uma audiência muito maior: o restante do mundo.
Em seu décimo discurso na Assembleia Geral da ONU, Lula também deverá defender o multilateralismo, cobrar compromissos contra a mudança climática, tratar dos principais conflitos internacionais e destacar os esforços brasileiros no combate ao crime organizado.
A rápida passagem por Nova York ocorre em um momento crucial da campanha, com a disputa eleitoral cada vez mais acirrada.
No mesmo bate-volta, Lula se reúne com o prefeito da cidade, o democrata Zohran Mamdani, um dos principais opositores políticos de Donald Trump, e concede entrevista a Christiane Amanpour, da CNN.

A agenda internacional oferece a Lula a possibilidade de voltar a falar como chefe de Estado, e não apenas como candidato…

…ao mesmo tempo que busca recolocar no centro da campanha um tema que o Planalto vinha construindo como uma das principais plataformas políticas: a defesa da soberania diante da pressão americana.

O problema é que a campanha mudou de assunto.

A soberania, preparada pelo Planalto e por Sidônio Palmeira como um dos eixos da disputa, acabou parcialmente sequestrada por uma sucessão de episódios que dominaram a agenda do eleitor.
A crise envolvendo ministros do STF, o Banco Master e Daniel Vorcaro ocuparam o debate público e empurraram para segundo plano a narrativa que o governo pretendia construir em torno da pressão de Washington.

A ida à ONU permite a Lula recuperar esse eixo, ainda que dificilmente nas condições imaginadas quando a estratégia começou a ser desenhada.

O discurso da soberania ainda pode produzir dividendos, sobretudo ao oferecer ao presidente um palco internacional para confrontar a ideia de interferência externa.
Mas seu impacto tende a ser menor do que o Planalto esperava a princípio.

⏩ Pela frente: Lula terá um palco global para falar de soberania justamente quando o tema perdeu espaço na agenda doméstica.

A ONU não devolve ao Planalto o controle da agenda que ele imaginou no início dessa estratégia.
Mas oferece uma rara oportunidade de tentar recuperá-lo, sobretudo porque não há perspectiva de avanços nas negociações comerciais até o fim da eleição.

Aliás… Na volta dos Estados Unidos, Lula deve intensificar a agenda de campanha com viagens ao Rio de Janeiro, a São Paulo e, possivelmente, ao Recife.

Lula participa na quarta (23) à noite de um ato com artistas na Fundação Progresso, no Rio.
No dia seguinte, está prevista uma caminhada na zona leste de São Paulo, ainda a confirmar, e à noite um jantar com empresários na capital paulista, também sem confirmação oficial.
Na sexta (25), existe a intenção da campanha de levar o presidente a algum estado do Nordeste, sendo que Pernambuco é a hipótese mais provável, mas a agenda ainda não foi fechada.

UMA MENSAGEM DA INDÚSTRIA BRASILEIRA (CNI, SESI, SENAI, IEL)

CNI participa da Semana do Clima de Nova York

Crédito: Iano Andrade/CNI

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) estará presente, de 21 a 24 de setembro, na Semana do Clima de Nova York (NYCW 2026), um dos principais eventos que antecedem a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada em novembro, na Turquia.

Em conjunto com a Sustainable Business COP e o Instituto Orbis, as instituições vão promover mesas-redondas, fóruns e participações em eventos estratégicos para a cooperação dos países em temas como descarbonização industrial, transição energética, inovação e financiamento climático.

Entre os destaques da programação está a parceria entre a CNI e o Conselho de Relações Econômicas Externas da Turquia que resultará na assinatura de um memorando para garantir a continuidade das ações climáticas e o engajamento do setor privado na transição entre as presidências sucessivas da COP (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas).

2. Agenda doméstica

O ministro Gilmar Mendes / Crédito: Rosinei Coutinho/STF

Gilmar Mendes decidiu na noite da última sexta (18) que o reajuste do Bolsa Família, promovido pelo governo Lula, é válido e não fere a Lei Eleitoral, Flávia Maia registra no JOTA.

Para o ministro, a providência adotada corresponde à atualização periódica dos valores prevista na lei que atualmente disciplina o Bolsa Família.

🔭 Panorama: A decisão do ministro atende a um pedido da Advocacia-Geral da União, que apresentou uma petição ao Supremo para que a Corte reconhecesse a constitucionalidade do decreto.

O pedido da AGU foi feito em um mandado de injunção de relatoria do ministro Gilmar.
Na quarta-feira passada (16), a Defensoria Pública da União voltou a uma ação que estava parada desde junho de 2024 para argumentar que a lei do Bolsa Família prevê que os valores devem ser reajustados a cada 24 meses — e que essa recomposição não ocorreu.
Por isso, a DPU pediu para que o Supremo cobrasse do governo federal as providências e que abrisse uma mesa de negociação para atualização dos valores.
No dia seguinte, Gilmar deu um despacho ordenando à União que explicasse em 15 dias as medidas tomadas para a recomposição inflacionária dos valores do Bolsa Família.
Também na quinta-feira (17), o governo Lula divulgou o decreto aumentando o benefício em 15,04% — o piso passou de R$ 600 para R$ 691, com impacto previsto de R$ 22,7 bilhões para 2027.

3. Compras públicas

O cair da tarde em Brasília / Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Oito projetos que mudam as regras de compras públicas avançaram no Congresso neste ano e podem alterar o regime de contratações do Estado, Daniel Marques Vieira escreve no JOTA.

Levantamento do JOTA identificou centenas de propostas sobre licitações em tramitação no Congresso.
Destas, 15 tiveram movimentação em 2026 e oito foram aprovadas em algum colegiado.

