Aos 80 anos, Lula inicia última campanha presidencial com desafio de fazer eleitor sonhar com futuro

Aos 80 anos, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva iniciará sua última campanha presidencial justamente onde sua trajetória política começou. A candidatura será oficializada na convenção nacional do PT no próximo domingo, em São Paulo, e o primeiro ato de campanha será no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, o mesmo palco que o projetou nacionalmente durante as greves do ABC no fim da década de 1970. 

A expectativa dos petistas é reunir mais de 30 mil pessoas no evento que marca o início da disputa e, simbolicamente, conecta o nascimento político de Lula ao capítulo final de sua carreira eleitoral.

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A questão é que o país mudou. E a campanha sabe disso.

Depois de três mandatos, boa parte das principais marcas dos governos petistas — como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, valorização do salário mínimo e redução da pobreza — já foi incorporada por parcela expressiva do eleitorado como direitos adquiridos, e não mais como conquistas sociais. Defender esse legado continuará sendo fundamental, mas, na avaliação da campanha, isso não será suficiente.

“Não se ganha eleição olhando só para o retrovisor”, resume um integrante da estratégia presidencial.

Apesar da liderança nas pesquisas, a dificuldade de Lula em ampliar as intenções de voto reforça essa percepção. A aposta continua sendo no carisma do presidente, mas também em oferecer ao eleitor uma ideia de futuro capaz de dialogar com um Brasil diferente daquele que o levou ao Planalto pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2003. 

Nos últimos anos, o presidente encontrou dificuldades para se conectar com pautas mais recentes, como os novos modelos de trabalho, a comunicação acelerada pelas redes sociais e, principalmente, com o eleitorado mais jovem. Esse segmento hoje aparece majoritariamente contrário à sua reeleição, cenário bem diferente daquele vivido nos primeiros anos de sua trajetória política.

A campanha também aposta na capacidade de Lula de se reinventar. Poucos personagens da política brasileira atravessaram uma curva tão dramática quanto a dele. Depois de deixar o Planalto com aprovação recorde em 2010, o petista enfrentou o câncer, viu o PT mergulhar na crise da Lava Jato, foi preso por 580 dias, tornou-se inelegível e parecia ter encerrado definitivamente sua trajetória política. A anulação das condenações, a reconstrução de uma frente política e a vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022 transformaram aquele que parecia ser o epílogo de sua carreira em um dos maiores retornos da história política brasileira. 

Mas o terceiro mandato de Lula não conseguiu unir o país nem responder a todas as questões do Brasil de 2026. Aliados entendem que ainda há um vazio que a campanha tenta preencher. O conteúdo desse “novo sonho” ainda está em elaboração, mas algumas bandeiras já circulam entre os estrategistas. 

A principal delas é a universalização da educação pública em tempo integral. Outra aposta será o fim da jornada de trabalho 6×1, proposta já aprovada pela Câmara, mas que dificilmente será votada pelo Senado antes da eleição de outubro. Com o Brasil envelhecido em relação a 24 anos atrás, o grupo do presidente também formula uma grande política para acolhimento de idosos, ainda sendo desenhada.

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Na área econômica, Lula também pretende combinar o discurso da soberania nacional com desenvolvimento tecnológico. A exploração de minerais estratégicos — hoje conhecidos como “terras raras”, termo que a própria campanha considera pouco compreensível para o grande público — deverá ser apresentada como instrumento para fortalecer uma indústria tecnológica brasileira, desenvolver inteligência artificial nacional e reduzir a dependência externa em setores considerados estratégicos. 

Nesse e em outros campos, o presidente americano Donald Trump deverá ser apresentado como o grande antagonista, o inimigo externo, a quem somente Lula é capaz de enfrentar para defender os interesses brasileiros.

