O anúncio de Alfredo Gaspar para ser o vice de Flávio Bolsonaro (PL) em uma chapa puro-sangue é resultado de diversos desacertos do candidato que o levaram a um incipiente isolamento político. Escrevo “incipiente”, pois tudo na política pode mudar, a qualquer momento. Ainda no começo de 2026, o filho zero um do ex-presidente Jair Bolsonaro, cumprindo pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, distribuía sorrisos e barganhava um lugar para a vice em sua chapa.
Naquele momento, não faltou político no campo da direita que estivesse disposto a lustrar os sapatos e rasgar alguns elogios ao candidato: o presidenciável Romeu Zema (Novo-MG) disse que ficaria honrado; a senadora Tereza Cristina (PP-MS) tentou até os últimos momentos e a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) chegou a receber apoio de Eduardo Bolsonaro para compor a chapa com o irmão Flávio. Nas últimas semanas, tudo isso pareceu se derreter. Gradualmente, partidos do centrão, como PP, Republicanos, Podemos e União Brasil, anunciaram que não apoiarão o candidato da extrema direita no primeiro turno.
A perda do apoio se deu em decorrência da série de escândalos envolvendo as relações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, as falas machistas de seu aliado Paulo Figueiredo e as brigas públicas com Michelle Bolsonaro, além da suposta participação de Flávio na afamada “noite das astronautas”, patrocinada pelo então controlador do Banco Master. Sem o carisma do pai e com poucas opções de apoio, o candidato do PL optou por uma solução caseira contando com Gaspar como vice.
Com carreira consolidada no Ministério Público de Alagoas, Gaspar já passou pelo MDB e pelo União Brasil antes de se filiar ao PL. Nos últimos anos, vem cumprindo com um requisito-chave para se manter parte do círculo bolsonarista: a fidelidade ao clã. Cumpre ressaltar que a trajetória do deputado como vice-presidenciável não parece promissora, pois ele é alvo investigação da Polícia Federal por suspeita de estupro de vulnerável — no caso, a possível vítima teria sido uma adolescente de 13 anos de idade.
Nos próximos dias, Flávio terá um árduo trabalho para construir a ideia de que a escolha (ou a falta dela) de Gaspar foi resultado de um forte escrutínio e não do isolamento de sua candidatura. Com a falta de alianças, o candidato terá menos tempo de propaganda na TV aberta e menos palanque em municípios e estados. Enquanto isso, o centrão, longe de ter se afastado de Flávio por diferença de princípios, aguarda os resultados do 1º turno para decidir quem irá apoiar no futuro.
Mas nem tudo é turbulência para o candidato de extrema direita: de acordo com a última pesquisa Quaest, divulgada em 5 de agosto, a vantagem de Lula sobre Flávio caiu de 8% para 5% no segundo turno. Tudo indica que, se o desgaste do candidato do PL nos últimos meses foi real, muita água ainda está por rolar e ainda há tempo para ele recuperar sua posição no pódio da presidência.
Um cenário ainda menos adverso pode emergir principalmente se o inquérito que investiga Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, seguir em frente, conforme autorização do ministro Flávio Dino, do STF.
Os próximos meses, portanto, prometem grandes novidades na disputa política. De um ponto de vista mais amplo, é possível que estejamos diante de uma mudança mais profunda da trajetória política do país. No campo da direita, o desgaste do bolsonarismo e uma possível derrota de Flávio podem abrir espaço para outras personalidades, seja alguém da “velha política”, como o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), seja alguém mais jovem, como Renan Santos (Missão).
No campo do centro e da centro-esquerda, Lula disputa sua última eleição e, vencendo, terá a difícil tarefa de construir um herdeiro político, cujos candidatos mais prováveis, no momento, são Fernando Haddad (PT) e Geraldo Alckmin (PSB). No caso da segunda opção, se mostra mais difícil saber se Lula irá abrir mão de indicar alguém de outro partido que não o PT.
Assim, o isolamento de Flávio Bolsonaro e do PL pode ser o primeiro passo do retorno a uma normalidade política, sem espaço para dinastias e aventureiros. É verdade que Renan Santos, que goza de forte apoio entre os mais jovens, flerta com o modelo policialesco do ditador de El Salvador, Nayib Bukele. Mas ainda é cedo para saber se o candidato vingará.
No momento, as pesquisas e os posicionamentos dos partidos demonstram haver um desgaste do político outsider. O discurso anticorrupção ainda produz algum efeito, mas nos últimos anos ela parece ter se mostrado um “mal menor” diante de um eleitorado fatigado pela polarização.
É possível que o anúncio de Gaspar como companheiro de chapa tenha sido feito por Flávio Bolsonaro com um sutil gosto amargo de decepção. Certamente, parte do eleitorado sentirá o mesmo diante de alguém pouco conhecido. Tem cheiro de “mais do mesmo”, acrescenta pouco para o senador-presidenciável e demonstra isolamento e fraqueza. O bolsonarismo vive seus momentos mais difíceis desde a candidatura de Jair Bolsonaro enquanto o país dá sinais de que pode superar o fanatismo político.