Por que importa: Os textos tratam de ampliação de limites para aditivos contratuais, regulamentação de plataformas locais de disputa, pagamento de dívidas tributárias por meio de obras públicas, flexibilização da dispensa de certames na área da saúde e exigência de programas de integridade (compliance) em contratações de estados e municípios.

A definição de margens de preferência para a indústria nacional concentra o maior volume das discussões.
O objetivo é facilitar o acesso de empresas brasileiras às compras públicas.
Parte dessas matérias avança em caráter conclusivo nas comissões, sem necessidade de análise pelo plenário.
Cinco das oito propostas mapeadas aguardam deliberação na Comissão de CCJ ou já foram remetidas ao Senado.

Leia na reportagem a lista completa e o estágio de cada projeto.

4. O cenário nos Executivos estaduais

O senador Cleitinho Azevedo, líder nas pesquisas para o governo de MG / Crédito: Ton Molina/Agência Senado

O centrão caminha para ampliar seu domínio do Executivo nos estados, Beto Bombig escreve no JOTA PRO Poder.

O bloco deve sair das urnas neste ano como o grande vencedor das disputas regionais.
Fazem parte: PSD, MDB, Republicanos, Avante, PSDB e os federados, União-PP, entre outros.

🔭 Panorama: O controle do Orçamento e das emendas no Congresso desequilibra a disputa eleitoral nos estados, que são altamente dependentes da União.

Neste ano, o Republicanos está na frente em São Paulo, com Tarcísio de Freitas, e em Minas Gerais, com Cleitinho Azevedo.
No cenário traçado por Kassab, o PSD se consolidará nesta eleição como uma grande força no comando dos estados — entre eles, o segundo maior colégio eleitoral do país, o Rio.
Eduardo Paes, se eleito, será apontado como presidenciável para 2030, mantendo o sonho de uma “terceira via” nacional relevante.
Tido como inventor da fórmula de priorizar os estados em vez do Planalto, o MDB tem boas chances em AL, ES, GO, MA, PA e RS para manter seu peso nacional.

5. Casa Alta em baixa

A tradicional candidatura de governadores em segundo mandato ao Senado perdeu força nas eleições de 2026, Maria Eduarda Portela escreve no JOTA.

Dos 18 chefes dos Executivos estaduais reeleitos em 2022, 11 deixaram o governo com planos eleitorais: seis disputam uma cadeira no Senado e dois concorrem à Presidência da República.
Outros dois desistiram da disputa após renunciar, e um ficou inelegível.
Os sete restantes decidiram permanecer no cargo até o fim do mandato.

Por que importa: O movimento ocorre, em especial, por instabilidades em coalizões locais ou rompimentos com vice-governadores, segundo especialistas ouvidos pelo JOTA.

Nesses casos, permanecer no comando do estado pode ser uma estratégia para preservar o grupo político no poder e influenciar a sucessão estadual.

Leia a reportagem completa com os detalhes caso a caso.

AGENDA BSB

6. PIB, inflação e mais

O governo publica amanhã (22) a atualização dos cálculos oficiais para o PIB e para a inflação. Os dados estarão no Boletim Macrofiscal, com divulgação prevista para as 10h30. No caso do PIB, o governo estimou no último relatório (em julho) um crescimento de 2,3%. O mercado atualmente prevê uma expansão menor, de 1,89%. Para a inflação, o Ministério da Fazenda previu no documento anterior um IPCA de 5,1%. O mercado calcula atualmente um indicador mais baixo, em 4,9%.
O Copom publicará também amanhã (22) a ata da reunião da semana passada. O colegiado deve detalhar o cenário econômico e a decisão de continuar o ciclo de “calibração” dos juros, que levou a Selic de 14% para 13,75% ao ano. No comunicado da decisão, o Copom destacou o aumento de incerteza e ressaltou que a condução da política monetária demanda “serenidade” e “cautela” ao não sinalizar os próximos passos.
O governo divulga na quinta (24) o relatório bimestral de receitas e despesas, que vai incorporar o efeito do Bolsa Família em 2026. Serão R$ 5,8 bilhões de impacto no ano a serem acomodados no Orçamento. O ministro Bruno Moretti (Planejamento) afirmou que a iniciativa está sendo tomada sem provocar variação adicional da despesa total. Segundo ele, serão usados recursos que estão sobrando da Previdência. O documento também vai atualizar a situação de outras rubricas, como receitas e despesas ligadas a petróleo e combustíveis.
Também na quinta (24), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor de Política Monetária, Paulo Picchetti, concederão entrevista coletiva após a publicação do Relatório de Política Monetária. O BC atualizará suas projeções para os principais indicadores econômicos, além de publicar pela primeira vez sua projeção para o PIB de 2027. Na parte da tarde, o CMN (Conselho Monetário Nacional) realiza sua reunião ordinária mensal. O resultado do encontro entre o presidente do BC, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, é publicado após às 18h30.
O Pleno do TST (Tribunal Superior do Trabalho) deve definir na terça (22) a partir de quando pode ser aplicada a prescrição intercorrente na fase de execução, introduzida na CLT pela Reforma Trabalhista. O julgamento ocorrerá sob o rito dos recursos repetitivos, no Tema 39, e a tese fixada deverá orientar toda a Justiça do Trabalho. A controvérsia é se a prescrição intercorrente somente pode ser aplicada na execução de sentenças posteriores à entrada em vigor da Reforma Trabalhista ou se basta que a intimação para que o credor dê andamento ao processo tenha ocorrido depois da vigência da nova lei. A prescrição intercorrente ocorre quando, durante a execução, o credor permanece inerte pelo prazo de dois anos.

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