Governadores em fim de mandato fogem da tradicional rota de candidatura ao Senado em 2026

A tradicional candidatura de governadores em segundo mandato ao Senado perdeu força nas eleições de 2026. Dos 18 chefes dos Executivos estaduais reeleitos em 2022, 11 deixaram o governo com planos eleitorais: seis disputam uma cadeira no Senado e dois concorrem à Presidência da República. Outros dois desistiram da disputa após renunciar, e um ficou inelegível. Os sete restantes decidiram permanecer no cargo até o fim do mandato (veja a lista ao fim do texto).

Para especialistas ouvidos pelo JOTA, o movimento ocorre, em especial, por instabilidades em coalizões locais ou rompimentos com vice-governadores. Nesses casos, permanecer no comando do estado pode ser uma estratégia para preservar o grupo político no poder e influenciar a sucessão estadual.

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Rompimentos estaduais

Um desses casos de rompimento é o do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), que permanecerá no comando do estado até o fim do mandato. A decisão foi tomada para evitar que seu vice, Felipe Camarão (PT), assumisse o Palácio dos Leões.

Brandão foi vice-governador de Flávio Dino, agora ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), por dois mandatos, e assumiu o governo quando o então governador deixou o cargo para concorrer ao Senado. No entanto, o político rompeu com o grupo ligado a Dino e ao petista Felipe Camarão e decidiu apoiar o seu sobrinho, Orleans Brandão (MDB), para concorrer ao Palácio dos Leões.

No Rio Grande do Norte, o caso é parecido. A governadora Fátima Bezerra (PT) chegou a anunciar em fevereiro que iria renunciar ao cargo para concorrer ao Senado, mas voltou atrás e passou a criticar o seu vice, Walter Alves (MDB). Segundo ela, o emedebista “atende a interesses de uma velha elite que nunca aceitou um RN governado pelo povo”.

Gustavo Fernandes de Paula, doutorando em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), explica que, embora o Senado seja um ambiente atrativo para os governadores em segundo mandato, a manutenção do grupo político no poder estadual acaba se sobrepondo ao projeto pessoal do chefe do Executivo estadual.

“A partir do momento em que existe uma disputa política que pode pôr em risco a coalizão da qual eles fazem parte, às vezes vale a pena eles abrirem mão de uma candidatura ao Senado para a permanência do grupo político deles no poder”, indica Gustavo de Paula.

“A questão deles no mandato é uma forma de conseguirem controlar a máquina pública e os desfechos eleitorais. […] No caso do Carlos Brandão, por exemplo, houve rompimento com o vice. Então, ao permanecer no cargo, ele tem algum controle da máquina política e das alianças ali para conseguir fazer seu sobrinho, Orleans Brandão, ter força política”, complementa o doutorando da USP.

Helcimara Telles, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), avalia que, em muitos casos, o cálculo sucessório passou a pesar mais na escolha política dos governadores de segundo mandato. Para ela, embora eles deixem de disputar um cargo eletivo, isso não significa que vão deixar a vida pública.

“Um governador que termina o mandato pode continuar muito forte se mantiver prefeitos, aliados, partido e capacidade de influenciar a sucessão. Em alguns casos, ficar sem mandato por um período pode ser menos arriscado do que assumir uma candidatura que divida o grupo ou comprometa sua posição no estado”, argumenta Helcimara Telles.

Para a professora da UFMG, deixar o governo para disputar o Senado, no caso de um governador em segundo mandato, reflete uma tentativa de ampliar a projeção nacional, mas também pode significar entregar a máquina estadual a um sucessor que não pertence ao seu grupo.

“Isso não significa que o Senado tenha perdido importância. O Senado continua sendo uma posição muito forte, com mandato longo e projeção nacional. O que mudou é o valor relativo das alternativas. Se o governador tem um sucessor competitivo e consegue manter seu grupo unido, pode considerar mais interessante preservar esse capital político do que disputar uma eleição para o Senado naquele momento”, finaliza Helcimara Telles.

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Candidatura à Presidência

No Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSD) informou que só deixaria o Palácio Piratini para concorrer à Presidência da República, mas a legenda optou pelo nome de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. 

Preterido, Leite tem dificuldades para consolidar o seu sucessor e garantir a sobrevivência do seu grupo político. A pesquisa Quaest, divulgada em 24 de agosto, mostra Gabriel Souza (MDB), vice-governador, com 9% das intenções de voto. Enquanto Luciano Zucco (PL) lidera com 26%, seguido por Juliana Brizola (PDT) com 23%.

O cálculo político de Ratinho Jr. (PSD), governador do Paraná, foi semelhante. Ele chegou a ser cotado para disputar a Presidência pela legenda, mas foi preterido por Caiado e passou a se dedicar para a eleição estadual. 

A pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta sexta-feira (11/9), indica o senador Sergio Moro (PL) na liderança com 35% das intenções de voto e Sandro Alex (PSD), ex-secretário de Infraestrutura e Logística de Ratinho Jr. com 25%.

Assim como Ronaldo Caiado, Romeu Zema (Novo) deixou o governo de Minas Gerais para disputar à Presidência. Vale lembrar que o último governador eleito para o Palácio do Planalto foi Fernando Collor, de Alagoas, na época pelo PRN, eleito em 1989.

Desistência ao Senado

Em um “recálculo de rota”, Ibaneis Rocha (MDB) desistiu de concorrer ao Senado pelo Distrito Federal. A candidatura do ex-governador da capital foi abalada após uma série de crises envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB e o rompimento com a sua vice, Celina Leão (PP) e candidata à reeleição.

“Após muita reflexão, decidi não seguir com a pré-candidatura ao Senado Federal.[…] O que faço agora é um recálculo de rota, pensando no meu bem-estar, nos meus filhos e nos que dependem de mim, nos meus negócios, na minha saúde e em tudo o que construí ao longo desses anos”, afirmou o ex-governador do Distrito Federal.

Crises jurídicas

Já Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro, renunciou ao cargo e anunciou a sua pré-candidatura ao Senado. Em maio, informou à imprensa que desistiu de concorrer a uma cadeira na Casa Alta após ser alvo de duas operações da Polícia Federal em um intervalo de 11 dias.

“Minha família está passando por momentos que jamais imaginei que ia passar. Dias de dor, de exposição, de mentiras, de narrativas – muito pior que a mentira é a meia-verdade. O que transforma atos corretos em tentativas de criminalizar o que era correto”, disse o político à época.

Em junho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a inelegibilidade de Cláudio Castro por abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022. 

Outro que enfrentou processo no TSE foi Antonio Denarium (PP), ex-governador de Roraima. A Corte o tornou inelegível por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O político chegou a renunciar ao cargo para disputar o Senado.

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