Virou quase senso comum dizer que a eleição presidencial deste ano será decidida pela rejeição. Em um país mais uma vez dividido entre dois polos, venceria aquele capaz de despertar menos resistência no eleitorado. Há, porém, outro fator menos visível que pode pesar nessa disputa: o desalento. Mais do que escolher o candidato que rejeitam menos, muitos brasileiros parecem pouco entusiasmados com as opções que têm diante de si.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca um quarto mandato sem a aura de esperança que cercou sua primeira eleição em 2002 nem a carga emocional que impulsionou seu retorno ao Planalto 20 anos depois. Naquela campanha, muito além do horror da classe média com a condução dada à pandemia e outros absurdos, havia entre eleitores de esquerda uma mobilização intensa para retirar Jair Bolsonaro do poder. O desafio, agora, é motivar esse mesmo eleitor, sobretudo o não lulista, a ir às urnas para lhe conferir um quarto mandato.
Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, chegou a alimentar expectativas de setores do mercado financeiro, do agronegócio e de uma parcela do eleitorado independente e da direita não bolsonarista. A aposta era que pudesse encarnar uma versão rejuvenescida, menos estridente e mais pragmática do pai. A estratégia tinha um objetivo claro: preservar o eleitor fiel a Bolsonaro e, ao mesmo tempo, avançar sobre o centro. Nos primeiros meses do ano, o flerte com os independentes foi decisivo para seu crescimento nas pesquisas.
O caso Master e o tarifaço americano, porém, ajudaram a arrefecer essa expectativa. E a tentativa de vender Flávio como o “Bolsonaro moderado” perdeu força. Em março, 48% dos entrevistados pela Quaest não o consideravam mais moderado que sua família, enquanto 38% viam diferença. Em julho, a visão de que ele é tão radical quanto o pai chegou a 54%, e apenas 29% ainda enxergavam nele um perfil mais ameno. A estratégia, até aqui, deu em água.
Se o desalento atinge os dois favoritos no eleitorado em geral, ele também afeta aqueles que se colocam como alternativa a ambos. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não têm empolgado e enfrentam grandes dificuldades para chegar perto dos 10% de intenção de voto.
Para Flávio, há um risco adicional: o desânimo com sua candidatura começa a aparecer também em ambientes que, em princípio, deveriam lhe ser mais favoráveis. Nos bastidores, representantes do agronegócio se mostram insatisfeitos com sua atuação durante a crise do tarifaço. A avaliação é que sua recente viagem aos Estados Unidos, onde falou em audiência pública no USTR (Escritório do Representante de Comércio americano), serviu mais para defender sua candidatura e sua posição política do que para representar de maneira efetiva os setores atingidos pelas medidas americanas.
Na Faria Lima, interlocutores já admitem trabalhar com uma nova vitória de Lula como cenário-base diante da fragilidade demonstrada até agora pela candidatura de Flávio. Isso não significa entusiasmo com o petista, mas uma adaptação pragmática ao quadro eleitoral. Também há queixas sobre a pouca clareza da política econômica que seria adotada pelo senador e sobre a ausência, até aqui, de uma agenda capaz de transmitir previsibilidade.
A situação fica mais delicada porque o problema de Flávio não se limita a conquistar quem está fora do bolsonarismo. O vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro disse ter sido desrespeitada e maltratada pelo enteado não foi nem será suficiente para provocar uma debandada nas intenções de voto dentro do núcleo mais fiel ao ex-presidente. Mas pode produzir um efeito mais sutil e eleitoralmente perigoso, ao reduzir a disposição de setores importantes da direita de se mobilizar por Flávio ou até de comparecer às urnas para apoiá-lo.
O risco é particularmente sensível entre mulheres conservadoras e evangélicos, dois públicos nos quais Michelle construiu influência própria.
Nesse ambiente, líderes políticos e representantes de setores econômicos voltaram a intensificar as pressões para que Flávio abra mão da candidatura em favor de um nome considerado mais competitivo. A possibilidade, porém, segue remota. O senador consolidou sua posição dentro do PL e absorveu grande parte do eleitorado fiel ao pai. Mas ainda trabalha para chegar à convenção com a candidatura como fato consumado.
A pesquisa Genial/Quaest aponta uma rejeição de 57% a Flávio e de 50% a Lula. Os números são altos para ambos, mas especialmente ruins para o senador. Por outro lado, 51% dos entrevistados pela Quaest dizem que o presidente não merece mais um mandato, contra 45% que dizem que sim. Apesar da melhora em relação a agosto de 2025, quando o placar era 58% a 39%, mais gente ainda quer vê-lo fora do Planalto em 2027 do que o contrário.
Lula e Flávio enfrentam, assim, versões diferentes do mesmo problema. O presidente, mesmo em vantagem no momento, precisa convencer uma maioria ainda resistente de que deve ficar mais quatro anos. O senador precisa mostrar não apenas que pode herdar os votos de Jair Bolsonaro, mas que é capaz de despertar entusiasmo para além deles.
Em uma eleição em que metade do país rejeita um candidato e mais da metade não quer saber do outro, talvez não baste descobrir quem desagrada menos. Pode vencer também quem conseguir dar a seus eleitores mais motivos para sair de casa.