Outro desafio da campanha será convencer o eleitor de que Lula continua tendo energia para governar. Aos 80 anos, o presidente intensificou a rotina de exercícios físicos e faz questão de exibir disposição em agendas públicas. Desde o acidente doméstico sofrido no fim de 2024, quando bateu a cabeça no banheiro do Palácio da Alvorada, Lula passou a dedicar mais tempo à preparação física e costuma repetir, em tom de brincadeira, que viverá até os 120 anos. A preocupação é evitar qualquer percepção de fragilidade que possa alimentar comparações com o ex-presidente americano Joe Biden, criticado na última campanha presidencial por exibir sinais de senilidade. Biden acabou sendo derrotado por Trump.

Se vencer a eleição, Lula encerrará a carreira como o primeiro presidente eleito democraticamente a conquistar quatro mandatos. A campanha acredita que esse desfecho não poderá ser construído apenas pela memória do passado. O operário que surgiu nas greves do ABC precisará convencer o eleitor de que ainda é capaz de oferecer um projeto para o Brasil das próximas décadas.

Os principais momentos da trajetória de Lula

Da liderança sindical à disputa do quarto mandato, a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva atravessa praticamente toda a história recente da democracia brasileira.

Nascimento político de Lula no ABC (1969-1986)

Ingressou nas Indústrias Villares, em São Bernardo do Campo, onde iniciou sua atuação sindical.
Foi eleito dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema e, em 1975, tornou-se presidente da entidade com 92% dos votos.
Liderou as históricas greves do ABC entre 1978 e 1980, tornando-se o principal símbolo do novo sindicalismo brasileiro.
Foi preso por 31 dias durante a greve de 1980 com base na Lei de Segurança Nacional.
Fundou o PT em 10 de fevereiro de 1980 e participou da criação da CUT em 1983.
Foi uma das principais lideranças da campanha das Diretas Já e elegeu-se deputado constituinte em 1986.

O operário quase chega ao Planalto (1989)

Disputou a primeira eleição presidencial direta após a ditadura e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor.
A campanha ficou marcada pelo jingle “Lula Lá”, pela forte polarização e por episódios que influenciaram o desfecho da disputa.
Foi derrotado por Collor, mas consolidou-se como principal liderança da esquerda brasileira.

Lula é eleito presidente (2002-2010)

Moderou o discurso com a Carta ao Povo Brasileiro e venceu José Serra em 2002.
Implantou programas que marcaram seus governos, como Bolsa Família, Fome Zero, ProUni e expansão das universidades federais.
Conduziu um ciclo de crescimento econômico, valorização do salário mínimo e redução da pobreza.
Enfrentou a crise do mensalão em 2005, mas foi reeleito em 2006.
Deixou o governo com índices recordes de aprovação e elegeu Dilma Rousseff como sucessora.

Lula é condenado e preso na Lava Jato (2011-2019)

Superou um câncer na laringe em 2012.
Tornou-se alvo da Operação Lava Jato e foi condenado nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.
Foi preso em abril de 2018 e permaneceu 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
Durante o período, perdeu familiares, iniciou o relacionamento com Janja e manteve intensa mobilização de apoiadores.

Reconstrução política (2021-2022)

Recuperou os direitos políticos após a anulação das condenações pelo STF.
Liderou uma ampla frente política contra Jair Bolsonaro, escolhendo Geraldo Alckmin como vice.
Venceu a eleição presidencial de 2022 na disputa mais apertada da redemocratização.

O terceiro mandato (2023-2026)

Assumiu o governo prometendo reconstrução institucional e enfrentou os ataques de 8 de janeiro.
Retomou programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Mais Médicos e lançou o Pé-de-Meia.
Aprovou o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária, mas passou a governar sob um Congresso mais conservador e com maior poder sobre o Orçamento.
Chega à campanha de 2026 tentando transformar seu legado em um projeto de futuro capaz de levá-lo ao inédito quarto mandato presidencial.
Apesar da melhora em vários indicadores, o alto custo de vida e a persistente polarização do país têm dificultado uma melhora na aprovação de seu governo e as chances de reeleição

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