No ato de lançamento de sua campanha à reeleição, no último domingo (16/8), Lula abordou um tema que estava fora do script produzido por sua equipe de comunicação. Esse improviso chamou a atenção por não ter ligação direta com a disputa eleitoral em curso e por envolver um antigo aliado: o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). O petista citou um episódio com o magistrado para ilustrar momentos de sua própria trajetória sindical. Até esse ponto, nada muito diferente do que Lula está acostumado a fazer.
Porém, o gesto, tratado por parte da imprensa como “alfinetada”, “desabafo” e “mágoa”, foi interpretado nos mundos político e jurídico como uma sinalização clara de que o presidente não será obstáculo a um eventual impeachment de Toffoli a partir do ano que vem, quando um novo desenho do Senado estará em vigor. O ministro acumula dezenas de pedidos de afastamento protocolados na Casa, impulsionados, principalmente, por contestações ligadas ao escândalo do Banco Master.
“Você veja a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá. Numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço”, disse Lula, em cima do palco montado pela campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo).
Na análise de um profundo conhecedor do presidente, Lula jamais falaria algo tão sério sem medir as consequências, ainda mais utilizando a palavra “caráter”. Haveria um cálculo político sofisticado que passa pela tentativa do petista de se reposicionar como candidato “antissistema”, ou seja, sem vínculo ou “rabo preso” com o STF, instituição que ocupa papel de destaque no imaginário do eleitorado “independente” ou “liberal” e tem vários inimigos. Ou seja, a mensagem seria “mesmo um ministro indicado por mim, não conta com a minha proteção”.
Para além dos supostos cálculos eleitorais, em termos práticos, o efeito imediato da citação é deixar claro que Lula “jogou Toffoli aos leões””, nas palavras de um petista que transita no mundo jurídico. Assim, se forem criadas as condições políticas necessárias para o impeachment de ministros da Corte, constitucionalmente uma prerrogativa do Senado, Lula, dentro ou fora do Planalto a partir de 2027, não vai interferir, avalia ele.
Haveria ainda um outro cálculo estratégico por trás da fala de Lula aparentemente despretensiosa. Caso a oposição forme maioria folgada no Senado e encontre respaldo para promover o impeachment de ministros da Corte, o presidente poderia aplacar a sanha direitista entregando a cabeça de Toffoli. Em sentido oposto, buscaria preservar Alexandre Moraes e o decano Gilmar Mendes, que também estão no radar dos direitistas.
Vavá morreu em janeiro de 2019, quando Lula estava preso em Curitiba, na esteira da Operação Lava Jato. Toffoli, que presidia a Corte, não autorizou a presença de Lula no velório. O ministro concedeu uma autorização parcial para que o petista se encontrasse com familiares em uma unidade militar.
Antes de ter sido indicado ao STF por Lula, em setembro de 2009, o ministro Dias Toffoli atuou diretamente como assessor jurídico e advogado do PT em campanhas presidenciais, além de ter exercido o cargo de Advogado-Geral da União (AGU). Desde a morte de Vavá, interlocutores do magistrado e do presidente dizem que eles não mantêm nenhum tipo de relação cordial.
Meio cheio
]O ato de lançamento da campanha de Lula à reeleição dividiu opiniões importantes entre os que acompanham desde muito longe a trajetória do líder petista e presta muita atenção a seus discursos. Quem enxergou o copo meio cheio, destacou a boa abordagem sobre segurança pública (libertar o povo dominado pelo crime organizado) e a defesa da “soberania nacional”.
Meio vazio
Quem enxergou o copo meio vazio acha que Lula nunca registrou de maneira tão clara, sistemática e reiterada que realmente está com a cabeça no passado, em uma linha política irremediavelmente equivocada: muitas memórias e referências às figuras e intelectuais que fundaram o PT, autoexaltação e apologia do sindicalismo. Ou seja, nenhuma mensagem aos que hoje não se identificam com o o partido e a velha esquerda.