A exatos dois meses de uma eleição presidencial que se prenuncia tumultuada, o Brasil se vê diante de uma dupla crise diplomática sem precedentes. Estados Unidos e Argentina — dois dos maiores parceiros econômicos do país — já não disfarçam o desejo de influenciar os rumos da campanha. Em uma semana, ambos partiram para cima com o intuito de questionar suas instituições e abalar o pleito.
A degradação de ambas as relações em um mesmo dia assustou até mesmo a calejada diplomacia brasileira, que considera de grande gravidade não apenas o ineditismo dos desdobramentos das crises com os dois países, mas também os fundamentos que as originaram.
Em um mesmo dia, os americanos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, condicionando a reversão da medida à concessão de agrément ao deputado Daniel Pérez, embaixador-designado para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília, posto vago desde a posse de Donald Trump.
No Brasil, o governo optou por dispensar o embaixador da Argentina, Guillermo Raimondi. A partir de agora, as relações foram rebaixadas ao nível de encarregados de negócios.
Logo após os primeiros insultos do presidente argentino, Javier Milei, às instituições brasileiras e ao chefe de Estado, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Vitelli, foi convocado pelo Itamaraty por tempo indeterminado para consultas. Não há data prevista para que volte ao posto após as novas ofensas de Milei, que ocorreram desta vez em uma entrevista a um canal argentino.
Em ambos os casos, o Palácio do Planalto vê sinais claros de tentativa de interferência no pleito de outubro. Na nota que publicou após a decisão americana, a Secretaria de Comunicação da Presidência manifestou repúdio à decisão de Washington, que considera baseada em argumentos falsos, e afirma que “fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
Nesta quarta-feira (5/8), em entrevista a uma emissora argentina, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, falou em “interferência absoluta” ao mencionar a participação de Milei no lançamento de campanha política de um candidato — no caso, Flávio Bolsonaro (PL) — às eleições.
Ele destacou ainda que as pessoas que o acompanhavam no lançamento dessa candidatura são ligadas ao grupo que promoveu a tentativa de golpe de Estado no Brasil, clara, investigada, que foi objeto de processo judicial grave e sério e que levou à condenação pela primeira vez de altos comandantes militares do país, com o testemunho de outros comandantes que não aderiram ao golpe.
Segundo Vieira, a situação bilateral só voltará ao normal depois que cessarem as condições que a provocaram.
Ninguém dentro do governo espera normalidade tanto no trato com os EUA quanto com a Argentina, pelo menos durante os próximos dois meses.